Latam Pass enfrenta falhas críticas após migração de sistema; 23 milhões de clientes afetados

Consumidores perderam milhas acumuladas sem aviso prévio, franquias tiveram redução drástica de receita, e clientes enfrentam impossibilidade de usar benefícios já pagos.
A sensação é horrível porque tem o produto e não posso vender
Franqueada do Latam Travel relata perda de 80% do faturamento após migração de sistemas deixar sua loja sem acesso ao programa.
Mark

Por que essa migração de sistemas foi tão problemática? Parecia que a Latam sabia que ia acontecer.

Mimi

Sabia, sim. Eles anunciaram com antecedência, colocaram banners, mandaram e-mails. O problema é que uma migração de um sistema tão central — que gerencia contas, pontos, benefícios — é uma operação gigantesca. Não é só mudar o layout do site.

Luke

Mas espera. Se eles anunciaram, por que as franquias físicas continuaram com problemas depois de 25 de maio? Holdschmidt disse que era para ser só até lá.

Mimi

Exatamente. Ane Kiefer, a dona da franquia, estava preparada para uma parada de cinco dias. Mas o sistema nunca voltou para ela. Ela perdeu 80% do faturamento.

Mark

E a Latam ofereceu alguma compensação?

Mimi

Não há menção de compensação na reportagem. A empresa apenas orientou os clientes a usar o site ou ligar para o call center. Para uma franquia que depende do atendimento presencial, isso é basicamente dizer "não temos solução para você".

Luke

Mas Holdschmidt disse que a maioria dos problemas foi resolvida. Como ele pode afirmar isso se as franquias ainda estão sem acesso?

Mimi

Ele estava falando do site e do call center. Não mencionou as franquias. Parece que a Latam simplesmente as abandonou durante a transição.

Mark

E os consumidores que perderam milhas? Aquela mulher que viu 140 mil milhas expirarem sem aviso?

Mimi

Ela tinha razão em reclamar. A Latam prorrogou a validade dos pontos que expirariam durante a parada de maio, mas essa mulher perdeu milhas em junho. O site estava com problemas de manutenção, impedindo-a de usar os pontos, e eles expiraram mesmo assim.

Luke

Mas a reportagem não deixa claro se a Latam sabia que o site continuaria com problemas após 24 de maio. Holdschmidt disse que tudo seria resolvido em menos de três meses, mas não especificou o que "tudo" significa.

Mark

Então basicamente os consumidores estão esperando, sem saber exatamente quando as coisas vão funcionar de novo.

Mimi

E sem regulamentação federal, não há ninguém fiscalizando. A Anac disse que milhas não são responsabilidade deles. Os consumidores estão à mercê da boa vontade da Latam.

  • Com 1.080 reclamações só no primeiro semestre de 2022 — 85% de todas as queixas sobre programas de milhas no período —, o Latam Pass transformou a frustração de clientes em um fenômeno de escala nacional.
  • A migração de maio derrubou o sistema por quatro dias, mas seus efeitos persistiram: passageiros não conseguiam acumular pontos de voos já realizados nem resgatar milhas para emitir passagens.
  • Franqueados como Ane Kiefer viram 80% do faturamento evaporar da noite para o dia, presos entre um sistema que não funcionava e uma empresa que os orientava a usar canais que também falhavam.
  • A Latam prometeu resolução completa em menos de três meses, mas especialistas alertam que, sem regulamentação federal, os consumidores dependem exclusivamente da boa vontade das companhias aéreas.
  • Advogados recomendam documentar prejuízos com prints e recorrer ao Consumidor.gov ou ao Procon, enquanto projetos de lei para regulamentar milhas aguardam análise no Congresso sem previsão de votação.

