No coração do mercado editorial brasileiro, um livreiro chegou ao ponto de ruptura. Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias, denunciou publicamente que a cultura do desconto massivo está corroendo o ecossistema do livro — e passou da palavra ao gesto, suspendendo vendas na Amazon e recusando feiras universitárias. Sua posição levanta uma questão antiga sobre o preço da democratização: quando o acesso barato destrói a estrutura que torna o acesso possível, quem verdadeiramente ganha?
Indústria do livro está doente e descontos enganam leitores, diz Martins Fontes
O leitor está sendo enganado pela narrativa dos descontos
Por que Martins Fontes acha que os descontos são o problema central e não a solução?
Porque ele vê que descontos massivos criam uma ilusão de valor para o leitor, mas destroem a viabilidade econômica das livrarias independentes. Se todos descontam, ninguém ganha — só quem tem escala, como a Amazon.
Mas a pesquisa dele mostra que 79% dos consumidores da Festa da USP deixam de comprar antes. Isso prova que a feira prejudica as livrarias, ou apenas que as pessoas planejam suas compras?
É uma interpretação dele. A Edusp não concordou com essa leitura e não mudou o modelo.
Ele acha que cinco ou seis editoras grandes resolvem tudo. Isso é realista?
Ele acredita que se as maiores editoras saírem da Amazon e das feiras com descontos altos, o mercado inteiro muda. É uma aposta em efeito dominó.
Mas a Amazon já contatou Martins Fontes para conversar. Isso sugere que ela está disposta a negociar, ou apenas que quer mantê-lo na plataforma?
Provavelmente ambas as coisas. A Amazon não quer perder fornecedores importantes.
Qual é o risco de sua estratégia?
Se outras editoras não o acompanharem, ele fica isolado, perdendo vendas em dois canais importantes.
E se a Lei Cortez for aprovada enquanto ele está fora desses espaços? Ele teria feito sacrifício sem ganho.
Verdade. Ele está apostando que a mudança vem pela ação do mercado, não pela lei.
El Pulso
- Livrarias independentes como Martins Fontes, Megafauna e Travessa enfrentam diariamente clientes que exibem preços da Amazon no celular — uma pressão que, se correspondida, as levaria à falência.
- A Festa do Livro da USP, que em 2025 reuniu 50 mil leitores e vendeu 362 mil exemplares com descontos mínimos de 50%, tornou-se o símbolo central do conflito, gerando confronto direto entre Martins Fontes e representantes do evento.
- Uma pesquisa citada pelo livreiro indica que 79% dos consumidores da Festa da USP param de comprar livros antes do evento — sugerindo que as feiras não ampliam o mercado, mas apenas concentram e adiam o consumo.
- Martins Fontes agiu unilateralmente: suspendeu a venda de títulos da WMF Martins Fontes na Amazon e retirou sua livraria das feiras universitárias, apostando que gestos concretos valem mais do que aguardar a Lei Cortez no Congresso.
- Sua aposta é que cinco ou seis grandes editoras — Companhia das Letras, Record, HarperCollins, Sextante e Rocco — adotando postura semelhante seria suficiente para reequilibrar o setor sem necessidade de legislação.
No coração do mercado editorial brasileiro, um livreiro chegou ao ponto de ruptura. Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias, denunciou publicamente que a cultura do desconto massivo está corroendo o ecossistema do livro — e passou da palavra ao gesto, suspendendo vendas na Amazon e recusando feiras universitárias. Sua posição levanta uma questão antiga sobre o preço da democratização: quando o acesso barato destrói a estrutura que torna o acesso possível, quem verdadeiramente ganha?
Alexandre Martins Fontes, dono da Livraria Martins Fontes e presidente da Associação Nacional de Livrarias, declarou publicamente que a indústria do livro brasileira está doente — e que a enfermidade foi criada pelos próprios agentes do mercado. O diagnóstico é direto: a crença de que vender livros exige descontos massivos sobre o preço de capa está destruindo as livrarias físicas e, com elas, a diversidade bibliográfica do país.
Todos os dias, clientes chegam à sua livraria com o celular na mão apontando preços menores na Amazon. O problema, argumenta Martins Fontes, é que competir com esses valores seria suicídio para qualquer livraria independente. O colapso dessas livrarias prejudicaria também as editoras, aprofundando a crise de todo o setor. Para ele, o leitor está sendo enganado pela narrativa de que o desconto é necessário para estimular a leitura — quando, na verdade, o caminho correto seria construir um ecossistema com maiores tiragens e custos menores, sem sacrificar as margens de quem vende.
