Jorge Furtado retorna à comédia misturando vida e ficção no cinema

É uma aeróbica para a alma
Furtado descreve como personagens que fazem coisas horríveis funcionam como catarse para o espectador.
Mark

Por que voltar à comédia agora, depois de anos explorando drama e documentário?

Mimi

Acho que nunca realmente saí. O que mudou é que agora tenho ferramentas diferentes para pensar sobre como as pessoas vivem. A comédia permite que você diga coisas que o drama não consegue.

Mark

E por que escolher um motel como cenário para falar sobre tecnologia e sexualidade?

Mimi

Motéis já são lugares onde as pessoas vivem fantasias, onde a realidade é negociada. Adicione câmeras e algoritmos, e você tem um laboratório perfeito para entender como nos relacionamos com nossos desejos na era digital.

Mark

Você mencionou que 30% do fluxo digital é pornografia. Isso não torna o filme um pouco... óbvio?

Mimi

Não é sobre a pornografia em si. É sobre como a internet tenta catalogar o prazer, como tenta vender de volta para nós aquilo que somos. A criatividade humana não cabe em algoritmos. Isso é engraçado e assustador ao mesmo tempo.

Mark

Por que mostrar tão pouco, então? Por que não abraçar a explicitação?

Mimi

Porque sexo não é engraçado. Erotismo não é engraçado. Se você mostra tudo, perde a comédia. O que interessa é o rosto de quem está espiadando, a negociação, a mentira que sustenta tudo aquilo.

Mark

Você passou décadas usando a comédia para falar sobre o Brasil profundo. Isso ainda funciona?

Mimi

Funciona diferente. As comédias brasileiras não viajam bem para fora porque o humor é muito local, muito enraizado. Mas aqui dentro, elas seguem sendo a forma mais honesta de dizer a verdade. É terapia pública.

Mark

E o que mudou em você como cineasta nesse tempo todo?

Mimi

Aprendi que histórias podem ensinar três coisas: algo sobre você, algo sobre os outros, e algo sobre a linguagem. Estou sempre buscando novas formas de pensar a linguagem e de refletir sentimentos. Isso é tudo que importa.

  • Um motel falido, dívidas acumuladas e a tentação de monetizar a intimidade alheia criam o gatilho moral que move toda a trama de 'Muito Prazer'.
  • A gravação clandestina de casais evolui para uma operação sofisticada com roteiros e inteligência artificial, ampliando o alcance — e o risco — da contravenção original.
  • Furtado tensiona a comédia ao recusar o explícito: o humor nasce do olhar de quem espia, não do que é espionado, deslocando o desconforto para o espectador.
  • O filme reacende o debate sobre a exportação da comédia brasileira, gênero que domina as bilheterias nacionais mas raramente atravessa fronteiras ou chega a festivais internacionais.
  • Após anos entre dramas, documentários e séries históricas, o diretor declara seu retorno ao gênero como um ato consciente: 'O humor é uma terapia pública.'

Há décadas, Jorge Furtado encontrou na comédia um instrumento capaz de revelar o que o drama muitas vezes encobre. Com 'Muito Prazer', ele retorna a esse território — um motel abandonado, vídeos íntimos gravados sem consentimento e algoritmos que organizam o desejo humano — para interrogar, com leveza deliberada, as fraturas éticas e tecnológicas da sociedade brasileira contemporânea. O filme chega aos cinemas como um lembrete de que o riso, quando bem calibrado, é também uma forma de denúncia e de cura coletiva.

Jorge Furtado nunca abandonou o hábito de observar as contradições brasileiras, mas escolheu, desta vez, fazê-lo pelo caminho do riso. 'Muito Prazer', que estreia nesta quinta-feira, é seu retorno deliberado à comédia — o mesmo gênero que, décadas atrás, transformou 'Ilha das Flores' numa aula sobre fome e desigualdade disfarçada de esquete irônico.

No novo filme, Daniel de Oliveira interpreta um motorista de aplicativo que herda um motel abandonado e encontra Luisa Arraes morando no local. Sem recursos para recuperar o negócio, os dois passam a publicar na internet gravações íntimas dos hóspedes, sem consentimento. O que começa como uma transgressão improvisada cresce até se tornar uma operação com filmagens roteirizadas e inteligência artificial para ocultar identidades. Furtado partiu de uma provocação simples: e se as paixões humanas colidissem de frente com os algoritmos que organizam o desejo digital?

O diretor optou por não mostrar o sexo em si. A câmera prefere os rostos de quem espia — e é nesse deslocamento que mora o humor. 'Sexo não é engraçado. Esta é uma comédia romântica', explica. A escolha ecoa uma marca antiga de seu cinema: sugerir mais do que exibir, deixar que a imaginação do espectador complete o quadro.

A trajetória de Furtado é longa e variada — de 'Saneamento Básico' a 'O Homem que Copiava', de séries televisivas a documentários sobre mídia e política. Nos últimos anos, afastou-se da comédia para explorar dramas como 'Real Beleza' e 'Virgínia e Adelaide'. Agora, ao retornar, ele defende o gênero com convicção: comédias raramente aparecem em festivais, mas dominam as bilheterias e cumprem uma função que o drama não consegue replicar. 'O humor sempre é político', diz. 'Ele denuncia hipocrisias de outro modo e leva o cérebro a lugares inimagináveis. É uma terapia pública.'

