Judiciário brasileiro precisa medir governança além da produtividade

Desempenho judicial não pode ser reduzido a simples produtividade
O argumento central de que tribunais precisam ser avaliados por governança completa, não apenas pela quantidade de decisões.
Mark

Por que a produtividade sozinha não é suficiente para avaliar um tribunal?

Mimi

Porque um tribunal que produz muitas decisões pode estar fazendo isso de forma opaca, com tecnologia obsoleta, ou sem realmente resolver o acesso das pessoas à Justiça. Produtividade é como contar quantas refeições um restaurante serve; não diz nada sobre a qualidade, a higiene ou se as pessoas conseguem realmente comer lá.

Mark

E como o iGov-Jus muda essa perspectiva?

Mimi

Ele adiciona quatro dimensões além da produtividade: transparência, tecnologia, acesso real à Justiça e gestão do fluxo processual. Quando você olha para essas cinco coisas juntas, a posição dos tribunais muda significativamente. Um tribunal que parecia excelente em produtividade pode estar em posição bem diferente quando você considera transparência e tecnologia.

Mark

Isso não cria um risco de que os tribunais foquem em métricas em vez de em justiça real?

Mimi

É um risco real. Por isso o texto é claro: um indicador não pode virar dogma. A ideia é qualificar a informação disponível, não criar uma nova prisão de números. Mas o risco de não medir é maior — se medirmos apenas quantidade, incentivamos apenas quantidade.

Mark

Qual é a conexão entre governança e independência judicial?

Mimi

Muitos acham que são opostos, mas não são. Uma instituição bem governada, com transparência e processos claros, é mais forte, não mais fraca. A independência fica mais legítima quando há responsabilidade institucional. É como a diferença entre um juiz que age sozinho e um juiz que age dentro de um sistema que presta contas.

Mark

O que muda se o Judiciário adotar essa lógica?

Mimi

Muda o que se investe, o que se prioriza, como se avaliam os gestores. Se você mede transparência, investe em transparência. Se mede tecnologia, investe em tecnologia. Os incentivos mudam a direção das instituições.

  • O Judiciário brasileiro consome parcela expressiva do orçamento público, mas é avaliado quase exclusivamente pela quantidade de decisões produzidas — uma métrica que deixa invisíveis dimensões cruciais de sua gestão.
  • A ausência de indicadores abrangentes cria um vácuo perigoso: tribunais podem acumular sentenças enquanto operam com tecnologia defasada, baixa transparência e gestão precária da demanda.
  • Pesquisadores desenvolveram o iGov-Jus, índice que combina cinco dimensões — produtividade, transparência, tecnologia, acesso à Justiça e eficiência processual — para oferecer uma visão institucional mais completa.
  • Quando as cinco dimensões são observadas juntas, a posição relativa dos tribunais muda significativamente, revelando que rankings diferentes respondem a perguntas diferentes sobre o mesmo sistema.
  • O índice ainda exige testes, refinamentos e acompanhamento longitudinal, mas a ideia central já está madura: medir melhor é o primeiro passo para governar melhor.

Em toda sociedade que aspira à legitimidade institucional, a pergunta sobre como avaliar o poder que julga é tão urgente quanto a pergunta sobre como ele decide. No Brasil, pesquisadores e articulistas propõem que o Judiciário seja medido não apenas pela quantidade de sentenças que produz, mas pela qualidade de sua governança — transparência, tecnologia, acesso e gestão processual reunidos num único índice, o iGov-Jus. A ideia parte de uma convicção antiga: o que se mede define o que se valoriza, e o que se valoriza molda o que as instituições se tornam.

Em fevereiro, um argumento foi apresentado nas páginas da Folha: era hora de o Judiciário brasileiro abraçar uma agenda séria de governança. Os tribunais fazem muito mais do que julgar — administram dinheiro público, gerenciam pessoas, lidam com tecnologia e controlam o tempo de juízes e servidores. Independência judicial e boa governança não são inimigos; ao contrário, quanto melhor administrada uma instituição, mais sólida sua legitimidade perante a sociedade.

A provocação não ficou apenas no papel. Marcelo Justus, Edimara Mezzomo Luciano e Bernardo Geraldini, com apoio da Convergência Brasil, desenvolveram uma resposta concreta: o iGov-Jus, o Índice Amplo de Governança da Justiça. O Brasil já havia avançado bastante em dados judiciais graças ao CNJ — sabemos quantos processos existem, como está o congestionamento e quanto se gasta. Mas produtividade, por si só, não diz tudo. Um tribunal pode produzir muitas sentenças e ainda assim sofrer com falta de transparência ou tecnologia defasada.

O iGov-Jus funciona em cinco camadas: eficiência e produtividade ajustadas pela população atendida, transparência institucional, maturidade tecnológica, eficiência no acesso à Justiça e gestão do fluxo processual. Não se descarta o que já existe — apenas se amplia o olhar. Quando essas dimensões são observadas juntas, a posição relativa dos tribunais muda de forma significativa, mostrando que o IPC-Jus e o iGov-Jus respondem a perguntas diferentes sobre o mesmo objeto.

