Kleber Mendonça: mídia não sabe lidar com Lula, que será reeleito

A mídia não sabe lidar e não sabe superar Lula
Observação do cineasta sobre a reação emocional descontrolada da imprensa diante do ex-presidente.
Mark

Quando você diz que a mídia não consegue lidar com Lula, está falando de incompetência ou de algo mais intencional?

Mimi

Acho que é os dois. Tem incompetência genuína — a pessoa perde a capacidade de pensar reto quando o assunto é Lula. Mas tem também escolha. O editorial do Estadão não é acidental. É uma decisão de retomar acusações que a Justiça já descartou.

Mark

Por que você acha que isso acontece especificamente com Lula?

Mimi

Porque Lula representa uma ruptura. Ele foi presidente, foi preso, foi solto, virou símbolo. A mídia tradicional nunca processou bem isso. É como aquele ex que mexe com você só de aparecer — você não consegue ser racional.

Mark

Mas as pesquisas mostravam Lula ganhando em primeiro turno. Isso não justificaria uma cobertura mais crítica?

Mimi

Cobertura crítica é legítima. O problema é quando você ignora fatos estabelecidos — como a sentença de prisão política — e retoma acusações anuladas. Isso não é crítica, é negação.

Mark

Você acha que isso afeta o resultado eleitoral?

Mimi

Provavelmente menos do que a mídia gostaria. As pessoas já desconfiam dela. Mas afeta o tom do debate, a qualidade da informação que circula. E isso importa para a democracia.

Mark

Então as 500 pesquisas de doutorado que você mencionou...

Mimi

São reais. Alguém vai ter que estudar como a imprensa brasileira se comportou nesse período. Vai ser material fascinante e assustador ao mesmo tempo.

  • Kleber Mendonça Filho lança nas redes sociais uma metáfora cortante: a imprensa brasileira trava diante de Lula como alguém que vê um ex-parceiro entrar numa sala — perde a compostura, reage com o corpo, não com a razão.
  • O Estado de S.Paulo publica, no mesmo fim de semana, um editorial que ignora decisões judiciais consolidadas e retoma acusações já descartadas pela Justiça, alimentando exatamente a narrativa que o cineasta estava criticando.
  • Pesquisas de opinião apontam para uma possível vitória de Lula no primeiro turno, e é esse cenário — mais do que qualquer argumento político — que parece desestabilizar setores da imprensa tradicional.
  • O debate se expande para além da disputa eleitoral: o que está em jogo é a credibilidade do jornalismo brasileiro num ano em que a polarização promete tornar cada manchete um campo de batalha.

Em janeiro de 2022, o cineasta Kleber Mendonça Filho observou, com a precisão de quem estuda comportamento humano, que a grande mídia brasileira parecia incapaz de cobrir Lula com equilíbrio — reagindo ao ex-presidente como um corpo que perde o controle diante de uma presença perturbadora. Sua provocação nas redes sociais ganhou peso imediato quando O Estado de S.Paulo publicou, no mesmo fim de semana, um editorial que ressuscitava acusações já anuladas pela Justiça, oferecendo, involuntariamente, a ilustração mais precisa da tese que ele acabara de formular. O episódio não era apenas sobre um cineasta e um jornal: era sobre como uma sociedade profundamente polarizada constrói — ou distorce — a narrativa de seu próprio futuro eleitoral.

Num domingo de janeiro de 2022, Kleber Mendonça Filho — diretor de Bacurau e O Som ao Redor — publicou no Twitter uma observação que rapidamente circulou como provocação e diagnóstico ao mesmo tempo. Ele via na cobertura da grande mídia sobre Lula algo que escapava à racionalidade jornalística: uma reação quase corporal, involuntária, semelhante à de alguém que encontra um ex-parceiro inesperadamente numa sala e perde a compostura. Completou a aposta com uma previsão: Lula seria reeleito.

O momento não era casual. As pesquisas eleitorais começavam a desenhar um cenário de vitória petista já no primeiro turno, e esse horizonte parecia desestabilizar certos setores da imprensa tradicional. No mesmo fim de semana, O Estado de S.Paulo publicou um editorial que atacava frontalmente a candidatura de Lula — argumentando que o eleitorado estava se esquecendo de quem ele era — e ressuscitava acusações que o Poder Judiciário já havia anulado, ignorando o reconhecimento de que Lula havia sido preso político.

