Jornalista de Gaza quer deixar o país após três anos de ataques e incerteza

Mais de 73 mil palestinos mortos desde outubro de 2023, maioria civis; 2,1 milhões deslocados; 200 mil crianças sem acesso a educação; população enfrenta fome, falta de água potável e eletricidade.
Não quero mais continuar aqui por muito tempo com minhas filhas
Ghada Al-Kurd anuncia sua decisão de deixar Gaza após três anos de ataques e incerteza.
Mark

Por que agora? Ghada estava sobrevivendo há três anos. O que mudou?

Mimi

Não é que tudo tenha melhorado — é que a indefinição se tornou insuportável. Há comida agora, as filhas voltaram à escola. Mas o cessar-fogo está travado, os ataques continuam, e ela vê suas filhas com medo toda noite. Três anos é o limite.

Luke

Mas o cessar-fogo existe, tecnicamente. Há uma trégua em vigor. Por que ela diz que nada mudou?

Mimi

Porque a trégua está em impasse total. Israel ocupa 60% do território e diz que só sai se o Hamas se desarmar. O Hamas diz que só se desarma se Israel sair primeiro. Ninguém se move. Para Ghada, uma trégua que não avança é apenas uma guerra que parou de fazer barulho.

Mark

E as filhas? Como elas estão lidando com tudo isso?

Mimi

Voltaram à escola, o que é importante. Mas não gostam de sair na rua. Têm medo de ataques aéreos repentinos. Ghada acorda às 6 da manhã, prepara comida, as arruma para a aula. É uma rotina quase normal, mas construída sobre areia movediça.

Luke

Quantas crianças ainda estão fora da escola?

Mimi

Cerca de 200 mil. Até o fim de 2025, 95,5% das escolas tinham sido destruídas ou danificadas. Agora 565 mil estão matriculadas em espaços de aprendizagem apoiados pela ONU e iniciativas independentes.

Mark

E quanto aos custos de vida? Ela mencionou água e eletricidade.

Mimi

Água potável custa dois dólares por litro e meio. Eletricidade, que ela compra informalmente, sai a cem dólares por semana. Ela justifica: precisa de luz para as filhas estudarem, para que elas sintam que existe uma vida normal.

Luke

Esses números vêm de onde? São estimativas de Ghada ou dados oficiais?

Mimi

Ghada está relatando seus próprios custos. Mas o Ocha estima que 94% da população necessite de assistência para abrigo e itens não alimentares, e que 74% dependam de água potável transportada por caminhões de ajuda humanitária. Os números dela se encaixam nesse padrão.

Mark

E politicamente? Ela tem esperança em alguma liderança?

Mimi

Não. Ela diz que não prefere nem a Autoridade Palestina nem o Hamas. Quer novos rostos, novas figuras públicas. Mas Netanyahu diz que não haverá mais Hamas em Gaza, e Trump fala em avanço simultâneo entre desarmamento e retirada. Ninguém concorda.

Luke

Então ela está saindo porque não vê saída política?

Mimi

Não apenas política. É tudo junto: a guerra indefinida, o medo das filhas, os custos proibitivos, a falta de liderança confiável. Três anos de tudo isso é o limite.

  • Um cessar-fogo anunciado há um ano permanece travado: Israel ocupa 60% do território e exige o desarmamento do Hamas, que só aceita depor armas após a retirada israelense — e nenhum dos lados cede.
  • Ataques aéreos continuam sendo rotina noturna; as filhas de Ghada gritam de medo quando ouvem aviões, e ela admite não suportar mais essa vida de paralisia e terror constante.
  • A comida voltou às mesas, mas água potável custa dois dólares por garrafa e eletricidade informal chega a cem dólares semanais — custos proibitivos para uma população em que 94% precisam de assistência humanitária.
  • Das 815 escolas de Gaza, 95,5% foram destruídas ou danificadas; 200 mil crianças ainda estão fora de qualquer forma de ensino, mesmo com esforços da ONU para reabrir espaços de aprendizagem.
  • O Hamas viu sua aprovação cair para 24%, mas 72% dos palestinos ainda se opõem ao seu desarmamento — um paradoxo que reflete o medo de que a rendição traga nova guerra, não paz.
  • Ghada não espera mais por acordos ou líderes conhecidos: ela quer sair de Gaza com Fatima e Mari e procurar, em outro lugar, o futuro que o conflito não deixa existir ali.

