Apoios pós-tempestade Kristin atrasam: Nerlei faz levantamento de crédito e seguros

Dez mil trabalhadores afetados com pedidos de apoio do IEFP para manutenção de emprego, enquanto equipamentos industriais se degradam diariamente sem reparação.
As empresas afetadas sacrificam a inovação em nome da sobrevivência imediata
Sónia Calado, administradora do Grupo DRT, sobre o impacto dos limites de ajudas de Estado nos projetos estruturantes das empresas.
Mark

Por que é que um mês depois ainda não há apoios a chegar?

Mimi

Porque os apoios têm várias camadas de burocracia. As peritagens de seguros demoram meses. As declarações de danos que as empresas precisam para aceder aos fundos de reconstrução não conseguem ser emitidas pelas entidades públicas. E os prazos do Plano de Recuperação e Resiliência não dão tempo para nada disto.

Mark

Mas não há dinheiro alocado?

Mimi

Há. Há 150 milhões para a linha Reindustrializar, mil milhões para tesouraria, mil milhões para investimento. O problema não é a falta de dinheiro. É que as regras para o aceder estão mal desenhadas ou são impossíveis de cumprir.

Mark

E as seguradoras? Não têm responsabilidade?

Mimi

Têm, mas as peritagens de danos industriais são complexas. Podem levar três a seis meses. Enquanto isso, as máquinas apodrecem, os telhados continuam abertos, e as empresas não conseguem nem começar a reconstruir.

Mark

Então o que é que as associações empresariais vão fazer?

Mimi

Fazer um levantamento fino para documentar exatamente onde estão os gargalos. Depois vão pressionar para que as regras sejam mudadas — por exemplo, permitir autodeclarações em vez de exigir documentos que ninguém consegue emitir.

Mark

E se não conseguirem?

Mimi

Então as empresas vão continuar a escolher a linha de tesouraria, que é rápida mas consome os limites de ajudas de Estado. Isso significa que vão ter de desistir de projetos de inovação e modernização que já tinham aprovados. A tempestade não só destrói fábricas; destrói também o futuro delas.

  • Mais de um mês após a tempestade Kristin, empresas como o Grupo DRT continuam sem apoios diretos à reconstrução
  • Peritagens de seguros demoram entre 3 a 6 meses, impedindo acesso a financiamento
  • Requisito de declaração de danos com valor bloqueia acesso à linha Reindustrializar de 150 milhões de euros
  • Dez mil trabalhadores têm pedidos de apoio do IEFP para manutenção de emprego
  • Consumo de minimis pode forçar empresas a desistir de projetos em Inteligência Artificial já aprovados

Empresas como o Grupo DRT continuam sem apoios efetivos, com peritagens de seguros a arrastarem-se entre 3 a 6 meses, impedindo acesso a financiamento. Requisito de declaração de danos com valor emitida por CCDR ou câmaras municipais está a bloquear acesso à linha Reindustrializar de 150 milhões de euros.

Um mês após a tempestade Kristin, empresas afetadas relatam atrasos significativos nos apoios diretos à reconstrução, apesar das moratórias aprovadas. Associações empresariais vão fazer levantamento das linhas de crédito e seguros.

Mais de um mês depois que a tempestade Kristin varreu a região, as empresas que viram fábricas inteiras destruídas continuam à espera. As moratórias foram aprovadas. Os comunicados de imprensa falam de linhas de crédito e fundos de reconstrução. Mas no chão, onde as máquinas ainda estão paradas e os telhados ainda faltam, pouco mudou.

Sónia Calado administra o Grupo DRT desde 1994, uma empresa que fabrica moldes de injeção de plásticos. Tem uma fábrica em Leiria e outra em Palmela. Na tempestade, a cobertura e uma parede metálica da unidade de Leiria voaram com os ventos. Ela relata o que muitas outras empresas também vivem: apesar das moratórias já aprovadas, os apoios diretos à reconstrução não chegaram. Não é um caso isolado. Há muitas empresas severamente afetadas que continuam sem qualquer apoio efetivo.

