Linhas de transmissão ameaçam propriedades rurais na Alta Mogiana sem negociação justa

Centenas de proprietários rurais terão suas terras produtivas divididas e restringidas, com impactos econômicos, sociais e ambientais significativos, especialmente produtores de cana-de-açúcar.
é pegar ou aguardar para discutir na justiça
O ultimato que a empresa concessionária apresenta aos proprietários rurais, sem espaço para negociação genuína.
Mark

Por que essa negociação é tão desequilibrada? A empresa não tem obrigação legal de oferecer um valor justo antes de ir à justiça?

Mimi

Tem sim, pela lei. O Decreto-Lei de 1941 e o Código de Processo Civil exigem que haja uma tentativa genuína de acordo. Mas na prática, a empresa oferece um valor muito abaixo do mercado e diz que é pegar ou largar. Não há negociação real.

Mark

E por que os proprietários aceitam? Eles não sabem que podem contestar na justiça?

Mimi

Muitos aceitam porque precisam de dinheiro agora. Outros não entendem que têm direito a mais, ou simplesmente não têm recursos para contratar um advogado antes da citação. A empresa conta com essa vulnerabilidade.

Mark

A rotatividade de representantes — isso é intencional?

Mimi

Parece ser. Quando você não fala sempre com a mesma pessoa, fica mais difícil construir um relacionamento, mais fácil dizer "não tenho autorização". Cada novo representante recomeça do zero, sem compromisso com o que foi dito antes.

Mark

E se o proprietário espera até a justiça? Ele consegue uma indenização melhor?

Mimi

Pode conseguir, mas perde tempo e dinheiro com advogado. E se não tiver documentado tudo antes — laudos, valores de mercado, impacto real — fica muito mais difícil provar o prejuízo. É por isso que o adágio antigo importa: quem dorme perde.

Mark

A solução seria integrar essas novas servidões com as antigas?

Mimi

Exatamente. Há polidutos e outras infraestruturas que já cortam a região. Se unificassem as faixas, economizariam espaço e prejudicariam menos proprietários. Mas isso exigiria que o poder público conversasse de verdade com os afetados antes de autorizar o projeto.

  • Uma linha de alta tensão de 500kV cortará 296 km de terras produtivas, atingindo 16 municípios e centenas de propriedades rurais com restrições permanentes de uso.
  • A empresa concessionária aborda proprietários com valores de indenização muito abaixo do mercado e recusa qualquer negociação real, impondo ultimatos do tipo 'pegar ou largar'.
  • Produtores de cana-de-açúcar enfrentam perdas irreversíveis: além da desvalorização imediata, o cultivo é proibido nas faixas de servidão, eliminando renda de porções inteiras das propriedades.
  • Muitos proprietários só percebem a gravidade da situação ao receber a citação judicial — quando já não há tempo hábil para reunir laudos e construir uma defesa adequada.
  • Especialistas apontam que a unificação das novas faixas com servidões preexistentes, como um poliduto antigo, poderia reduzir os danos, mas isso exigiria vontade política que ainda não se manifesta.

Na Alta Mogiana, região de fronteira entre São Paulo e Minas Gerais, centenas de proprietários rurais se veem diante de uma antiga tensão entre o interesse coletivo e o direito individual: uma linha de transmissão de 500kV, com quase 300 quilômetros de extensão, avança sobre suas terras com faixas de servidão de até 128 metros. O que poderia ser um processo de negociação legítimo revela-se, na prática, uma pressão assimétrica — ofertas abaixo do mercado, interlocutores que mudam a cada contato, e a sombra do processo judicial como único horizonte para quem não aceita. A história lembra, uma vez mais, que o silêncio diante do poder raramente é recompensado.

Na Alta Mogiana, divisa entre São Paulo e Minas Gerais, um projeto federal de grande escala está transformando o cotidiano de centenas de produtores rurais. Uma linha de transmissão de energia de 500 quilovolts, com 296 quilômetros de extensão, ligará Nova Ponte a Araraquara passando por dezesseis municípios. A faixa de domínio pode chegar a 128 metros de largura — uma cicatriz permanente sobre terras altamente produtivas.

O problema não está apenas na dimensão do empreendimento, mas na forma como ele chega às portas dos proprietários. Representantes de empresas terceirizadas apresentam valores de indenização invariavelmente abaixo do mercado e recusam qualquer negociação genuína. A resposta para quem tenta argumentar é sempre a mesma: é pegar ou aguardar a justiça. Os interlocutores mudam a cada contato — hoje por telefone, amanhã por WhatsApp —, deixando o proprietário desorientado e sem saber com quem realmente está tratando.

O setor sucroalcooleiro será dos mais afetados. Propriedades divididas ao meio perdem valor imediato e irreversível. Pior: o cultivo de cana é expressamente proibido nas faixas de servidão, o que elimina a renda de parcelas inteiras de terra em que agricultores investiram anos de trabalho.

