Doze empresas investiram R$ 142,5 milhões no Estadão através de debêntures com prazos de até 2044, operação nunca divulgada aos assinantes do jornal. Os financiadores passaram a ocupar espaço no conselho de administração e processo decisório, exigindo saída da família Mesquita da vaga de CEO.
Itaú, Bradesco e Santander investem R$ 142,5 mi em debêntures do Estadão
Investidores ganharam poder sobre decisões editoriais e administrativas
Por que bancos colocariam R$ 140 milhões em um jornal que perde dinheiro todo ano?
Porque acreditam que São Paulo precisa de um jornal forte além da Folha. Não é investimento financeiro tradicional — é aposta política e de influência.
Mas qual é a garantia de retorno? Esses empréstimos só começam a ser pagos em 2034, e o jornal está com R$ 159 milhões de dívida acumulada.
Então os bancos estão basicamente financiando o jornal indefinidamente?
Até certo ponto, sim. Mas em troca, ganharam assentos no conselho de administração e poder sobre decisões editoriais. Não é dinheiro — é controle.
Espera. Eles exigiram a saída da família Mesquita do cargo de CEO? Isso é interferência direta na linha editorial.
E ninguém soube disso? O Estadão nunca contou aos leitores quem financia o jornal?
Anunciou a emissão de debêntures em 2024, mas nunca revelou os nomes dos investidores. Os documentos só vieram à tona agora.
Há um conflito óbvio aqui. Se Itaú, Bradesco e Santander têm poder sobre o jornal, como o Estadão cobre essas instituições?
E a Cosan? Rubens Ometto colocou R$ 15 milhões e um ano depois entrou em recuperação judicial.
Exato. Parte da Cosan foi comprada por André Esteves, do BTG, que agora tem influência indireta sobre o jornal através de ex-sócios no conselho.
Então o que começou como salvação financeira virou uma rede de influência corporativa sobre um veículo de imprensa.
Der Puls
- Doze empresas investiram R$ 142,5 milhões em debêntures do Estadão com prazos até 2044
- Itaú, Bradesco e Santander cada um investiu R$ 15 milhões na primeira rodada
- Jornal acumula dívida de R$ 159 milhões e registrou déficit de R$ 16,8 milhões em 2025
- Investidores exigiram saída da família Mesquita do cargo de CEO e participação no conselho de administração
- Operação nunca foi divulgada aos assinantes do jornal
Doze empresas investiram R$ 142,5 milhões no Estadão através de debêntures com prazos de até 2044, operação nunca divulgada aos assinantes do jornal. Os financiadores passaram a ocupar espaço no conselho de administração e processo decisório, exigindo saída da família Mesquita da vaga de CEO.
Itaú, Bradesco, Santander e nove empresários aportaram R$ 142,5 milhões em debêntures no Estadão, ganhando poder decisório no jornal que acumula prejuízos há cinco anos.
Doze empresas — três grandes bancos e nove grupos empresariais — injetaram R$ 142,5 milhões no Estadão através de debêntures, títulos de dívida de longo prazo que o jornal não precisará começar a pagar antes de 2034, com possibilidade de prorrogação até 2044. A operação foi anunciada pelo próprio jornal em 2024, mas nunca foi explicada aos seus assinantes. Documentos obtidos pelo Metrópoles revelam não apenas quem são esses financiadores, mas também o que ganharam em troca: poder direto sobre as decisões editoriais e administrativas de um dos principais jornais do país.
O Estadão enfrenta uma crise financeira crônica. A empresa acumula dívida de R$ 159 milhões e registra prejuízos ano após ano. Em 2025, o déficit chegou a R$ 16,8 milhões. Para bancos — instituições que não distribuem recursos sem expectativa de retorno — a decisão de colocar R$ 140 milhões em um jornal sem lucro há cinco anos exigiu uma lógica diferente da simples rentabilidade. Os investidores se convenceram de que São Paulo, o maior estado do país, precisava de mais um jornal além da Folha de S.Paulo, um veículo com capacidade de influenciar o debate político e econômico.
A operação foi capitaneada por Rubens Ometto, dono da Cosan, que pessoalmente aportou R$ 15 milhões. A primeira rodada de financiamento, no valor de R$ 45 milhões, foi estruturada através da Trustee DTVM — a mesma empresa investigada nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto — como agente fiduciária. Itaú, Bradesco e Santander cada um investiu R$ 15 milhões nessa fase. A segunda rodada captou R$ 97,5 milhões através do Província Fundo de Investimento e da Cutrale, com participação de Cosan (R$ 15 milhões), Hapvida (R$ 15 milhões), Votorantim (R$ 15 milhões), Ultra (R$ 7,5 milhões), Unipar (R$ 7,5 milhões), Pátria Investimentos (R$ 7,5 milhões), JHSF (R$ 7,5 milhões), Galápagos Capital (R$ 7,5 milhões) e Santalice Administração Ltda., a holding da Cutrale (R$ 15 milhões). Suzano e Safra também investiram, mas através de publicidade.
O que distingue esse aporte de um simples patrocínio é que não se trata de uma empresa comprando anúncios para divulgar sua marca. Os bancos e empresas colocaram dinheiro no Estadão numa tentativa de salvá-lo da crise. E desde que o dinheiro entrou, os financiadores passaram a ocupar espaço no processo decisório do jornal — desde questões de conteúdo até decisões administrativas. Foi exigência dos investidores, por exemplo, a saída da família Mesquita da posição de CEO, cargo responsável pela linha editorial do jornal, e a participação no conselho de administração.
Após o aporte, um representante dos investidores ingressou formalmente no conselho de administração do Estadão. Marcos Bologna, sócio e CEO da Galápagos — a gestora do fundo que investiu R$ 7,5 milhões — agora senta à mesa de decisões do jornal ao lado de Carlos Fonseca, ex-sócio de André Esteves no BTG. A ironia da história: um ano depois de financiar o Estadão, a Cosan de Rubens Ometto entrou em recuperação judicial, e parte da empresa foi comprada por André Esteves, o mesmo dono do BTG que agora tem influência sobre o jornal através de seus ex-sócios.
A família Moreira Salles, que investe através do Itaú, também é proprietária da revista Piauí, expandindo sua presença no setor de mídia. Quando procurado, o Estadão recusou-se a responder questionamentos sobre seus investidores. O jornal agora depende desses financiadores para sua sobrevivência — uma dependência que transformou empresas e bancos em sócios silenciosos de suas operações editoriais.
Bemerkenswerte Zitate
Os investidores se convenceram de que o maior estado do país precisaria ter mais um jornal do que apenas a Folha de S.Paulo, com poder de influenciar o debate político e econômico— Metrópoles, apuração sobre motivações dos financiadores