Pesquisa de Rodrigo Caçapa reúne 800 páginas de documentos históricos que evidenciam papel central de violas, cantorias e sambas nortistas na sonoridade brasileira. Historiadores cariocas do século 20 consolidaram narrativa hegemônica sobre origem do samba no Rio, ofuscando contribuições simultâneas de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte.
Livro reescreve história do samba ao revelar raízes nordestinas da música brasileira
É a tinta dos inimigos que nos deixa entrever a força daqueles que perseguiram
Por que um livro sobre a história do samba precisava ser reescrito? Não tínhamos já uma narrativa consolidada?
Tínhamos, mas era uma narrativa que nasceu de uma operação historiográfica muito específica. Pesquisadores cariocas do século 20, trabalhando nos principais meios de comunicação, consolidaram a ideia de que o samba era carioca. Esqueceram ou ignoraram que Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte estavam fazendo a mesma coisa simultaneamente.
E como Caçapa conseguiu recuperar essa história perdida?
Através de documentos que ninguém havia reunido antes. Periódicos antigos, relatos de viajantes europeus, leis, cartas. Coisas que estavam lá, mas dispersas. O que é brilhante é que muitos desses documentos foram escritos por inimigos da música negra e nordestina. Mas justamente por isso, revelam a força daquilo que condenavam.
Você quer dizer que os preconceitos dos escritores do século 19 acabaram preservando a história que queriam apagar?
Exatamente. Um periódico pernambucano de 1838 critica mulheres grávidas que preferem berimbau a violão. Parece uma anedota trivial, mas é um documento que prova que essa música existia, que era ouvida, que era parte da vida cotidiana. Os inimigos documentaram sem saber que estavam documentando.
E a questão da transmissão radiofônica em 1922? Por que isso importa tanto?
Porque mostra que o Nordeste estava na vanguarda tecnológica da música brasileira. Foram músicos de Pernambuco que fizeram a primeira transmissão de música brasileira pelo rádio. Mas a história oficial diz que o samba nasceu no Rio com "Pelo Telefone" em 1917. Ninguém menciona que cinco anos depois, o Nordeste já estava transmitindo para o país inteiro.
Então o livro não nega a importância do Rio, apenas recoloca o Nordeste no mapa?
Não é recolocar. É reconhecer que nunca saiu do mapa. O samba não nasceu apenas no Rio. Nasceu em múltiplos lugares simultaneamente. O livro permite que a gente ouça isso pela primeira vez.
O Pulso
- Livro reúne 800 páginas de documentação histórica sobre violas, cantorias e sambas nortistas de 1800 a 1930
- Primeira transmissão radiofônica de música brasileira foi feita por músicos pernambucanos em 1922, cinco anos após "Pelo Telefone"
- Pesquisadores cariocas do século 20 consolidaram narrativa hegemônica que atribuiu origem do samba exclusivamente ao Rio de Janeiro
Pesquisa de Rodrigo Caçapa reúne 800 páginas de documentos históricos que evidenciam papel central de violas, cantorias e sambas nortistas na sonoridade brasileira. Historiadores cariocas do século 20 consolidaram narrativa hegemônica sobre origem do samba no Rio, ofuscando contribuições simultâneas de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte.
Novo inventário documental desafia narrativa tradicional que concentra origem do samba no Rio, revelando contribuição fundamental do Nordeste na formação da música brasileira entre 1800 e 1930.
Um livro de quase oitocentas páginas chegou para reescrever a história do samba no Brasil. Organizado pelo músico e pesquisador pernambucano Rodrigo Caçapa, "Um Inventário de Violas, das Cantorias e dos Sambas Nortistas (de 1800 a 1930)" faz algo que parecia simples mas nunca havia sido feito com essa amplitude: deslocar o olhar da música brasileira do Sudeste para o Nordeste, região que no século 19 era chamada de "nortista" pelos cariocas que escreviam a história.