Quando uma empresa move os alicerces digitais que sustentam a confiança de 23 milhões de pessoas, o que desmorona não é apenas um sistema — são planos, sonhos de viagem e a fé depositada em promessas acumuladas milha a milha. O Latam Pass, maior programa de fidelidade aéreo do Brasil, atravessou duas migrações tecnológicas em 2022 que deixaram clientes sem acesso às suas milhas, franqueados sem receita e um vazio regulatório que expõe a fragilidade de um mercado sem fiscalização. A crise revela algo mais profundo do que uma falha técnica: a vulnerabilidade de quem confia valor real a sistemas que operam fora de qualquer amparo legal.

Em maio de 2022, 23 milhões de clientes do Latam Pass descobriram que o programa que alimentava seus planos de viagem havia simplesmente desaparecido. A empresa realizou duas migrações tecnológicas — uma em março, reformulando o site de resgate, e outra entre 17 e 23 de maio, afetando o sistema central de contas, pontos e benefícios. Durante aqueles dias, nenhum serviço funcionava. A Latam havia anunciado a parada com antecedência, mas os efeitos se estenderam muito além do prazo previsto.

Alexandre Tsunoda, engenheiro de 30 anos em São Paulo, passou horas ao telefone para conseguir emitir uma passagem para a Europa com suas milhas — algo que deveria ser feito em minutos pelo site. Ele foi um dos sortudos. Muitos outros não conseguiram resolver o problema de forma alguma. Entre janeiro e junho de 2022, o programa acumulou 1.080 reclamações relacionadas à compra de passagens com milhas, alta de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior, representando 85% de todas as queixas sobre programas de milhas no período.

O impacto foi além dos clientes individuais. Ane Kiefer, dona de uma franquia Latam Travel no Itaim Bibi, viu seu negócio paralisar. Antes da migração, ela emitia cerca de 500 passagens por mês usando pontos — 80% de seu faturamento. Após maio, esse número caiu a zero. Com pouco suporte da empresa, Kiefer permanece aberta até o encerramento previsto do canal de agências físicas em 2023, incapaz de oferecer o serviço que seus clientes buscam.

Martin Holdschmidt, diretor do Latam Pass, reconheceu as falhas e prometeu resolução completa em menos de três meses. Mas especialistas apontam um problema estrutural mais grave: a ausência de regulamentação federal sobre programas de milhas deixa os consumidores sem proteção real. A Anac informou que o tema não faz parte de suas atribuições. Advogados recomendam documentar os prejuízos e recorrer ao Consumidor.gov ou ao Procon enquanto projetos de lei para regulamentar o setor aguardam análise no Congresso.

Vinte e três milhões de pessoas acordaram em maio descobrindo que o programa de milhas que alimentava seus planos de viagem havia desaparecido. O Latam Pass, o maior programa de fidelidade aéreo do Brasil, saiu do ar entre 20 e 23 de maio deste ano após uma migração de sistemas que a empresa havia anunciado, mas cujos efeitos se estenderiam muito além daqueles quatro dias.

Alexandre Tsunoda, engenheiro de 30 anos em São Paulo, estava entre os milhões que enfrentaram o caos. Ele queria emitir uma passagem para a Europa usando suas milhas acumuladas. O site da Latam rejeitava cada tentativa — erros de pagamento, falhas de processamento, nada funcionava. Apenas após horas de ligações conseguiu completar a transação pelo telefone. Mas Tsunoda teve sorte. Muitos outros não conseguiram resolver o problema nem mesmo assim.

Os números revelam a escala do colapso. Entre janeiro e junho de 2022, o programa recebeu 1.080 reclamações relacionadas à compra de passagens com milhas — um aumento de 37% comparado ao mesmo período do ano anterior. Dessas reclamações sobre programas de milhas em geral, 85% eram dirigidas ao Latam Pass. A empresa acumulou 24,5 mil reclamações no primeiro semestre de 2022, já superando metade do total de 42,6 mil registradas em todo 2021. Os relatos concentravam-se em dois pontos críticos: a impossibilidade de acumular pontos de voos já realizados e a incapacidade de resgatar milhas para emitir passagens.

