Enquanto diplomatas israelenses e libaneses se reuniam em Washington para o primeiro diálogo direto em mais de trinta anos, os bombardeios não cessavam nem por um instante — Israel atacava o sul do Líbano e o Hezbollah disparava foguetes contra o norte israelense no mesmo dia em que a paz era negociada. É uma das contradições mais antigas da história humana: a mesa da diplomacia e o campo de batalha existindo em paralelo, cada um desafiando a legitimidade do outro. Com mais de dois mil mortos e um milhão de deslocados desde abril, o custo de cada hora sem acordo se torna cada vez mais irrevers
Israel e Hezbollah intensificam ataques enquanto negociações de paz avançam em Washington
Negociar com uma mão vazia enquanto as armas não cessam
Como negociações de paz podem avançar quando os ataques continuam acontecendo no mesmo dia?
Porque para ambos os lados, as negociações são uma forma de estabelecer termos antes de qualquer cessar-fogo real. Ninguém quer parecer fraco ao chegar à mesa.
Mas o Hezbollah nem estava lá. Como você negocia com alguém que se recusa a participar?
Exatamente. O Líbano estava representado, mas o grupo que realmente controla a situação no sul rejeitou tudo. É negociar com uma mão vazia.
E esses dois carros atingidos — por que Israel atacaria civis se está tentando fazer paz?
A agência libanesa diz que não eram redutos do Hezbollah. Mas a questão é: quem decide o que é alvo legítimo? Israel diz que está operando contra o grupo. O Líbano diz que está atingindo pessoas comuns.
Por que o embaixador israelense atacou a França assim, do nada?
Porque a França tem influência histórica no Líbano e pode tentar moldar qualquer acordo. Israel quer controlar as negociações. É também uma forma de dizer: isso é entre nós, não entre nós e a Europa.
Esse acordo de novembro de 2024 sobre desarmamento — por que nunca saiu do papel?
Porque o Hezbollah nunca aceitou. E sem o Hezbollah à mesa, ninguém pode forçar nada. É por isso que as negociações agora são tão frágeis.
The Pulse
- Israel e Hezbollah trocaram ataques simultâneos enquanto seus respectivos diplomatas discutiam paz em Washington — a guerra e a negociação ocorreram literalmente ao mesmo tempo.
- Desde 8 de abril, os bombardeios israelenses no Líbano já deixaram 2.124 mortos e mais de um milhão de pessoas sem lar, com novos alertas de evacuação emitidos durante as próprias negociações.
- O Hezbollah recusou-se a participar das discussões e continuou operando militarmente, tornando qualquer acordo frágil desde o início, pois o principal ator armado não reconhece a mesa.
- Os Estados Unidos mediaram o encontro histórico e reafirmaram o direito israelense de defesa, enquanto rejeitaram o pedido iraniano de estender o cessar-fogo bilateral ao território libanês.
- Em meio às tensões, o embaixador israelense atacou publicamente a França, declarando que Israel não queria a presença francesa nas negociações — um sinal de que as divisões entre aliados ocidentais também rondam o processo.
Enquanto diplomatas israelenses e libaneses se reuniam em Washington para o primeiro diálogo direto em mais de trinta anos, os bombardeios não cessavam nem por um instante — Israel atacava o sul do Líbano e o Hezbollah disparava foguetes contra o norte israelense no mesmo dia em que a paz era negociada. É uma das contradições mais antigas da história humana: a mesa da diplomacia e o campo de batalha existindo em paralelo, cada um desafiando a legitimidade do outro. Com mais de dois mil mortos e um milhão de deslocados desde abril, o custo de cada hora sem acordo se torna cada vez mais irreversível.
Na quarta-feira, enquanto diplomatas israelenses e libaneses se encontravam em Washington para a primeira rodada de negociações diretas em mais de três décadas, os céus do Líbano e do norte de Israel enchiam-se de fumaça. Israel bombardeou veículos em estradas próximas a Beirute, em regiões que as autoridades libanesas afirmam não abrigar redutos do Hezbollah. Quase ao mesmo tempo, o grupo xiita disparou cerca de trinta foguetes contra dez localidades israelenses próximas à fronteira. A contradição era brutal: enquanto negociadores falavam de paz, as armas não paravam.
O padrão de escalada vinha de semanas. Desde 8 de abril, os bombardeios israelenses deixaram mais de 2.124 mortos e deslocaram mais de um milhão de pessoas no Líbano. O conflito regional havia começado em março, quando o Hezbollah atacou Israel em retaliação a bombardeios contra o Irã. Nesta mesma quarta-feira, o porta-voz militar israelense coronel Avichay Adraee pediu em árabe que civis do sul do Líbano se deslocassem para além do rio Zahrani, a dezenas de quilômetros da fronteira.