Cansado de esperar pela Lei Cortez — proposta que tramita no Congresso e estabeleceria um desconto máximo para lançamentos —, Martins Fontes tomou decisões concretas: suspendeu a venda de obras da WMF Martins Fontes na Amazon e retirou sua participação em feiras universitárias, especialmente da Festa do Livro da USP. Sua declaração de que o evento presta um desserviço à cultura brasileira gerou controvérsia aberta em um encontro recente da associação. A Edusp, organizadora da feira, respondeu reiterando disposição ao diálogo, mas sem anunciar mudanças no modelo de descontos.
Martins Fontes apresenta dados que sustentam sua posição: 79% dos consumidores da Festa da USP deixam de comprar livros antes do evento acontecer. Com feiras universitárias ocorrendo o ano inteiro em instituições como Unesp, PUC e UFMG, ele questiona por que alguém compraria em uma livraria podendo esperar pela próxima promoção. Sua luta, esclarece, não é contra a democratização do livro, mas por um ecossistema que remunere toda a cadeia — autores, gráficas, distribuidoras e livreiros. Sua convicção é que, se cinco ou seis grandes editoras brasileiras adotassem medidas similares às suas, o problema se resolveria sem que a Lei Cortez precisasse existir.
Alexandre Martins Fontes chegou a um limite. Presidente da Associação Nacional de Livrarias há dois anos e figura influente entre os donos de livrarias brasileiras, ele declarou publicamente que a indústria do livro no país está doente — e que ele próprio deixou de alimentar os sintomas dessa enfermidade. A doença, em sua avaliação, foi criada pelos próprios atores do mercado: a crença de que vender livros exige oferecer descontos massivos sobre o preço de capa.
Todos os dias, clientes entram na Livraria Martins Fontes com o celular na mão reclamando que encontram títulos mais baratos na Amazon. O problema é que se as grandes livrarias independentes — Megafauna, Travessa, Martins Fontes — tentassem competir com esses preços, fechariam as portas. E o colapso das livrarias físicas levaria consigo a diversidade bibliográfica e prejudicaria ainda mais as editoras, aprofundando a crise do setor.
Para Martins Fontes, a solução passa por vontade política da indústria em estabelecer regras para si mesma, com normas mais rígidas de precificação. As editoras, na sua visão, são o ator principal nessa transformação. O leitor, afirma, está sendo enganado pela narrativa de que descontos são necessários para estimular a compra. O caminho correto seria criar um ecossistema que permitisse maiores tiragens e, consequentemente, custos menores — sem sacrificar as margens de quem vende.
Cansado de esperar pela aprovação da Lei Cortez, a chamada lei do preço fixo que tramita no Congresso e estabeleceria um desconto máximo para lançamentos, Martins Fontes tomou duas decisões concretas. Suspendeu a venda de obras da WMF Martins Fontes na Amazon. E retirou sua participação em feiras universitárias, particularmente da Festa do Livro da Universidade de São Paulo, que em 2025 atraiu 50 mil leitores e vendeu 362 mil exemplares com descontos mínimos de 50%. Sua declaração de que a feira presta um desserviço à cultura brasileira gerou controvérsia em um encontro recente da Associação Nacional de Livrarias, com representantes da Festa da USP presentes no local.
A Edusp, organizadora do evento, respondeu com uma nota reiterando disposição ao diálogo, mas deixando claro que não havia anúncio de mudança no modelo de descontos. Martins Fontes apresenta uma pesquisa mostrando que 79% dos consumidores da Festa da USP deixam de comprar livros antes do evento acontecer. Ele aponta que feiras universitárias ocorrem o ano inteiro em instituições como Unesp, PUC e UFMG — por que alguém compraria em uma livraria se pode esperar pela próxima feira?
Martins Fontes nega estar contra descontos para o público ou contra a democratização do livro. Sua luta, diz, é por um ecossistema que remunere toda a cadeia: autores, gráficas, livrarias, distribuidoras. Recebeu contatos da Amazon para conversar, mas sua convicção é que o problema se resolveria rapidamente se cinco ou seis grandes editoras brasileiras — ele cita Companhia das Letras, Record, HarperCollins, Sextante e Rocco — adotassem medidas similares às suas. Nesse cenário, a Lei Cortez nem seria necessária.
Citas Notables
Se a Megafauna, a Travessa, a Martins Fontes venderem livros com esse desconto, fecham as portas— Alexandre Martins Fontes
Estou lutando a favor de um ecossistema que remunere toda a cadeia, os autores, as gráficas, as livrarias, as distribuidoras— Alexandre Martins Fontes