O índice ainda precisa de testes adicionais e refinamentos — um indicador de governança não pode se tornar dogma. Mas a ideia central já está madura o suficiente para entrar na agenda pública: indicadores moldam comportamentos, e se medirmos apenas quantidade de decisões, incentivamos apenas quantidade. Acrescentar transparência, tecnologia e gestão de demanda cria incentivos para uma governança mais completa e republicana. Medir melhor não resolverá sozinho os problemas do Judiciário, mas dificilmente conseguiremos melhorá-lo enquanto enxergarmos apenas uma parte de seu desempenho.

Há alguns meses, em fevereiro, um argumento foi apresentado nestas páginas: o Judiciário brasileiro estava na hora de abraçar uma agenda séria de governança. A ideia não era nova, mas precisava ser dita com clareza. Os tribunais fazem muito mais do que julgar. Eles administram dinheiro público que falta em outros lugares, gerenciam pessoas, lidam com tecnologia, mantêm prédios de pé e, talvez mais importante que tudo, controlam o tempo precioso de juízes e servidores. Independência judicial e boa governança não são inimigos — na verdade, quanto melhor administrada uma instituição, mais forte sua legitimidade, sua independência e a confiança que o público deposita nela.

Essa provocação não ficou apenas no papel. Pesquisadores levaram a sério a pergunta: como medir o desempenho dos tribunais para além de quantas decisões eles produzem? Marcelo Justus, Edimara Mezzomo Luciano e Bernardo Geraldini, com apoio da Convergência Brasil, desenvolveram uma resposta: um índice abrangente de governança judicial. O Brasil já havia avançado bastante em dados judiciais, em grande parte graças ao trabalho do Conselho Nacional de Justiça. Hoje sabemos quantos processos existem, quão produtivos são os tribunais, como está o congestionamento, quanto se gasta e como a estrutura funciona. Mas produtividade, por si só, não diz tudo. Um tribunal pode produzir muitas sentenças e ainda assim sofrer com falta de transparência, tecnologia defasada ou gestão inadequada da demanda.

Isso importa porque o Judiciário consome uma fatia considerável do orçamento público. Não é suficiente perguntar quanto os tribunais produzem. A pergunta real é: que resultados institucionais eles entregam com o dinheiro que recebem? Dessa reflexão nasceu o iGov-Jus, o Índice Amplo de Governança da Justiça. O instrumento funciona em cinco camadas. A primeira mantém a eficiência e produtividade já medidas pelo IPC-Jus, o índice do CNJ, mas ajustada para levar em conta a população que cada tribunal atende. As outras quatro dimensões cobrem transparência institucional, maturidade tecnológica, a eficiência real do acesso à Justiça e da gestão de demanda, e a eficiência no fluxo dos processos. Não se descarta o que já existe; apenas se amplia o olhar.

Os números revelam algo interessante: quando essas cinco dimensões são observadas juntas, a posição relativa dos tribunais muda de forma significativa. Isso não quer dizer que um ranking esteja certo e outro errado. Eles respondem a perguntas diferentes. O IPC-Jus pergunta: quanto de eficiência técnica e produtividade? O iGov-Jus pergunta algo mais amplo: como cada tribunal combina produtividade, transparência, tecnologia, acesso à Justiça e gestão processual? São lentes diferentes apontadas para o mesmo objeto.

O iGov-Jus é uma primeira tentativa e precisa de testes adicionais, acompanhamento ao longo do tempo, análises de sensibilidade e refinamento de seus componentes. Um indicador de governança não pode se tornar dogma quando seu propósito é justamente melhorar a qualidade da informação disponível. Mas uma ideia já está madura o suficiente para entrar na agenda pública: desempenho judicial não pode ser reduzido a simples produtividade.

Indicadores moldam comportamentos. O que se mede define metas, orienta investimentos, estabelece prioridades. Se medirmos apenas quantidade de decisões, incentivamos quantidade. Se acrescentarmos transparência, tecnologia, gestão de demanda e eficiência processual, criamos incentivos para uma governança mais completa. O estudo propõe transformar parte da agenda de governança em métricas que possam ser observadas, comparadas e melhoradas. O Brasil conseguiu colocar sua Justiça em números — isso foi um avanço real. O desafio agora é colocar também a governança da Justiça em números.

Medir melhor não resolverá sozinho os problemas do Judiciário. Mas dificilmente conseguiremos melhorar sua governança em bases republicanas enquanto medirmos apenas uma parte de seu desempenho. Há um último ponto: conceitos e práticas de administração pública precisam ser incorporados pelo Poder Judiciário, como já acontece em alguma medida no Executivo, que tem uma carreira de gestores públicos e se submete à fiscalização de uma corte de contas. Levar essa lógica ao sistema de Justiça não reduz sua independência. Ao contrário, fortalece sua responsabilidade institucional perante a sociedade.

Independência judicial e boa governança não são inimigos — quanto melhor administrada uma instituição, mais forte sua legitimidade e a confiança que o público deposita nela
— Argumento central do artigo
Indicadores moldam comportamentos. O que se mede define metas, orienta investimentos e estabelece prioridades
— Reflexão sobre o impacto de métricas institucionais
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