Jovens chineses ressuscitam fascinação por Mao 50 anos após sua morte

Ele deixa claro quem é o opressor e quem é o oprimido
Jovem chinês explica por que a linguagem de Mao é mais acessível que o jargão econômico para processar desigualdade.
Mark

Por que você acha que jovens chineses estão tão interessados em Mao agora, 50 anos depois?

Mimi

Muitos deles enfrentam desemprego alto, casas inacessíveis, trabalho exaustivo. Mao oferece uma linguagem simples para nomear quem é o opressor e quem é o oprimido.

Luke

Mas quanto desse interesse é genuíno engajamento político e quanto é apenas cultura de internet? Os vídeos acumulam visualizações, mas isso não significa necessariamente que os jovens entendem o que Mao realmente fez.

Mimi

Verdade. Muitos desconhecem as realidades do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural. É mais sobre usar Mao como símbolo para processar insegurança econômica.

Mark

E o governo permite isso? Podem falar sobre Mao abertamente?

Mimi

Sim, podem. Mas quando o assunto é Xi Jinping, o atual líder, há muito mais autocensura. É um contraste interessante.

Luke

Então o Estado está permitindo que critiquem o capitalismo através de Mao, mas não que critiquem Xi diretamente? Isso parece estratégico.

Mimi

Pode ser. Ou simplesmente reflete o espaço frágil que existe para discussão online — há censura, mas também há autocensura que as pessoas impõem a si mesmas.

Mark

Os especialistas estão preocupados com isso?

Mimi

Muito. Um professor de Leiden diz que isso tem "potencial explosivo" porque é um movimento populista de baixo para cima que pode evoluir além da internet.

Luke

Mas ele está especulando sobre o futuro. O que sabemos agora é que há vídeos com milhões de visualizações e que livros de Mao são emprestados muito. Tudo o mais é interpretação.

Mimi

Justo. Mas a interpretação importa quando tentamos entender por que isso está acontecendo agora, neste momento específico da China.

  • Vídeos de Mao acumulam milhões de visualizações no Bilibili, plataforma com 60% de usuários entre 18-24 anos
  • Desemprego urbano para jovens de 16-24 anos atingiu 17,9% em julho de 2026
  • Obras Selecionadas de Mao foram o livro mais emprestado da Biblioteca de Tsinghua desde 2019 até 2025
  • Resolução oficial do PCC de 1981 estabeleceu avaliação de Mao como '70% conquistas, 30% erros'

Vídeos de Mao acumulam milhões de visualizações no Bilibili, plataforma com 60% de usuários entre 18-24 anos, enquanto jovens o chamam de 'Professor' e discutem suas ideias abertamente. Desemprego juvenil em alta (17,9% em julho de 2026) e críticas ao capitalismo encontram eco nas ideias de Mao, oferecendo linguagem simples para processar desigualdade e insegurança econômica.

Cinquenta anos após sua morte, Mao Tsé Tung experimenta ressurgimento de popularidade entre jovens chineses online, refletindo insatisfação com desigualdade econômica e mobilidade social reduzida.

Cinquenta anos após sua morte, em 9 de setembro de 1976, Mao Tsé Tung ressurgiu como figura central na cultura política dos jovens chineses. Vídeos compilando suas aparições em filmes e séries de televisão acumulam milhões de visualizações na plataforma Bilibili, onde quase 60% dos usuários têm entre 18 e 24 anos. Nesses espaços, jovens se referem ao antigo líder comunista como "Professor" ou "Mestre", discutem suas ideias abertamente e deixam comentários elogiosos como "Viva o grande homem". A mudança é notável: enquanto a geração anterior cresceu com uma narrativa oficial equilibrada — a resolução do Partido Comunista Chinês de 1981 estabeleceu uma avaliação de "70% conquistas, 30% erros" — os jovens de hoje parecem redescobrir Mao através de uma lente diferente, menos histórica e mais imediatamente política.

Dong, um estudante de Nanjing prestes a ingressar na universidade, exemplifica essa tendência. Recentemente, assistiu a um vídeo de duas jovens cantando uma canção patriótica diante de uma estátua gigante do jovem Mao na Ilha Laranja, em Changsha, e sentiu-se profundamente emocionado. Ele e seus colegas participam de comunidades online onde discutem política contemporânea, conhecidas como "círculo político de teclado". Um indicador tangível dessa renovada atenção é que, desde 2019, as Obras Selecionadas de Mao Tsé Tung tornaram-se o livro mais emprestado da Biblioteca da Universidade de Tsinghua, mantendo essa posição até 2025. Esse interesse contrasta com o período sob Deng Xiaoping e Jiang Zemin, quando retratos de Mao desapareceram gradualmente de estações ferroviárias, praças públicas e salas de aula, e o líder passou a ser visto como figura histórica, não como divindade.

