Leite materno de mulheres vacinadas contra covid contém anticorpos, mostram estudos

Anticorpos estão lá, mas ninguém provou que protegem o bebê
Pediatras reconhecem achado positivo dos estudos, mas alertam sobre limitações na comprovação de proteção real em bebês.
Mark

Então esses anticorpos no leite materno realmente protegem o bebê contra covid?

Mimi

Aí está o ponto — os estudos mostram que os anticorpos estão lá, mas ninguém ainda provou que o bebê fica protegido. É uma coisa diferente.

Luke

Exatamente. Os estudos confirmam a presença dos anticorpos, mas não testaram se bebês amamentados por mães vacinadas realmente ficam imunes ou por quanto tempo.

Mark

Por que isso importa? Se tem anticorpo, não deveria proteger?

Mimi

Porque nem todo anticorpo que passa pelo leite oferece proteção efetiva. A quantidade que chega ao bebê, o tempo que dura, se é suficiente — tudo isso ainda é desconhecido.

Luke

E há um detalhe: os estudos foram pequenos. O de Washington tinha apenas cinco mães. O israelense tinha 84. Não é o suficiente para fazer afirmações amplas sobre proteção em bebês.

Mark

Os pediatras brasileiros estão preocupados?

Mimi

Não estão alarmados, mas são cautelosos. Reconhecem que é uma notícia positiva, mas insistem que mais pesquisa é necessária antes de qualquer conclusão.

Luke

E há um risco prático que Chencinski apontou: mães americanas começaram a compartilhar leite materno com outros filhos e crianças próximas, o que é contraindicado por trazer riscos de outras infecções.

Mark

A vacinação de gestantes e lactantes é recomendada?

Mimi

Sim, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda, seguindo a OMS. E mantém a orientação de continuar amamentando após a vacinação, sem interrupção.

Luke

Mas com uma ressalva importante: a recomendação é para mulheres que já estão em grupos nos quais a vacinação é indicada. Não é uma recomendação universal automática.

Mark

E se a mãe tiver covid-19?

Mimi

Continua amamentando, mas com cuidados: máscara, higiene das mãos, ou extrai o leite para outra pessoa oferecer. O leite em si não transmite o vírus.

Luke

Isso é bem estabelecido. O que ainda não está estabelecido é o nível de proteção que esses anticorpos conferem ao bebê.

Mark

Quando teremos respostas?

Mimi

Provavelmente levará tempo. Precisam acompanhar bebês por mais tempo, com amostras maiores, e medir se realmente ficam protegidos.

Luke

E precisam testar diferentes vacinas, diferentes momentos de vacinação na gravidez, e diferentes populações. Não é uma pergunta simples de responder.

  • Três pesquisas independentes — dos Estados Unidos e de Israel — confirmaram a presença de anticorpos contra o Sars-CoV-2 no leite materno de mulheres vacinadas com Pfizer/BioNTech e Moderna, acendendo esperança global.
  • A descoberta gerou movimento imediato entre mães nos EUA, algumas retomando a amamentação ou até praticando amamentação cruzada na tentativa de proteger outras crianças — prática considerada perigosa por especialistas.
  • Pediatras brasileiros reconhecem o achado como positivo, mas alertam que nenhum estudo ainda comprovou se os bebês realmente adquirem imunidade contra a covid-19 ou por quanto tempo qualquer proteção duraria.
  • A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda vacinação para lactantes e mantém orientação firme: não interromper a amamentação após a imunização, mesmo diante das incertezas científicas ainda em aberto.

Entre março e abril de 2021, três estudos independentes convergiram para uma descoberta que tocou o coração de mães ao redor do mundo: o leite materno de mulheres vacinadas contra a covid-19 carrega anticorpos específicos contra o vírus. A ciência abriu uma porta de esperança — a possibilidade de que a proteção conquistada pela mãe pudesse, de alguma forma, alcançar o filho mais vulnerável. Ainda assim, os guardiões do conhecimento médico pedem cautela: saber que os anticorpos existem no leite não é o mesmo que saber se eles protegem, nem por quanto tempo essa proteção resistiria ao tempo.

Três estudos independentes divulgados entre março e abril de 2021 chegaram à mesma conclusão: mulheres vacinadas contra a covid-19 produzem leite materno com anticorpos específicos contra o novo coronavírus. A descoberta acendeu esperança de que bebês amamentados por mães imunizadas pudessem herdar alguma proteção — mas pediatras brasileiros foram cautelosos: ninguém ainda provou que essa proteção funciona nos bebês, nem por quanto tempo duraria.

O primeiro estudo, conduzido por pesquisadores do Massachusetts General Hospital e instituições parceiras, acompanhou 131 mulheres vacinadas com Pfizer/BioNTech ou Moderna e encontrou anticorpos tanto no sangue do cordão umbilical quanto no leite materno — em níveis mais altos do que os observados em mulheres infectadas naturalmente. Um segundo estudo, da Universidade de Washington em St. Louis, detectou anticorpos a partir de duas semanas após a primeira dose, mantidos por pelo menos 80 dias. A pesquisa israelense publicada na revista Jama em abril analisou 504 amostras de 84 mulheres e confirmou o padrão: antes da vacinação, nenhum anticorpo específico; duas semanas depois, eles surgiam e permaneciam detectáveis.

O pediatra Moisés Chencinski, da Sociedade Brasileira de Pediatria, explicou o mecanismo: durante a amamentação, o bebê transmite informações sobre infecções à mãe, que responde produzindo anticorpos no leite — imunoglobulinas IgA e IgG, detectadas nos estudos. Mas ele foi direto sobre os limites do conhecimento: saber que os anticorpos chegam ao leite não significa saber quanto dessa proteção alcança o bebê. Nos EUA, algumas mães chegaram a praticar amamentação cruzada buscando proteger outras crianças — prática totalmente contraindicada por riscos de outras infecções.

Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da SBP, disse que o resultado era esperado, comparando-o ao que ocorre com vacinas de coqueluche e gripe em gestantes. Questões importantes, porém, permaneciam sem resposta: qual o melhor momento para vacinar durante a gestação? Como a proteção varia conforme o imunizante? O que estava claro para ambos os especialistas era que mães deveriam continuar amamentando mesmo em caso de infecção por covid-19, com precauções como uso de máscara e higiene das mãos. A SBP havia publicado, em março de 2021, documento recomendando vacinação para lactantes e orientando que a amamentação não fosse interrompida após a imunização.

Três estudos independentes divulgados entre março e abril de 2021 chegaram à mesma conclusão: mulheres vacinadas contra a covid-19 produzem leite materno contendo anticorpos específicos contra o novo coronavírus. A descoberta acendeu esperança de que bebês amamentados por mães imunizadas pudessem herdar alguma proteção contra a doença. Mas pediatras brasileiros, embora reconheçam o achado como positivo, insistem em um ponto crucial: ninguém ainda provou que essa proteção realmente funciona nos bebês, nem por quanto tempo duraria.

O primeiro estudo, divulgado no fim de março, acompanhou 131 mulheres em idade reprodutiva — gestantes e lactantes — que receberam as duas doses das vacinas Pfizer/BioNTech ou Moderna. Pesquisadores do Massachusetts General Hospital, Brigham and Women's Hospital e do Ragon Institute detectaram anticorpos tanto no sangue do cordão umbilical quanto no leite materno. Comparando com mulheres que haviam sido infectadas naturalmente pelo vírus, os pesquisadores encontraram níveis significativamente mais altos de anticorpos nas mulheres vacinadas.

Dias depois, a Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis publicou seus achados. Naquele estudo, os anticorpos começaram a aparecer duas semanas após a primeira dose e permaneceram detectáveis por pelo menos 80 dias — o tempo que durou a pesquisa. Embora tenha analisado apenas cinco mães vacinadas com Pfizer/BioNTech e seus filhos entre um mês e dois anos, os pesquisadores sugeriram que esses anticorpos poderiam ser transmitidos através da amamentação e oferecer alguma proteção aos bebês.

Mais recentemente, uma pesquisa israelense publicada na revista Jama em 12 de abril confirmou o padrão. Cientistas coletaram 504 amostras de leite materno de 84 mulheres entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021. Antes da vacinação com Pfizer/BioNTech, não havia anticorpos específicos para o Sars-CoV-2. Duas semanas após a imunização, começaram a aparecer, mantendo-se detectáveis durante as seis semanas de coleta semanal que se seguiram.

Moisés Chencinski, pediatra do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria, explicou o mecanismo por trás do fenômeno. Quando um bebê adoece, transmite informações sobre sua infecção à mãe através da amamentação, desencadeando a produção de anticorpos específicos no leite — as imunoglobulinas IgA secretória, que protegem contra infecções digestivas e respiratórias, e a IgG, que oferece imunidade mais prolongada. O estudo israelense encontrou ambas as formas específicas para o Sars-CoV-2 no leite materno, e nenhum evento colateral grave foi relatado.

Mas Chencinski foi direto sobre as limitações. O estudo provou que anticorpos são produzidos e chegam ao leite, mas não demonstrou quanto dessa proteção realmente alcança o bebê. Não há evidência de que a criança fica protegida contra a covid-19, nem estimativa de quanto tempo duraria qualquer proteção. Nos Estados Unidos, algumas mães retomaram a amamentação buscando essa proteção, mas o pediatra alertou para um risco adicional: algumas estavam oferecendo leite materno a outros filhos e crianças próximas — uma prática chamada amamentação cruzada, totalmente contraindicada por trazer riscos de outras infecções.

Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da SBP, disse que o resultado já era esperado. Quando gestantes são vacinadas, a tendência natural é que passem anticorpos ao bebê através da placenta — assim como ocorre com as vacinas de coqueluche, tétano e gripe. Mas questões importantes permaneciam em aberto: qual o melhor momento para imunizar gestantes para garantir a passagem de anticorpos? Como a proteção varia conforme o imunizante usado? Não se sabia o grau de proteção se a vacinação ocorresse no primeiro trimestre ou no último. Embora bebês nascidos de mães infectadas pelo vírus durante a gravidez apresentem anticorpos contra a covid-19, ninguém conseguiu estabelecer o nível real de proteção nesses recém-nascidos — em parte porque a doença é rara nessa população.

O que permanecia claro, segundo ambos os especialistas, era que as mães deveriam continuar amamentando mesmo em caso de infecção por covid-19, desde que tomassem precauções: usar máscara durante a amamentação, higienizar as mãos ou extrair o leite para que outra pessoa oferecesse ao bebê. Em março de 2021, a Sociedade Brasileira de Pediatria havia publicado documento recomendando vacinação para lactantes, alinhada com a orientação da Organização Mundial da Saúde, e deixou claro que não recomendava interrupção da amamentação após a vacinação. As duas vacinas disponíveis no Brasil naquele momento — Coronavac e Oxford — eram consideradas vacinas inativadas, e o Sistema Único de Saúde orientava sua aplicação em gestantes e lactantes com precaução, mediante decisão compartilhada entre a mulher e seu médico.

O estudo mostrou que há produção do anticorpo e que ele passa para o leite, mas não quanto o anticorpo passado pelo leite protege o bebê
— Moisés Chencinski, pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria
Quando se promove vacinação de gestante, a tendência é que, por meio da placenta, ela passe anticorpos para o bebê, assim como ocorre com vacinas de coqueluche e tétano
— Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da SBP
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