O que falta, fundamentalmente, é diálogo. Uma solução mais inteligente passaria por unificar as novas faixas com servidões já existentes na região — como a de um poliduto antigo —, mas isso exigiria disposição política que ainda não se vê. Enquanto isso, juristas alertam: o proprietário que espera a citação judicial para agir já perdeu tempo precioso. Organizar documentos, colher laudos e documentar o impacto antes da chegada do processo é o que separa uma indenização justa de uma derrota silenciosa.

Existe um velho adágio no direito que diz: o direito não socorre os que dormem. É uma forma de lembrar que quem quer proteger seus direitos não pode esperar, não pode deixar as decisões importantes para depois, especialmente quando a violação está à porta. Providências antecipadas — organizar documentos, colher laudos, preparar o terreno — são o que separa uma defesa robusta de uma derrota consumada.

Na região da Alta Mogiana, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, essa lição está se tornando urgente e concreta. Há algum tempo, as terras rurais dessa região — muitas delas altamente produtivas — estão sendo atravessadas por empreendimentos federais de grande envergadura. O mais recente é uma linha de transmissão de energia de alta tensão, de 500 quilovolts, que ligará Nova Ponte, em Minas Gerais, a Araraquara, em São Paulo. O projeto, autorizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica, terá aproximadamente 296 quilômetros de extensão e passará por dezesseis municípios: Igarapava, Aramina, Buritizal, Ituverava, Guará, São Joaquim da Barra, Orlândia, Morro Agudo, Pontal, Pitangueiras, Sertãozinho, Jaboticabal, Guariba, Dobrada, Matão e Araraquara. A faixa de domínio — a área sobre a qual a concessionária terá direitos — pode chegar a 128 metros de largura. Centenas de propriedades rurais serão atingidas.

O que torna a situação particularmente problemática não é apenas a escala do projeto, mas a forma como ele está sendo negociado. A empresa concessionária, através de representantes de empresas terceirizadas, aborda os proprietários rurais com um método que beira o cômico — se não fosse tão prejudicial. Um representante telefona ou visita a propriedade, apresenta alguns documentos sobre o empreendimento, anuncia um valor de indenização — invariavelmente muito abaixo do preço de mercado — e aguarda uma resposta. Quando o proprietário tenta negociar, a resposta é sempre a mesma: esse é o valor final, é pegar ou aguardar para discutir na justiça. Não há espaço para diálogo genuíno, não há flexibilidade, não há reconhecimento de que a terra tem um valor real que pode ser verificado no mercado local.

O proprietário rural, diante dessa pressão, geralmente enfrenta duas escolhas. Se está precisando de dinheiro imediato para pagar contas, cede. Assina o acordo e o caso termina — com ele tendo aceitado uma indenização que não reflete o prejuízo real. Se tenta resistir, apresentando dados de mercado e argumentos convincentes, bate na mesma parede: não posso transigir, não tenho autorização. Pior ainda, os representantes mudam constantemente. Hoje é um, amanhã é outro, via WhatsApp ou telefone. Essa rotatividade deixa o proprietário ainda mais confuso, sem saber com quem realmente está negociando ou como proceder.

Muitos proprietários rurais, por questões culturais ou simplesmente por não compreender a urgência, deixam para depois. Só quando recebem a carta de citação — às vezes já com a ordem de imissão de posse emitida a favor da concessionária — é que a realidade bate na porta. Nesse ponto, é tarde demais para preparar uma defesa adequada. O advogado não tem tempo para colher laudos complexos, para avaliar corretamente o impacto sobre a propriedade, para documentar perdas futuras. É nesse contexto que o velho adágio ganha força: quem dorme perde.

O setor sucroalcooleiro será particularmente afetado. Muitas propriedades produtivas serão divididas ao meio ou fracionadas, o que causa uma desvalorização imediata e irreversível do imóvel. Além disso, o cultivo de cana-de-açúcar é expressamente proibido nas faixas de servidão — por razões de segurança — o que significa que uma porção significativa da terra produtiva simplesmente deixa de gerar renda. Para um agricultor que investiu anos em uma cultura, essa restrição é devastadora.

O que falta, fundamentalmente, é diálogo. Se houvesse comunicação efetiva entre o poder público, a concessionária e os setores econômicos afetados — especialmente as entidades representativas do setor sucroalcooleiro — muitas dessas situações poderiam ser evitadas ou melhor resolvidas. Uma solução mais inteligente seria unificar as novas faixas de servidão com as servidões preexistentes na região, aproveitando espaços já comprometidos, como a faixa de um poliduto antigo que já atravessa o território. Mas isso exigiria vontade política e disposição para negociar de verdade.

Enquanto isso não acontece, cabe ao proprietário rural afetado agir com rapidez e diligência. Deve organizar seus documentos, colher laudos sobre o valor da propriedade e o impacto da servidão, documentar tudo antes que a citação chegue. Só assim terá condições de obter, perante o Poder Judiciário, uma indenização que seja realmente justa — como garante a Constituição Federal. A alternativa é deixar que o direito durma, e acordar quando já é tarde demais.

Esse é o preço final, é pegar ou aguardar para discutir na justiça
— Representante da empresa concessionária aos proprietários rurais
Esse já é o valor final, não posso transigir, não tenho autorização
— Resposta padrão dos representantes quando proprietários tentam negociar
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