Décadas após Tiananmen, Wang Dan observa da distância do exílio uma China que volta a agitar-se — mas por razões distintas das de 1989. Os jovens que desceram às ruas no final de novembro não carregam bandeiras de democracia liberal; carregam o peso de confinamentos, de uma economia estagnada e de uma esperança traída pela reeleição de Xi Jinping. O dissidente avisa que a luta por uma vida melhor pode ser mais duradoura e mais perigosa do que qualquer ideal abstracto — precisamente porque é pessoal.
Líder de Tiananmen: jovens chineses lutam por vida melhor, não democracia
Perceberam que nem eles, nem a sua propriedade, nem o seu dinheiro estão seguros
Quando Wang Dan diz que os jovens chineses não estão a lutar por democracia, está a dizer que a democracia deixou de ser importante para eles?
Não exatamente. Está a dizer que as prioridades mudaram. Em 1989, havia um ideal político. Agora, há uma crise imediata — pessoas não conseguem trabalhar, a economia está parada, a classe média perdeu esperança. A democracia é um luxo quando estás preocupado em manter o teu emprego e a tua casa.
Mas isso é a interpretação de Wang Dan, um dissidente em exílio. Ele não está nas ruas. Não sabemos se os manifestantes concordam com essa análise ou se há outras motivações que ele não está a captar.
Ele fala de uma "mudança sistémica" — o afastamento de Xi ou reforma do Partido. Isso não é democracia?
É uma exigência de mudança política, mas enquadrada em termos económicos e de qualidade de vida. Não é "queremos votar", é "queremos que isto mude porque a vida está insuportável".
Verdade. Mas Wang Dan também diz que teme uma repressão brutal se os protestos continuarem. Isso sugere que o regime ainda vê isto como uma ameaça política real, independentemente de como os manifestantes a enquadrem.
O termo "runxue" — planear a fuga — tornou-se viral em junho. Isso mostra que muitos chineses já tinham perdido a esperança antes destes protestos?
Sim. A crise no imobiliário, a política zero-covid, a reeleição de Xi — tudo isto criou um sentimento de que não há futuro. As pessoas queriam sair. Os que não conseguiram sair foram para as ruas.
Mas não sabemos quantas pessoas realmente fugiram ou tentaram fugir. "Viral" significa que o termo circulou, mas não temos números sobre emigração real ou tentativas de emigração.
Wang Dan diz que os jovens aprenderam as lições de Hong Kong em 2019. O que significa isso?
Significa que sabem como organizar-se online, como evitar a censura, como manter os protestos vivos sem se deixarem dispersar facilmente. Em Hong Kong, viram o que acontece quando o regime decide reprimir — e também viram como a resistência pode ser criativa.
Mas também significa que o regime aprendeu as lições de Hong Kong. Wang Dan reconhece que Pequim tem mais ferramentas de repressão agora. Não está claro quem tem a vantagem.
Ele acredita que o Governo vai tentar acalmar a situação a curto prazo. Como?
Dispersando os estudantes — as universidades já ordenaram que regressem a casa. Levantando parcialmente as restrições covid em algumas cidades. Criando a ilusão de que as coisas estão a melhorar.
E funcionou? Não temos informação sobre se os protestos diminuíram ou se continuam com a mesma intensidade. Wang Dan prevê que novos protestos virão, mas isso é uma previsão, não um facto confirmado.
Le Pouls
- Dez mortos num incêndio em Urumqi, cujo socorro foi travado pelas próprias restrições covid, acenderam uma raiva que já fervia há meses em milhões de chineses.
- A classe média — pilar histórico do Partido Comunista — perdeu a confiança depois de ver propriedades, poupanças e liberdade de movimento ameaçadas pela política zero-covid e pela consolidação do poder de Xi.
- O regime tenta dispersar os protestos mandando estudantes para casa e levantando restrições em algumas cidades, mas Wang Dan avisa que a acalmia é táctica, não estrutural.
- Pequim dispõe de muito mais ferramentas de repressão do que em 1989, e já acusa os manifestantes de servirem interesses estrangeiros — prenúncio de uma resposta mais dura.
- Os jovens chineses, que aprenderam com Hong Kong em 2019, mantêm a resistência sobretudo online, onde a censura total é mais difícil de impor.
Décadas após Tiananmen, Wang Dan observa da distância do exílio uma China que volta a agitar-se — mas por razões distintas das de 1989. Os jovens que desceram às ruas no final de novembro não carregam bandeiras de democracia liberal; carregam o peso de confinamentos, de uma economia estagnada e de uma esperança traída pela reeleição de Xi Jinping. O dissidente avisa que a luta por uma vida melhor pode ser mais duradoura e mais perigosa do que qualquer ideal abstracto — precisamente porque é pessoal.
Wang Dan falou a partir de Tóquio com a autoridade de quem foi rosto do movimento de Tiananmen: os protestos que explodiram na China no final de novembro não são uma repetição de 1989. Não se trata de democracia nem de direitos humanos abstractos. Os jovens chineses exigem, simplesmente, uma vida melhor — e essa distinção, insiste o dissidente em exílio, é fundamental para perceber o que está verdadeiramente em jogo.