O livro reúne uma documentação vasta e heterogênea. Leis, cartas, relatos de viajantes europeus, reportagens de periódicos antigos—tudo traduzido do alemão, francês e inglês pelo editor Alexandre Barbosa de Souza. Há, por exemplo, um artigo de maio de 1838 publicado em O Carapuceiro, periódico pernambucano fundado pelo frei Miguel do Sacramento Lopes Gama. O texto fala sobre as "antipathias e sympathias" de mulheres grávidas na sociedade escravista, e nele encontra-se uma passagem reveladora: enquanto as senhoras brancas podiam desprezar um concerto de flauta e violão para se deleitar com os sons do berimbau e da marimba dos negros, essa mesma preferência era vista como extravagância, como desvio. O periódico capturava, com ironia fina, as contradições de uma sociedade que separava o "civilizado" do "selvagem" enquanto ambos conviviam entrelaçados.
Caçapa seguiu os passos de Mário de Andrade, que viajou ao "norte" em 1928 e 1929 documentando cocos, folguedos, danças dramáticas, cantorias e sambas. Mas enquanto Mário narrou essas experiências como etnografia, Caçapa inventariou documentos que permitem mergulhar naquilo que se pode chamar de cultura sonora—o conjunto de práticas, percepções e concepções associadas aos sons de uma comunidade em determinado momento histórico. Não é apenas a produção de sons, mas também as escutas impostas, as inaudibilidades de certos grupos sociais, as epistemologias do som, as tecnologias auditivas e a forma como os sons eram percebidos e difundidos.
O que torna essa obra particularmente original é que ela nos permite ouvir a pulsação nortista através do filtro dos seus inimigos. Como o próprio Caçapa escreve na introdução, são "a tinta, a pena e a razão dos inimigos dos batuques e lundus, dos cocos, chulas, baianos, baiões e rojões" que nos deixam entrever a força musical daqueles que foram perseguidos e interditados. É o Brasil visto por quem o condenava.
Essa pesquisa se insere numa tradição de estudiosos da primeira metade do século 20. Depois de Mário de Andrade, Oneyda Alvarenga e Luiz Heitor Correia de Azevedo, vieram o padre Jaime Diniz em Pernambuco e pesquisadores-jornalistas-artistas como Ary de Vasconcelos, Jota Efegê, Edigar de Alencar, Almirante e José Ramos Tinhorão no Rio. Esses homens construíram coleções de memórias antes que as universidades consolidassem a pesquisa acadêmica no Brasil. Trabalhando no Rio, que concentrava os principais meios de comunicação, realizaram uma operação historiográfica que consolidou acervos estatais e narrativas hegemônicas a partir de uma perspectiva sudestina. Dessa operação nasceu o mito do samba carioca.
Mas há um detalhe irônico e sintomático que Caçapa traz à luz. Em 25 de dezembro de 1922, a revista Ilustração Brasileira publicou uma nota sobre a primeira transmissão de música brasileira por "telefone sem fio". O grupo artístico Turunas Pernambucanos, formado pelos músicos nortistas Jararaca e Ratinho, realizou a audição no estúdio montado no Palácio Moroe, transmitida pela estação Corcovado. Tocaram choro, embolada e toada sertaneja. Cinco anos antes, em 1917, o carioca Donga havia gravado "Pelo Telefone", consagrado pelos pesquisadores fluminenses como o primeiro samba. Mas foi um grupo de Pernambuco que fez a primeira transmissão radiofônica de música brasileira. Isso não é coincidência. Mostra que as violas, cantorias e sambas nortistas formavam o mesmo caldo cultural dos sambas do Rio.
Os compositores Roberto Mendes e Jorge Pontual talvez tenham resumido melhor essa história na canção "O Samba Antes do Samba": "O samba já existia antes do samba / Lá no Recôncavo onde tudo começou". Talvez tenha começado na Bahia. Mas também começou em Pernambuco, em Alagoas, no Rio Grande do Norte. Começou na diversidade nortista dos muitos Brasis. Caçapa, com sua compilação vertiginosa de documentos, nos dá agora a possibilidade de reescrever essa história com um ponto de vista que não é mais carioca.
Citações Notáveis
É a tinta, a pena e a razão dos inimigos dos batuques e lundus que nos deixam entrever a pulsação, o balanço, a força musical daqueles que tanto perseguiram— Rodrigo Caçapa, na introdução do livro
O samba já existia antes do samba / Lá no Recôncavo onde tudo começou— Roberto Mendes e Jorge Pontual, na canção "O Samba Antes do Samba"