Três anos após o início do conflito que transformou Gaza em ruínas, a jornalista palestina Ghada Al-Kurd anuncia que não pode mais esperar por uma paz que não chega. Com duas filhas que tremem ao ouvir aviões, ela busca uma saída de um território onde um cessar-fogo existe apenas no papel, enquanto mais de 73 mil pessoas já morreram e 2,1 milhões vivem deslocadas. A história de Ghada é, ao mesmo tempo, singular e coletiva: a de um povo que sobreviveu à fome, mas ainda não encontrou caminho para a vida.

Três anos foram suficientes para Ghada Al-Kurd. A jornalista palestina, que cobre o conflito para veículos internacionais, decidiu que precisa sair de Gaza com suas filhas Fatima e Mari, de 12 e 14 anos. O motivo é simples e devastador: as meninas gritam de medo quando ouvem aviões. Ela não aguenta mais.

Há um ano, quando falou pela primeira vez com a Folha, Ghada estava magra e doente. Hoje há comida na mesa, as filhas voltaram à escola e ela acorda às seis da manhã para prepará-las para as aulas. Mas a guerra não terminou — apenas mudou de forma. Um cessar-fogo teórico, mediado pelos Estados Unidos no segundo aniversário do conflito, permanece em impasse: Israel ocupa cerca de 60% do território e exige o desarmamento do Hamas antes de recuar; o Hamas diz que só entregará as armas após a retirada israelense. Ninguém sai do lugar.

No território vivem aproximadamente 2,1 milhões de palestinos, a maioria deslocada. Mais de 73 mil morreram desde outubro de 2023, quando o ataque do Hamas a Israel — que matou mais de 1.200 pessoas — desencadeou a resposta militar israelense em larga escala. A infraestrutura foi destruída: 95,5% das escolas foram danificadas ou demolidas, e cerca de 200 mil crianças ainda não têm acesso a qualquer forma de educação.

A vida cotidiana melhorou em aparência, mas os custos são proibitivos. Uma garrafa de água de 1,5 litro custa dois dólares. Eletricidade informal sai a cem dólares por semana — Ghada paga porque quer que as filhas possam acender a luz à noite e sentir que existe algo parecido com normalidade. O Ocha estima que 94% da população precise de assistência para abrigo e itens básicos.

O Hamas perdeu apoio: sua aprovação caiu para 24%. Mas 72% dos palestinos ainda se opõem ao desarmamento do grupo, temendo que isso resulte em nova guerra. Ghada não defende nem o Hamas nem a Autoridade Palestina. Quer novas lideranças, novos rostos. E, enquanto eles não aparecem, quer ao menos garantir às filhas um futuro fora de Gaza.

Três anos. É o tempo que Ghada Al-Kurd diz ter suportado o suficiente. A jornalista palestina, que trabalha para agências e veículos internacionais, decidiu que não pode mais esperar por mudanças em Gaza. Quer sair do território com suas duas filhas — Fatima e Mari, de 12 e 14 anos — em busca de um futuro que não seja marcado por ataques aéreos noturnos e o medo constante que paralisa suas filhas quando elas ouvem aviões.

Há um ano, quando conversou com a Folha pela primeira vez, Ghada estava magra, doente e com fome. Naquela época, ela contava que agradecia a Deus porque sua mãe havia morrido antes de testemunhar a morte de seus filhos no conflito entre Israel e o Hamas. O cenário mudou em alguns aspectos — agora há comida suficiente nas mesas — mas a guerra não terminou, apenas se transformou em algo que parece ainda mais insuportável pela sua indefinição. Um cessar-fogo teórico, anunciado no segundo aniversário do conflito e mediado pelos Estados Unidos, permanece travado em um impasse que ninguém consegue resolver. Israel mantém a ocupação de aproximadamente 60% do território e diz estar aguardando o desarmamento do Hamas para prosseguir com o acordo. O grupo, por sua vez, afirma que só entregará as armas após a retirada israelense. Enquanto isso, ninguém sai do lugar.