O rastilho foi o incêndio em Urumqi, onde dez pessoas morreram e o socorro chegou tarde demais, travado pelas restrições covid. Mas a fúria vinha de mais longe. A reeleição de Xi Jinping para um terceiro mandato em outubro fechou uma porta que muitos esperavam ver aberta. Com a economia estagnada, o imobiliário em crise e os confinamentos a repetirem-se sem fim à vista, a classe média — durante três décadas o maior apoio do Partido — perdeu a esperança. Alguns fugiram do país; os que ficaram foram para as ruas.
Wang Dan distingue claramente o que os manifestantes querem: o afastamento de Xi ou uma reforma profunda do Partido Comunista. Não uma revolução ideológica, mas uma mudança sistémica nascida da sobrevivência económica e pessoal. O regime respondeu ordenando o regresso dos estudantes às universidades de origem — manobra que o dissidente lê como tentativa de dispersar focos de protesto, não de resolver o problema.
O que mais preocupa Wang Dan é o que pode vir a seguir. Pequim tem hoje muito mais instrumentos de repressão do que tinha em 1989, e já começou a acusar os manifestantes de servirem interesses estrangeiros. Se os protestos continuarem, teme que Xi recorra ao exército. Ainda assim, há uma diferença: os jovens chineses aprenderam com Hong Kong em 2019 e resistem sobretudo online, onde a censura é mais difícil de aplicar por completo. O levantamento parcial de restrições em Cantão e Zhengzhou sugere que o Governo quer acalmar os ânimos — mas com 35.800 novos casos registados em 24 horas, o dilema entre controlo e abertura permanece sem solução à vista.
Wang Dan estava em Tóquio quando falou sobre o que realmente move os jovens chineses às ruas. Décadas depois de ter sido um dos rostos do movimento estudantil de Tiananmen, o dissidente em exílio ofereceu uma leitura diferente dos protestos que explodiram na China no final de novembro. Não se trata de democracia, disse ele num fórum do clube de correspondentes estrangeiros do Japão. Não se trata de direitos humanos abstratos. Os jovens chineses estão lutando por uma vida melhor, simplesmente isso — e essa distinção importa.
Os protestos começaram após a morte de dez pessoas num incêndio em Urumqi, capital de Xinjiang, um desastre cujo socorro foi prejudicado pelas medidas restritivas impostas pela política zero-covid. Mas Wang Dan vê algo mais profundo por baixo da raiva imediata. A classe média chinesa, que durante três décadas foi o maior apoio do Partido Comunista, está agora profundamente desiludida. A reeleição de Xi Jinping para um terceiro mandato em outubro fechou uma porta que muitos esperavam que se abrisse. Com a política zero-covid a forçar confinamentos em massa e a economia a estagnar, milhões de chineses perceberam que nem a sua segurança pessoal, nem a sua propriedade, nem o seu dinheiro estavam garantidos. Alguns fugiram do país. Os que não conseguiram partir foram para as ruas.
Em junho, o termo chinês "runxue" — planear a fuga — tinha-se tornado viral nas redes sociais. Muitos chineses queriam emigrar, pressionados pela crise no imobiliário e pelas restrições implacáveis. Agora, com as manifestações a ganhar força, Wang Dan distingue claramente o que está em jogo: não é uma revolução ideológica como a de 1989, mas uma exigência de mudança sistémica. Os manifestantes querem o afastamento de Xi Jinping ou uma reforma profunda do Partido Comunista que governa o país desde 1949.
O dissidente acredita que o Governo tentará acalmar a situação a curto prazo. Universidades chinesas já ordenaram aos estudantes que regressem a casa, alegadamente para os proteger do novo coronavírus — uma manobra que Wang Dan vê como uma tentativa de dispersar os focos de protesto. Mas ele não acredita que isto resolva nada. Assim que os estudantes voltarem para casa, a política regressará. Novos protestos virão.
O que o preocupa verdadeiramente é a resposta do regime. Pequim tem agora muito mais ferramentas de repressão do que tinha em 1989. Wang Dan teme que, se os protestos continuarem, Xi Jinping use o exército para uma repressão brutal, usando como desculpa a alegada influência de forças estrangeiras — uma acusação que Pequim já começou a fazer, sugerindo que os manifestantes trabalham para Washington e outros governos ocidentais. Mas há uma diferença crucial entre então e agora: os jovens chineses aprenderam as lições do movimento pró-democracia em Hong Kong em 2019. Os protestos continuam, sobretudo na Internet, onde a censura é mais difícil de aplicar completamente.
Na quarta-feira, as autoridades levantaram parcialmente as restrições em várias cidades — Cantão e Zhengzhou entre elas — um sinal de que o Governo está a tentar acalmar os ânimos. Mas a China tinha registado nas últimas 24 horas o maior número de novas infeções desde o início da pandemia: cerca de 35.800 casos. O dilema é real: manter as restrições alimenta a raiva; levantá-las expõe o país a um surto descontrolado. Wang Dan vê o país a entrar numa nova era, mas uma era marcada pela tensão entre um regime que tem mais poder de controlo do que nunca e uma população que, desta vez, não está a lutar por ideias abstratas, mas pela sua própria sobrevivência económica e pessoal.
Citations marquantes
Os jovens chineses não estão preocupados com ideias abstratas, como direitos humanos ou democracia, mas foram obrigados a lutar por uma vida melhor face à estagnação económica— Wang Dan
Os jovens chineses são muito, muito mais corajosos do que nós— Wang Dan