A frustração subiu de tom o suficiente para que as associações empresariais agissem. Na sexta-feira, representantes da Nerlei, Cefamol, Apifa e Apicer reuniram-se para decidir fazer um levantamento estruturado de como as linhas de crédito do Banco Português de Fomento e os seguros estão realmente a chegar ao terreno. Henrique Carvalho, diretor executivo da Nerlei, reconheceu ao ECO que existe apreensão porque as coisas não estão tão céleres como está a ser comunicado. Não quer generalizar — há situações onde as coisas estão resolvidas — mas o padrão é claro: dois aspetos críticos precisam de análise aprofundada.

O primeiro problema é técnico e burocrático. A linha Reindustrializar, um instrumento de 150 milhões de euros criado com verbas não executadas do Plano de Recuperação e Resiliência, exige que as empresas apresentem uma declaração com o valor dos danos emitida pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, câmaras municipais, seguradora ou avaliação bancária. Mas essa declaração tem-se revelado impossível de obter. As CCDR e as câmaras não vão emitir uma declaração com valor porque os aspetos técnicos da valorização dos danos são complexos e cabem às seguradoras defini-los. Carvalho defende que deve ser adotada a mesma solução que funcionou para as linhas do Banco de Fomento: uma autodeclaração. Caso contrário, o aviso precisa ser corrigido.

O segundo problema é o tempo. Os processos de seguros estão longe de uma conclusão. Faltam orçamentos. Há equipamentos que se degradam diariamente. As peritagens arrastam-se sem prazos claros. Segundo Carvalho, os dados das seguradoras indicam que os relatórios de danos demoram entre três a seis meses. Talvez até junho ou julho existam relatórios dos sinistros mais problemáticos. Mas estas datas não são compatíveis com o cronograma do Plano de Recuperação e Resiliência. Os termos de aceitação têm de ser assinados até julho e o investimento tem de ser iniciado até 31 de julho. É um calendário impossível quando as peritagens ainda estão no início.

Mas há um terceiro problema, mais profundo. As empresas estão a preferir a linha de tesouraria — apoios rápidos para sobreviver — em vez da linha de investimento. Dos mil milhões de euros em apoios à tesouraria, praticamente tudo foi tomado. A linha de investimento a dez anos com três anos de carência tem apenas 200 milhões de euros em procura. O motivo é simples: as linhas de investimento têm condições de acesso altamente burocráticas e mal definidas. Mas esta escolha tem consequências graves. A linha de tesouraria está abrangida pelo regime de minimis, ou seja, consome os limites das ajudas de Estado. Para grupos empresariais com várias unidades, como a DRT, isto significa que o teto dos apoios é partilhado entre todas, mesmo que os prejuízos tenham sido reais e distintos em cada fábrica.

Pior ainda: o consumo de minimis pode forçar estas empresas a desistir de outros projetos estruturantes já aprovados, como iniciativas financiadas pela linha do Plano de Recuperação e Resiliência em Inteligência Artificial. Sónia Calado é clara: as empresas afetadas pela tempestade ficam em desvantagem face às restantes, sacrificando a inovação e a sua transição tecnológica em nome da sobrevivência imediata. E há ainda os apoios do IEFP, anunciados como fundamentais para a manutenção do emprego, que também continuam por chegar. Segundo Paulo Fernandes, presidente da estrutura de missão Reconstrução da Região Centro do País, as empresas apresentaram 1.500 pedidos de acesso a esta medida, que abrange dez mil trabalhadores — mais do dobro dos pedidos de lay-off que cobrem atualmente 4.300 trabalhadores. Globalmente, Calado considera que as medidas anunciadas são manifestamente insuficientes. Mais crédito não é solução; é apenas protelar o problema.

Existe uma apreensão porque as coisas não estão tão céleres como está a ser comunicado
— Henrique Carvalho, diretor executivo da Nerlei
Os processos de seguros estão longe de uma conclusão. Faltam orçamentos, há equipamentos que se degradam diariamente e as peritagens arrastam-se sem prazos claros
— Sónia Calado, administradora do Grupo DRT
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