No chão, entre os escombros deixados por milhares de ataques aéreos, vivem cerca de 2,1 milhões de palestinos. A maioria permanece deslocada. Segundo o Ocha, o escritório de assuntos humanitários da ONU, os ataques aéreos e as hostilidades contínuas seguem causando mortes entre civis e destruindo infraestrutura. Ghada descreve a semana anterior como um exemplo do que virou rotina: um ataque aéreo em frente ao seu prédio, à noite, e suas filhas gritando de medo. Ela não suporta mais isso.

Houve uma melhora relativa na vida cotidiana. As filhas voltaram à escola — algo que as preocupava profundamente há um ano, quando todas as crianças em idade escolar estavam sem acesso a aulas. Segundo dados do Unicef, até o fim de 2025, os ataques de Tel Aviv haviam destruído ou danificado 95,5% das 815 unidades de ensino no território. Agora, 565 mil crianças estão matriculadas em espaços de aprendizagem apoiados pela ONU e por iniciativas independentes, embora cerca de 200 mil crianças ainda não tenham acesso a qualquer forma de educação. A rotina de Ghada inclui acordar às 6 da manhã, preparar comida, arrumar as filhas para a aula e, quando elas retornam, ajudá-las com as lições de casa. Mas Fatima e Mari não gostam de sair na rua. Têm medo de um ataque aéreo repentino. Na maioria dos dias, Ghada só sai porque precisa trabalhar.

A disponibilidade de comida melhorou, mas o acesso a ela permanece difícil e caro. O Ocha estima que 94% da população necessite de assistência para abrigo e itens não alimentares. Água potável é um luxo. Uma garrafa de 1,5 litro custa dois dólares — cerca de onze reais. Ghada precisa comprar água. Também precisa comprar eletricidade de forma informal, a um custo de aproximadamente cem dólares por semana — cerca de 550 reais. Ela justifica: precisa de luz no apartamento para as meninas estudarem. Quando elas acordam à noite, podem acender a luz e sentir que existe uma vida normal. O Ocha calcula que 74% dos palestinos dependam da água potável transportada pelos caminhões de ajuda humanitária.

Desde outubro de 2023, quando o Hamas e outros grupos palestinos atacaram Israel, matando mais de 1.200 pessoas — o maior ataque da história do Estado judeu — a resposta israelense em larga escala reduziu Gaza a ruínas. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 73 mil pessoas morreram, a maioria civis. Os órgãos governamentais tiveram seu funcionamento interrompido ou dificultado tanto pelos ataques diretos quanto pelo enfraquecimento do Hamas, que exerce o governo de fato no território desde 2007. A Autoridade Nacional Palestina, que governa partes da Cisjordânia, não tem função oficial em Gaza há quase 20 anos.

O Hamas perdeu apoio público substancial neste ano, segundo o Centro Palestino de Pesquisa Política e de Opinião Pública. Seu índice de aprovação caiu para 24%, ante 35% dez meses antes. Cresceu a preferência por negociação em vez de luta armada. Ao mesmo tempo, porém, 72% dos palestinos ainda se opõem ao desarmamento do grupo, acreditando que isso levaria a uma nova guerra em vez de à retirada israelense. Ghada, que viveu sob a Autoridade Palestina e sob o governo do Hamas em Gaza, não prefere nenhum dos dois. Ela quer novos rostos, novas figuras públicas, pessoas que possam trazer um futuro melhor para os palestinos.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, mantém seu discurso de que não haverá mais Hamas em Gaza e que suas tropas seguirão em operação até que o grupo deixe de existir. O presidente dos EUA, Donald Trump, que se vangloriou pela obtenção do acordo há um ano, deu múltiplas declarações sugerindo um avanço simultâneo entre o desarmamento da facção e a retirada israelense. Ambos os lados não parecem concordar. Para Ghada, não há mais espaço para esperar por isso. Ela está tentando encontrar uma maneira de sair de Gaza porque não quer mais continuar ali por muito tempo com suas filhas. Quer procurar um futuro melhor para elas.

Já se passaram três anos, acho que prefiro ir embora. Não vou continuar esperando por muito tempo simplesmente na esperança de que tudo possa melhorar.
— Ghada Al-Kurd, jornalista palestina em Gaza
Precisamos de novos rostos, de novas figuras públicas, de pessoas que realmente possam trazer um futuro melhor para os palestinos.
— Ghada Al-Kurd
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