Martin Holdschmidt, diretor do Latam Pass, confirmou as falhas e as atribuiu a uma transformação tecnológica que vinha sendo preparada desde novembro. A primeira migração importante ocorreu em março, quando o site de resgate foi completamente reformulado. Antes, os clientes eram redirecionados para uma plataforma separada e obsoleta, gerando instabilidades constantes. A segunda migração, entre 17 e 23 de maio, foi ainda mais profunda — afetou o sistema central que gerencia contas de usuários, benefícios, pontos e milhas. Durante esses dias, nenhum serviço funcionava. A empresa havia anunciado a parada com antecedência, colocando banners no site e enviando e-mails, e prorrogou a validade dos pontos que expirariam naquele período, embora não tenha especificado por quanto tempo.

O impacto não se limitou aos clientes individuais. Ane Kiefer, dona de uma franquia Latam Travel no Itaim Bibi, em São Paulo, viu seu negócio desabar. Sua loja estava programada para ficar sem acesso ao sistema de emissão com pontos entre 21 e 25 de maio. O problema nunca foi resolvido. Antes da migração, Kiefer emitia cerca de 500 passagens por mês usando pontos — 80% de seu faturamento. Após maio, esse número caiu para zero. Ela recebeu pouco suporte da Latam, que apenas orientou os clientes a usar o site ou o call center. "A sensação é horrível porque tem o produto e não posso vender", disse. Kiefer sabe que sua franquia será fechada no final de 2023, parte do plano da Latam de encerrar completamente o canal de agências físicas. Mas enquanto isso, ela permanece aberta, incapaz de oferecer o serviço que seus clientes procuram.

Holdschmidt reconheceu que o site voltou ao ar em 24 de maio, mas admitiu que ajustes ainda eram necessários. O acúmulo de pontos continuava apresentando falhas recorrentes — passageiros que voaram durante o período de atualização poderiam não conseguir somar seus pontos acumulados. O crédito de trechos qualificáveis, pontos que determinam o nível do cliente no programa e desbloqueiam benefícios, também estava com problemas. Em relação ao resgate de milhas, Holdschmidt afirmou que "a maioria dos problemas foram solucionados", mas reconheceu que "pode surgir alguma particularidade". Quando questionado sobre quando o programa voltaria a operar normalmente, ele prometeu que tudo seria resolvido em menos de três meses.

Para os consumidores prejudicados, as opções legais existem, mas são limitadas. Victor Hanna, advogado especializado em direito aeronáutico, recomendou que os afetados primeiro tentassem resolver o problema por meios administrativos — a plataforma Consumidor.gov ou o Procon local — antes de recorrer a ações judiciais. A recomendação era documentar o prejuízo com prints de diferenças de preços entre os dias em que o sistema funcionava e quando não funcionava. Leonardo Waterman, advogado especializado em crimes contra o consumidor, apontou um problema estrutural: a falta de regulamentação federal sobre programas de milhas transforma o sistema em uma "grande farsa", onde os consumidores dependem inteiramente da boa vontade das companhias aéreas. Existem projetos de lei para regulamentar a prática, mas ainda aguardam análise no Congresso. Sem regulamentação, os programas não são fiscalizados por nenhuma agência — a Anac, questionada, respondeu que sistemas e comercialização de milhas não fazem parte de suas atribuições.

Queria emitir uma passagem para Europa e não conseguia pelo site da Latam de nenhuma forma. Nem milhas, nem cartões. Indicava erro no meio de pagamento, nada dava certo. Consegui emitir com pontos apenas por telefone horas depois.
— Alexandre Tsunoda, engenheiro de São Paulo
A falta de fiscalização e controle efetivo sobre as milhas das companhias aéreas transformam o sistema em uma 'grande farsa'. E as partes dependem sempre da boa vontade das companhias aéreas.
— Leonardo Waterman, advogado especializado em crimes contra o consumidor
Contact Us FAQ