Indústria de pneus enfrenta maior crise da história com invasão asiática, diz CEO da Bridgestone

Bridgestone demitiu aproximadamente 35% de seus funcionários da fábrica agrícola (cerca de 70 pessoas) no início de 2025 após seu fechamento.
O Brasil não pode virar um depósito de carcaças de pneus
Lafaiete Oliveira alerta sobre 500 mil toneladas de pneus importados mal destinados em onze anos.
Mark

Por que exatamente dois anos para uma investigação antidumping? Parece muito tempo quando as fábricas estão fechando agora.

Mimi

Porque é preciso analisar custos de produção em vários países, comparar subsídios, examinar práticas de dumping. Não é uma decisão rápida. Enquanto isso, o setor pede um aumento de tarifa temporário para ganhar tempo.

Mark

A Bridgestone investiu R$ 2 bilhões em modernização. Isso não deveria torná-la mais competitiva?

Mimi

Deveria, mas não contra produtos que chegam sem cumprir as mesmas normas ambientais ou que sofrem subsídios de energia. O investimento foi feito para competir em igualdade de condições, não para vencer uma concorrência desleal.

Mark

E as montadoras chinesas? Elas vão comprar pneus locais ou vão trazer tudo da China?

Mimi

Estão em processo de homologação com a Bridgestone, mas já trazem pneus da China e compram de concorrentes aprovados. É um mercado em disputa, e a Bridgestone quer entrar nele.

Mark

Se o governo não agir, o que acontece com os 4.300 funcionários?

Mimi

Alguns podem ser realocados para exportação. Mas se as fábricas de caminhões fecharem, não há para onde realocá-los. O risco de mais demissões é real e depende de decisões políticas que ainda não foram tomadas.

Mark

Isso é protecionismo ou defesa legítima?

Mimi

Oliveira diria que é defesa legítima. Ele não quer bloquear importações, quer condições iguais: fiscalização ambiental, combate ao contrabando, investigação de fraudes. Produtos que chegam ilegalmente ou sem cumprir normas não deveriam estar no mercado.

Mark

As tarifas americanas mudam tudo?

Mimi

Mudam o cálculo. A Bridgestone apostou em exportar para os EUA para compensar perdas no Brasil. Se as tarifas reduzirem essas encomendas, a empresa fica presa entre dois mercados em crise.

  • Em apenas dois anos, a fatia de pneus importados no segmento de caminhões saltou de 30% para 70%, deixando fábricas nacionais operando com ociosidade alarmante.
  • A Bridgestone fechou sua fábrica de pneus agrícolas em 2025 e demitiu cerca de 70 pessoas, enquanto ameaça de novos cortes paira sobre os 4.300 empregos diretos restantes.
  • Tarifas americanas impostas em julho ameaçam cortar exportações que serviam de válvula de escape para compensar as perdas no mercado interno brasileiro.
  • O setor pede ao governo aumento da tarifa de importação de 25% para 35% e investigações antidumping, mas os processos podem levar até dois anos — tempo que muitas fábricas talvez não tenham.
  • Sem resposta do governo, a Bridgestone sinaliza que pode abandonar o mercado de reposição e concentrar-se em exportações, aprofundando a dependência nacional de pneus estrangeiros.

Em meio a uma transformação silenciosa mas devastadora, a indústria brasileira de pneus vê décadas de produção nacional ameaçadas pela chegada massiva de produtos asiáticos que, em apenas dois anos, conquistaram 70% do mercado de caminhões. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de fábricas como a da Bridgestone — presente no Brasil desde 1940 — mas a autonomia estratégica de um país que depende de pneus para mover sua economia. A crise convida a uma reflexão mais ampla sobre os limites do livre comércio quando as condições de competição são estruturalmente desiguais.

A indústria brasileira de pneus atravessa sua maior crise em décadas. Em apenas dois anos, a participação de importados asiáticos no segmento de caminhões e ônibus saltou de 30% para 70%. No mercado de passeio, o avanço foi igualmente abrupto: de 30% para 65% da demanda total. O resultado é uma capacidade ociosa generalizada nas fábricas nacionais e um setor que se sente encurralado.

A Bridgestone, multinacional japonesa com raízes no Brasil desde 1940, é o rosto mais visível da crise. Com quatro plantas no país e 4.300 funcionários diretos, a empresa investiu R$ 2 bilhões em modernização nos últimos cinco anos — e ainda assim fechou sua fábrica de pneus agrícolas no início de 2025, demitindo cerca de 70 pessoas. Seu presidente no Brasil, Lafaiete Oliveira, não hesita em chamar o momento de crise histórica e alerta que novos fechamentos não estão descartados.

O problema vai além da concorrência convencional. Oliveira aponta assimetrias estruturais: enquanto fabricantes nacionais arcam com custos de logística reversa e conformidade ambiental, importadores menos escrupulosos entram no mercado sem os mesmos encargos. Dados do Ibama indicam que 500 mil toneladas de pneus importados não foram descartadas corretamente nos últimos onze anos — um passivo ambiental que o país ainda não sabe como cobrar.

O setor levou suas demandas ao governo. A Associação Nacional da Indústria de Pneus pede elevação da tarifa de importação de 25% para 35%, além de investigações antidumping, fiscalização ambiental mais rigorosa e controle do contrabando. O problema é o tempo: essas investigações podem levar até dois anos, e o mercado não espera.

