Judiciário articula políticas para combater violência doméstica com eficácia

Brasil registra média de 12 assassinatos de mulheres por dia; casos notórios como Maria da Penha, Viviane Vieira, Ângela Diniz, Eloá Pimentel, Mércia Nakashima e Daniella Perez ilustram trajetórias interrompidas pela violência doméstica.
Um X vermelho na palma da mão, símbolo que autoriza as autoridades a agir
A campanha Sinal Vermelho oferece um canal discreto para mulheres em perigo buscarem ajuda em farmácias.
Mark

Por que o Judiciário precisou se reinventar? Não era suficiente simplesmente punir os agressores?

Mimi

Punição é necessária, mas não é suficiente. A Lei Maria da Penha existia, mas muitos casos não chegavam nem aos tribunais. Mulheres não denunciavam por medo, por falta de acesso, por não saber para onde ir. O Judiciário percebeu que precisava ser também um espaço de acolhimento e articulação.

Mark

E por que as Coordenadorias Estaduais fazem diferença?

Mimi

Porque trazem a estrutura para perto. Uma mulher no interior do Brasil não precisa viajar para a capital para acessar uma unidade especializada. Quando o serviço está próximo e acessível, mais mulheres se sentem seguras para denunciar.

Mark

O Sinal Vermelho parece quase simples demais. Como um X na mão salva vidas?

Mimi

Justamente porque é simples. A mulher não precisa falar nada, não precisa se expor. O agressor não vê uma ligação para a polícia, não vê um documento sendo preenchido. Ela entra em uma farmácia, mostra a mão, e a rede funciona silenciosamente.

Mark

Mas isso só funciona se a farmácia estiver ali, se o atendente souber o que fazer.

Mimi

Exato. Por isso a parceria com dez mil farmácias não é um detalhe. É a diferença entre um programa que existe no papel e um que realmente alcança as pessoas onde elas estão.

Mark

E a Semana Justiça pela Paz em Casa? Três vezes ao ano parece pouco.

Mimi

É um começo. Acelera o processamento de casos que de outra forma ficariam meses ou anos parados. Cada semana dessa representa dezenas de processos movimentados, decisões tomadas, mulheres que finalmente veem algo acontecer.

  • A média de 12 feminicídios por dia no Brasil expõe a urgência de uma resposta que vá além da punição individual e alcance a prevenção sistêmica.
  • A pandemia de Covid-19 agravou o isolamento das vítimas, aumentando a exposição ao agressor e tornando os canais tradicionais de denúncia ainda mais difíceis de acessar.
  • O CNJ criou Coordenadorias Estaduais especializadas e a 'Semana Justiça pela Paz em Casa' para reduzir o tempo entre a denúncia e a resposta judicial em todo o território nacional.
  • A campanha 'Sinal Vermelho', presente em mais de dez mil farmácias, oferece um canal silencioso e seguro: um X vermelho na palma da mão aciona socorro sem que o agressor perceba.
  • Casos como os de Eloá Pimentel, Mércia Nakashima e Daniella Perez lembram que por trás das estatísticas há trajetórias de vida interrompidas que exigem resposta coletiva e urgente.

Em um país onde doze mulheres perdem a vida por dia em decorrência de violência doméstica, o Poder Judiciário brasileiro deixou de ser apenas árbitro de conflitos para se tornar arquiteto de políticas públicas. Por meio do Conselho Nacional de Justiça, estruturas especializadas, campanhas discretas como o 'Sinal Vermelho' e semanas dedicadas ao processamento acelerado de casos buscam transformar a Lei Maria da Penha em proteção concreta e cotidiana. É o reconhecimento institucional de que silêncio e omissão também são formas de cumplicidade.

Por muito tempo, a violência doméstica foi tratada como assunto privado, invisível ao Estado e à sociedade. Essa percepção mudou — mas as estatísticas ainda revelam uma crise persistente: doze mulheres assassinadas por dia no Brasil.

Diante desse cenário, o Conselho Nacional de Justiça assumiu papel ativo na construção de uma política judiciária nacional voltada ao enfrentamento da violência contra as mulheres. Desde 2018, unidades especializadas foram criadas não apenas nas capitais, mas também no interior do país, reconhecendo que a dinâmica entre vítima e acusado exige estruturas dedicadas e acessíveis.