Jorge Furtado nunca deixou de olhar para as fraturas da sociedade brasileira, mas agora ele está voltando a fazer isso através da comédia. Seu novo filme, "Muito Prazer", que chega aos cinemas nesta quinta-feira, marca um retorno deliberado ao gênero que o tornou conhecido — aquele espaço onde a leveza da brincadeira consegue carregar o peso de questões incômodas.

Muitos brasileiros lembram de ter assistido "Ilha das Flores" na escola. O curta de poucos minutos usa arquivos, esquetes, colagens e uma narração seca para falar sobre a pobreza numa ilha do delta de Porto Alegre, transformando temas como fome e desigualdade em algo que parecia uma piada, mas não era. Décadas depois, Furtado continuou nessa trilha. Em "Saneamento Básico", com Fernanda Torres e Wagner Moura, moradores de uma cidade gaúcha decidem rodar um filme sobre um monstro nascido do lixo acumulado. A estrutura era sempre a mesma: personagens fazendo vídeos, refletindo sobre o Brasil enquanto a câmera observava.

Em "Muito Prazer", os vídeos ganham uma dimensão diferente. Um motorista de aplicativo, interpretado por Daniel de Oliveira, herda um motel abandonado e encontra uma funcionária, papel de Luisa Arraes, morando no local. Sem dinheiro para restaurar o lugar e cheios de dívidas, eles fecham uma parceria: começam a publicar na internet gravações de sexo dos casais que ocupam as suítes, sem consentimento. O que começa como uma contravenção despretensiosa evolui para uma rede de produção mais sofisticada, com filmagens roteirizadas e inteligência artificial para esconder identidades.

Furtado teve a ideia ao pensar em como colocar paixões humanas e algoritmos do mundo virtual em rota de colisão. "A pornografia sempre seguiu tecnologias", explica. Ele cita números: calcula-se que 30% do fluxo digital diz respeito a pornografia, e sites tentam oferecer um cardápio do que nos excita. "Isso tem um potencial cômico enorme." Mas o filme não é explícito. Furtado prioriza as expressões dos que espiam um mundo íntimo via telas, em vez da intimidade sobre a cama. "Sexo não é engraçado. Erotismo não é engraçado. Esta é uma comédia romântica", diz ele, justificando a escolha de mostrar pouco numa época em que se discute um suposto desinteresse dos jovens por sexo.

Essa capacidade de sugerir mais do que mostrar sempre interessou Furtado. Seu primeiro curta, "Temporal", inspirado num conto de Luis Fernando Verissimo, acompanhava o choque entre idosos religiosos e jovens que queriam apenas beber e transar. Cores fortes e cenários teatrais sugeriam perversão. Em 1986, "O Dia em que Dorival Encarou a Guarda" espelhava cicatrizes da ditadura militar numa conversa entre um prisioneiro e seus vigias, intercalando planos fechados de violência com cenas de outros filmes. Ao longo dos anos, Furtado se especializou em unir ficção e realidade, e seu prestígio ajudou a fundar a Casa de Cinema de Porto Alegre, que em 2027 completará quatro décadas como polo do cinema gaúcho independente.

A televisão o levou a séries como "Agosto", adaptação do livro sobre o suicídio de Getúlio Vargas, e "A Comédia da Vida Privada". Com Guel Arraes, escreveu "A Invenção do Brasil", sátira ao descobrimento, e depois trabalhariam juntos em "O Auto da Compadecida" e "O Debate". Nos longas, Furtado explorou a necessidade financeira como motor narrativo: em "O Homem que Copiava", um jovem Lázaro Ramos imprime dinheiro falso para conquistar a garota dos sonhos. Em "Meu Tio Matou um Cara", adaptado de seus próprios contos, um homem confessa um assassinato e seu sobrinho abre uma investigação que coloca em choque a opinião pública.

Nos últimos anos, Furtado se afastou da comédia. Dirigiu "O Mercado de Notícias", que une encenações e entrevistas para pensar a influência das informações. Em 2015, aventurou-se no drama com "Real Beleza", explorando como o olhar humano transforma rostos em imagens. "Rasga Coração" trouxe a política de volta, com um militante ouvindo do filho que ele é apenas um conservador reacionário. Em 2024, dirigiu com Yasmin Thayná "Virgínia e Adelaide", sobre a primeira psicanalista negra da América Latina e uma grande médica judia debatendo a moral humana.

Agora, Furtado parece feliz em voltar aos personagens que arrancam risadas com decisões duvidosas. "Eles precisam fazer coisas horríveis para que não tenhamos de fazê-lo. É uma aeróbica para a alma", diz sobre os administradores do motel. Sobre o sucesso recente de produções nacionais dramáticas no exterior, como "Ainda Estou Aqui", ele observa que a brasilidade das piadas dificulta a exportação das comédias, que seguem entre as principais bilheterias do país. "Comédias não costumam aparecer em prêmios e festivais. Seu principal objetivo é o riso. O humor sempre é político, mas ele denuncia hipocrisias de outro modo e leva o cérebro a lugares inimagináveis. É uma terapia pública."

A pornografia sempre seguiu tecnologias. Calcula-se que 30% do fluxo digital diz respeito à pornografia. Hoje, sites tentam oferecer um cardápio do que nos excita. Isso tem um potencial cômico enorme.
— Jorge Furtado
Comédias não costumam aparecer em prêmios e festivais. Seu principal objetivo é o riso. O humor sempre é político, mas ele denuncia hipocrisias de outro modo e leva o cérebro a lugares inimagináveis. É uma terapia pública.
— Jorge Furtado
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