Há ainda uma pressão vinda de fora. Tarifas impostas pelos Estados Unidos em julho ameaçam reduzir as exportações brasileiras, que haviam sido planejadas em 600 mil pneus por ano para o mercado americano. Se esse canal se fechar, a equação para manter empregos e fábricas em funcionamento fica ainda mais difícil.

A Bridgestone tenta se adaptar: busca homologação com montadoras chinesas como BYD e GWM que chegam ao Brasil, mas reconhece que, sem medidas protecionistas efetivas, pode concentrar-se em exportações e no mercado de equipamento original, deixando o segmento de reposição entregue às importações. O que está em jogo, no fim, é a capacidade do Brasil de manter uma cadeia produtiva estratégica — e os empregos que ela sustenta.

A indústria brasileira de pneus está vivendo seu momento mais crítico. Nos últimos cinco anos, produtos asiáticos invadiram o mercado nacional com tal força que reverteram completamente a dinâmica de competição. No segmento de pneus para caminhões, ônibus e máquinas agrícolas, o que era 30% de importação virou 70% em apenas dois anos. O mercado de pneus de passeio seguiu trajetória semelhante: importações saltaram de 30% para 65% da demanda total. Essa transformação abrupta deixou as fábricas brasileiras operando muito abaixo de sua capacidade.

Lafaiete Oliveira, presidente da Bridgestone no Brasil, não hesita em chamar o momento de crise histórica. A multinacional japonesa opera quatro plantas no país, a mais antiga delas em Santo André, fundada em 1940, que produz pneus de carga. A empresa emprega 4.300 pessoas diretamente e controla as marcas Firestone e Bandag. Nos últimos cinco anos, investiu R$ 2 bilhões em reorganização fabril, modernização e expansão de capacidade produtiva. Mas agora enfrenta ociosidade significativa em suas operações.

O impacto humano foi imediato. A fábrica de pneus agrícolas da Bridgestone foi fechada no início de 2025. Dos aproximadamente 200 funcionários que lá trabalhavam, parte foi realocada para a divisão de caminhões, que estava em expansão. Os demais foram demitidos. Além disso, a empresa perdeu cerca de 35% de sua participação no mercado local de reposição de pneus para caminhões e ônibus. Esses números refletem uma pressão que vai além da concorrência normal: trata-se de uma invasão de produtos com condições de negócio radicalmente diferentes.

Oliveira aponta um problema estrutural. Nos últimos onze anos, segundo dados do Ibama, 500 mil toneladas de pneus importados não foram destinadas corretamente no país. Há falta de fiscalização adequada, contrabando e fraudes. Enquanto a Bridgestone investe substancialmente em logística reversa e sustentabilidade, cumprindo compromissos ambientais, importadores menos escrupulosos entram no mercado sem os mesmos custos. O Brasil, alerta o executivo, não pode virar um depósito de carcaças de pneus.

A indústria procurou o governo pedindo medidas concretas. A Associação Nacional da Indústria de Pneus solicitou aumento da alíquota de importação de 25% para 35%, enquanto se discutem investigações antidumping mais profundas. Essas análises, porém, podem levar até dois anos. O setor também pede fiscalização ambiental mais rigorosa, licenças não automáticas para investigar fraudes e controle de contrabando. Não é apenas protecionismo, argumenta Oliveira: é buscar condições isonômicas de competição e preservar a segurança dos produtos.

Há também uma ameaça vinda de fora. Em julho, a Casa Branca aplicou tarifas que podem reduzir encomendas da matriz americana. A Bridgestone havia projetado vender 600 mil pneus por ano aos Estados Unidos, aproveitando a expansão de suas fábricas brasileiras para esse mercado. Embora tenha mantido acordos com a operação americana, o volume ficou um pouco menor que o esperado. Se as tarifas americanas aumentarem ainda mais, o risco de cancelamento de pedidos é real.

Oliveira deixa claro que a empresa não descarta demissões caso o governo federal não freie a entrada de produtos asiáticos. Manter todos os empregos, diz ele, depende muito dessas condições. Ao mesmo tempo, a Bridgestone está em processo de homologação com montadoras chinesas como BYD e GWM, que já chegam ao Brasil com pneus da China ou compram de concorrentes já aprovados. Se as medidas solicitadas não avançarem, a empresa sinalizou que pode focar ainda mais em exportação e no mercado de equipamento original, deixando o segmento de reposição para importações.

O que está em jogo é mais que lucros corporativos. Trata-se de manter uma cadeia produtiva estratégica funcionando no país. Se as fábricas de pneus de caminhões fecharem, o Brasil ficará extremamente dependente de um insumo essencial para sua economia. Esse é o cálculo que move a pressão do setor sobre o governo, enquanto o mercado aguarda decisões sobre tarifas e investigações antidumping que podem levar meses ou anos.

Nós estamos na maior crise do setor pneumático da história do Brasil. Se o mercado começa a diminuir de tal maneira que fecha as fábricas de pneus de caminhões, a gente vai ficar extremamente dependente de um insumo que é estratégico.
— Lafaiete Oliveira, presidente da Bridgestone no Brasil
Manter todos os empregos depende muito dessas condições, sem sombra de dúvida.
— Lafaiete Oliveira
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