As Coordenadorias Estaduais da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar ampliam a capilaridade do sistema, enquanto a 'Semana Justiça pela Paz em Casa' — realizada três vezes ao ano — acelera o processamento de casos e encurta o caminho entre a denúncia e a resposta judicial.

A iniciativa mais inovadora, porém, nasceu da pandemia. O 'Sinal Vermelho', desenvolvido em parceria com a Associação dos Magistrados Brasileiros, transformou mais de dez mil farmácias em pontos de acolhimento sigiloso. Uma mulher em perigo desenha um X vermelho na palma da mão e, ao entrar na farmácia, autoriza o atendente a acionar as autoridades discretamente — sem que o agressor perceba.

Nomes como Maria da Penha, Ângela Diniz, Eloá Pimentel e Daniella Perez não são apenas referências históricas: são vidas que poderiam ter sido vividas plenamente. O Judiciário, ao articular essas políticas, reconhece que combater a violência doméstica exige ação coordenada entre os três poderes — e que a meta, ainda em construção, é a erradicação desse ciclo de violência.

Há pouco mais de duas décadas, a violência doméstica era considerada um assunto privado — algo que não deveria ocupar a esfera pública nem justificar intervenção do Estado. Essa mudança de perspectiva, de silêncio para visibilidade, representa uma transformação profunda na forma como a sociedade compreende o abuso contra mulheres. Mas a consciência crescente sobre o problema não eliminou as estatísticas devastadoras. No Brasil, doze mulheres são assassinadas a cada dia.

Diante dessa realidade, o Poder Judiciário deixou de ser apenas um espaço de aplicação de penas. Tornou-se um articulador de políticas públicas destinadas a dar efetividade real à Lei Maria da Penha. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) assumiu papel central nessa transformação. Em 2018, instituiu a Política Judiciária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, reconhecendo que a dinâmica específica entre vítima e acusado — desde a coleta de provas até o andamento processual — exigia estruturas especializadas. Não apenas nas grandes cidades, mas também no interior do país, foram criadas unidades judiciárias dedicadas exclusivamente a esses casos.

Parte dessa estratégia envolveu a criação das Coordenadorias Estaduais da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, vinculadas aos Tribunais de Justiça estaduais. A lógica é simples: quanto mais acessíveis e presentes essas estruturas, maior o incentivo para que mulheres rompam o silêncio e façam denúncias. Complementando essa organização institucional, a Semana Justiça pela Paz em Casa ocorre três vezes ao ano especificamente para acelerar o processamento de casos de violência doméstica, reduzindo o tempo entre a denúncia e a resposta judicial.

Mas talvez a iniciativa mais criativa tenha sido o Sinal Vermelho. Desenvolvida em parceria entre o CNJ e a Associação dos Magistrados Brasileiros, a campanha reconhecia um risco específico: o aumento do tempo em casa durante a pandemia de Covid-19 potencializava a violência doméstica. A solução foi elegante e discreta. Mais de dez mil farmácias em todo o território nacional se tornaram pontos de acolhimento. Uma mulher em perigo pode simplesmente desenhar um X vermelho na palma da mão e entrar em qualquer uma dessas farmácias. O símbolo autoriza o atendente a contatar as autoridades policiais de forma confidencial, sem que o agressor perceba.

Os desafios permanecem complexos. Mais de cem milhões de mulheres vivem no Brasil, e cada uma delas merece desenvolver seus talentos e planos sem marcas de trauma ou interrupção brusca da vida. Os casos notórios — Maria da Penha, Viviane Vieira do Amaral Arronenzi, Ângela Diniz, Eloá Pimentel, Mércia Nakashima, Daniella Perez — não são abstrações estatísticas. São trajetórias interrompidas, vidas que poderiam ter sido vividas plenamente. A resposta do Judiciário, coordenada pelo CNJ, representa um reconhecimento de que apenas ações articuladas entre Executivo, Legislativo e Judiciário conseguem coibir a reiteração desses crimes. O trabalho está em andamento, e a meta é clara: prevenir e, no futuro próximo, erradicar a violência doméstica no Brasil.

A violência contra a mulher passou a ser uma questão política por excelência, mas há pouco mais de duas décadas a maioria das pessoas considerava que 'violência doméstica' era uma situação privada
— Angela Davis, socióloga norte-americana
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