O título "Professor" tem origem específica. Durante um encontro com o jornalista americano Edgar Snow em 1970, Mao teria dito que não gostava de títulos como "Os Quatro Grandes" — slogan usado durante a Revolução Cultural para elogiá-lo como grande professor, líder, comandante e timoneiro — afirmando: "Só resta um... Professor, porque eu sempre fui um professor". Para Dong e seus contemporâneos, esse rótulo permite discussão aberta sobre Mao de forma que não é possível com o atual líder Xi Jinping. Quando o assunto é Xi, Dong sente que "não é algo que possa ser discutido abertamente". Um estudo do Instituto Mercator para Estudos da China descobriu que, embora a China online permita certo grau de discussão pública, tópicos que afetam os mais altos níveis de liderança são frequentemente evitados conscientemente — resultado tanto de censura quanto de autocensura.

Especialistas apontam que essa fascinação renovada está interligada com as percepções dos jovens sobre desigualdade de riqueza e declínio da mobilidade social. Florian Schneider, professor da Universidade de Leiden que estuda a cultura política da juventude chinesa, observa que os jovens de hoje enfrentam realidade muito diferente da de gerações anteriores. Seus pais viveram em época em que o crescimento econômico parecia elevar o padrão de vida de todos; muitos jovens agora se sentem deixados para trás pelo progresso prometido pelas reformas de Deng. Segundo dados do Departamento Nacional de Estatísticas da China, a taxa de desemprego urbano para jovens de 16 a 24 anos que não são estudantes subiu para 17,9% em julho de 2026 — o nível mais alto desde a revisão da metodologia estatística três anos antes. Novos termos entraram no vocabulário cotidiano: "996" refere-se ao trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana; muitos jovens dizem preferir "ficar deitados", permanecer passivos em vez de se deixarem levar pela "involução" — trabalhar cada vez mais apenas para se manter no mesmo lugar.

Nesse contexto de incerteza econômica, as críticas de Mao ao capitalismo encontram eco. Schneider afirma que alguns jovens usam as ideias de Mao para expressar insatisfação com o que consideram "captura do Estado pelo capital", enquanto outros tratam seus escritos como guia para lidar com as contradições da vida. Dong expressa opinião semelhante: "Nossa geração foi ensinada desde a infância que o trabalho árduo seria recompensado. Mas quando crescemos, descobrimos que não era tão fácil conseguir emprego e que as casas eram inacessíveis". Ele acrescenta que a linguagem de Mao é direta, dividindo as pessoas em categorias claras. "Ele deixa claro quem é o opressor e quem é o oprimido. Essa estrutura simples é mais fácil de entender do que o jargão econômico." Schneider ressalva: "O ressurgimento de Mao não é simplesmente nostalgia. Reflete uma tentativa dos jovens de usar uma linguagem histórica existente para nomear e processar a desigualdade e a insegurança que vivenciam."

A avaliação oficial do Partido Comunista Chinês sobre Mao ainda se baseia na resolução de 1981, onde suas conquistas são primordiais e seus erros secundários. A terceira resolução histórica do Partido, adotada em 2021, coloca o "grande rejuvenescimento da nação chinesa" no centro de sua narrativa. Nesse contexto, a revolução de Mao é frequentemente entendida como a fase em que a China "se ergueu", estabeleceu a República Popular, resguardou a independência nacional e lançou as bases para o rejuvenescimento do país. Mao, portanto, não é apenas figura histórica cujas conquistas e fracassos devem ser avaliados; é também apresentado como uma das origens das narrativas atuais de força nacional. Schneider acredita que "as políticas educacionais do Partido têm pelo menos parte da responsabilidade pelo ressurgimento de Mao nos dias de hoje. Para muitos jovens, a China de Mao se baseia em uma fantasia na qual esse grande líder é um herói inquestionável". Ele argumenta que muitos jovens desconhecem as realidades devastadoras do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, ou possuem compreensão distorcida do papel de Mao nesses eventos.

Schneider alerta que essa admiração popular por Mao contém mais energia política do que pode parecer à primeira vista. "Este é um desenvolvimento potencialmente explosivo, porque essa cultura de fãs de Mao, que surge de baixo para cima, tem um caráter claramente populista e não se limitará necessariamente a questionar os métodos de governo atuais." Ele compara isso às expressões de nacionalismo na China: "Esses sentimentos populistas podem ser censurados até certo ponto, mas controlá-los completamente é extremamente difícil". Para Dong e seus contemporâneos, a atual "febre Mao" pode estar longe de terminar. Resta saber se ela se limitará à cultura da internet ou se desenvolverá em uma forma mais duradoura de identidade política.

Nossa geração foi ensinada desde a infância que o trabalho árduo seria recompensado. Mas quando crescemos, descobrimos que não era tão fácil conseguir emprego e que as casas eram inacessíveis.
— Dong, estudante de Nanjing
O ressurgimento de Mao não é simplesmente nostalgia. Reflete uma tentativa dos jovens de usar uma linguagem histórica existente para nomear e processar a desigualdade e a insegurança que vivenciam.
— Florian Schneider, professor da Universidade de Leiden
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