Em Washington, o encontro havia sido apresentado como histórico. O secretário de Estado Marco Rubio indicou que o objetivo era construir um marco para uma paz duradoura. O embaixador israelense Yechiel Leiter afirmou que ambos os lados estavam unidos na vontade de libertar o Líbano do Hezbollah. A embaixadora libanesa Nada Hamadeh Moawad adotou tom mais cauteloso, pedindo a aplicação do acordo de novembro de 2024 — que previa o desarmamento do Hezbollah, mas nunca foi concretizado.
O Hezbollah, porém, não estava à mesa e continuou atacando Israel ao longo do dia. Os Estados Unidos reafirmaram o direito israelense de defesa e rejeitaram o pedido iraniano de estender o cessar-fogo bilateral ao sul do Líbano. Na coletiva final, Leiter ainda surpreendeu ao criticar abertamente a França, declarando que Israel não queria a presença francesa nas negociações — um recado que revelou, em meio à confusão de sinais, que as divisões não se limitam ao campo de batalha.
Na quarta-feira, enquanto diplomatas israelenses e libaneses se encontravam em Washington para a primeira rodada de negociações diretas em mais de três décadas, os céus acima do Líbano e do norte de Israel enchiam-se de fumaça. Israel lançou novos bombardeios contra o sul do país — dois ataques que atingiram veículos nas estradas próximas a Beirute, em Jiyeh e Saadiyat, regiões que segundo a agência oficial libanesa não abrigam redutos do Hezbollah. Quase simultaneamente, o grupo xiita disparou cerca de trinta foguetes em direção ao norte israelense, reivindicando ataques contra dez localidades próximas à fronteira. A contradição era brutal: enquanto negociadores falavam de paz duradoura, as armas não cessavam.
O padrão de escalada vinha de semanas antes. Desde 8 de abril, os bombardeios israelenses no sul do Líbano haviam deixado mais de 2.124 mortos e deslocado mais de um milhão de pessoas. O conflito regional havia começado em 2 de março, quando o Hezbollah disparou foguetes contra Israel em retaliação aos bombardeios israelenses contra o Irã. Mas nesta quarta-feira, Israel emitiu novo alerta para que civis abandonassem suas casas no sul. O coronel Avichay Adraee, porta-voz das Forças Armadas israelenses, declarou em árabe que ataques aéreos contra o Hezbollah estavam em andamento e que o exército operava com intensidade na região. Pediu que os moradores se deslocassem para o norte do rio Zahrani, a dezenas de quilômetros da fronteira.
Em Washington, o encontro da terça-feira havia sido apresentado como histórico. Israel e Líbano aceitaram iniciar um ciclo de negociações diretas com o objetivo de estabelecer uma paz duradoura, conforme garantiu o Departamento de Estado americano. O secretário de Estado Marco Rubio indicou que o objetivo era definir um marco para essa construção. O embaixador israelense, Yechiel Leiter, afirmou que ambos os lados descobriram estar do mesmo lado, unidos na vontade de libertar o Líbano do Hezbollah. A embaixadora libanesa, Nada Hamadeh Moawad, adotou tom mais cauteloso, descrevendo o encontro como produtivo e solicitando a aplicação do acordo de novembro de 2024 — um tratado que previa o desarmamento do Hezbollah, nunca concretizado.
Mas o Hezbollah não estava à mesa. O grupo xiita rejeitou as discussões e continuou atacando Israel ao longo de todo o dia. Os Estados Unidos reafirmaram o direito israelense de se defender contra esses ataques. Teerã, por sua vez, pediu que o cessar-fogo de duas semanas em vigor entre Irã, Israel e Estados Unidos se estendesse também ao sul do Líbano — pedido que Washington rejeitou.
Na coletiva de imprensa ao final das negociações, o embaixador israelense Yechiel Leiter surpreendeu ao criticar duramente o papel da França. Rejeitou a participação francesa nas discussões, declarando em termos pouco diplomáticos que Israel não queria ver os franceses se intrometendo nessas negociações e que gostaria de mantê-los o mais longe possível de praticamente tudo, especialmente quando se tratava de negociações de paz. Era um recado claro em meio à confusão de sinais: enquanto alguns falavam de paz, outros reforçavam divisões.
Notable Quotes
Descobrimos que estamos do mesmo lado e unidos em nossa vontade de libertar o Líbano do Hezbollah— Embaixador israelense Yechiel Leiter
Não queremos ver os franceses se intrometendo nessas negociações. Gostaríamos de manter os franceses o mais longe possível de praticamente tudo— Embaixador israelense Yechiel Leiter