O contraste era difícil de ignorar. Enquanto o cineasta descrevia uma imprensa que reagia emocionalmente em vez de racionalmente, o jornal fazia exatamente aquilo: retomava narrativas refutadas, desconsiderava decisões judiciais e assumia uma postura que soava menos jornalística e mais militante. O editorial funcionava, sem querer, como a ilustração mais precisa da tese de Mendonça Filho.

O que o episódio revelava ia além de uma escaramuça entre um cineasta e um veículo de imprensa. Era um sintoma de como o Brasil entrava num ano eleitoral intenso: com a cobertura política já contaminada pela polarização, com fatos estabelecidos sendo disputados como se fossem opiniões, e com a imprensa enfrentando perguntas difíceis sobre sua própria objetividade num momento em que ela mais seria necessária.

No domingo de janeiro, o cineasta Kleber Mendonça Filho — autor de filmes como Bacurau e O Som ao Redor — lançou uma provocação nas redes sociais que tocava num ponto que ele via como central à política brasileira: a incapacidade da grande mídia em lidar com Lula. "Há 500 pesquisas de doutorado a serem feitas sobre a grande mídia brasileira e Lula", escreveu no Twitter, antes de desdobrar a ideia com uma metáfora corporal que pegou. Comparou a reação da imprensa ao ex-presidente com a de alguém que vê um ex-parceiro entrar numa sala — travamento, agressividade, perda de compostura, o corpo inteiro em reação involuntária. A mídia, em sua leitura, simplesmente não sabia superar Lula. E completou a aposta: ele seria reeleito.

O timing da postagem não era casual. Pesquisas de opinião começavam a apontar para uma possível vitória de Lula já no primeiro turno das eleições presidenciais daquele ano. Era precisamente esse cenário que parecia desestabilizar certos setores da imprensa tradicional. No mesmo fim de semana, O Estado de S.Paulo publicou um editorial que funcionava quase como resposta — ou confirmação — do que Mendonça Filho estava descrevendo.

O jornal paulista atacava frontalmente a possibilidade de uma candidatura petista. Argumentava que, considerando tudo o que o PT havia feito e deixado de fazer em seus 40 anos de existência — especialmente durante os governos Lula e Dilma — uma nova candidatura presidencial do partido não deveria gerar entusiasmo na população. Mas havia algo mais: o editorial expressava incômodo explícito com as próprias pesquisas que mostravam força de Lula. Segundo o jornal, aquelas sondagens revelavam um dado "importantíssimo": parte do eleitorado estava se esquecendo de quem era Lula.

O editorial prosseguia questionando as credenciais de Lula para se apresentar como defensor da democracia. E aqui entrava um ponto delicado: o jornal tentava ressuscitar acusações que já haviam sido anuladas pelo Poder Judiciário. Apesar de comprovado que Lula havia sido preso político — reconhecimento que veio depois de anos de batalha jurídica — o editorial insistia em narrativas que a Justiça havia descartado. Acusava o ex-presidente de ter desmoralizado o Estado Democrático de Direito, de ter promovido campanha difamatória contra o Judiciário, de ter sugerido conspiração internacional por trás de suas condenações.

O contraste era gritante. De um lado, um cineasta observando que a imprensa perdia a objetividade diante de Lula, reagindo emocionalmente em vez de racionalmente. Do outro, um jornal de circulação nacional fazendo exatamente aquilo que estava sendo criticado: retomando argumentos já refutados, ignorando decisões judiciais, mantendo uma postura que parecia menos jornalística e mais militante. O editorial de O Estado de S.Paulo funcionava como ilustração viva da tese de Mendonça Filho — a mídia não conseguia lidar com Lula de forma equilibrada.

O que estava em jogo era mais do que uma disputa eleitoral comum. Era uma questão sobre como a imprensa brasileira cobria política num momento de polarização extrema, como ela tratava fatos já estabelecidos pela Justiça, como ela reagia à possibilidade de um retorno ao poder de uma figura que havia marcado profundamente a história recente do país. As pesquisas de doutorado que Mendonça Filho mencionava — aquelas 500 pesquisas — pareciam estar se escrevendo em tempo real, nas páginas dos jornais e nas redes sociais, enquanto o país se aproximava de um ano eleitoral que promete ser tão intenso quanto polarizado.

Há 500 pesquisas de doutorado a serem feitas sobre a grande mídia brasileira e Lula
— Kleber Mendonça Filho
A mídia não sabe lidar e não sabe superar Lula. Que vai ser reeleito
— Kleber Mendonça Filho
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