Indústria brasileira estagna enquanto mundo avança

A indústria prospera quando vende o que tem, mas não consegue construir o que precisa
Reflexão sobre a dependência brasileira de commodities enquanto a indústria de transformação permanece estagnada.
Mark

Por que a indústria de transformação cresceu tão pouco enquanto a extrativa disparou? Não deveriam estar ligadas?

Mimi

Estão ligadas, mas de forma perversa. Quando as commodities prosperam, o dinheiro flui para fora, para o exterior, ou fica concentrado em poucos setores. A indústria de transformação não consegue competir por capital, por mão de obra qualificada, por atenção política.

Luke

Mas espera — o crescimento de 55,7% da extrativa desde 2002 é real? Isso inclui a queda de preços das commodities que aconteceu entre 2014 e 2016?

Mimi

Sim, inclui. E mesmo assim a extrativa saiu na frente. Isso mostra o tamanho do problema da transformação.

Mark

E esses estados que caíram — Ceará e Bahia — tentaram sair dessa armadilha?

Mimi

Tentaram. Investiram em polos industriais, em diversificação. Mas sem apoio macroeconômico, sem infraestrutura de verdade, sem acesso a mercados, não conseguem competir.

Luke

A queda de 14% do Brasil comparada aos 27% de crescimento mundial — essa mediana de 68 países inclui países ricos e pobres? Porque se for só países ricos, a comparação é injusta.

Mimi

Inclui os dois. Mas mesmo entre países em desenvolvimento, o Brasil fica para trás. A questão é que outros países conseguiram se integrar a cadeias globais. O Brasil não.

Mark

E agora? O acordo com a Europa resolve?

Mimi

É um passo. Mas sem reforma tributária, sem juros menores, sem infraestrutura, é como dar um mapa a quem está preso em uma sala.

Luke

Ninguém está dizendo que o Brasil não consegue fazer nada. Papel e celulose, petróleo — esses setores funcionam. Então por que não conseguem replicar isso em eletrônicos?

Mimi

Porque eletrônicos exigem ecossistema. Exigem fornecedores, talento, pesquisa. Exigem estar perto de onde as decisões são tomadas. Commodities você tira do chão.

  • O Brasil acumulou apenas 13,8% de crescimento industrial desde 2002, enquanto a indústria de transformação — aquela que realmente agrega valor — avançou míseros 10% no mesmo período.
  • Em eletrônicos e computadores, o contraste é alarmante: enquanto o mundo cresceu 51%, o Brasil encolheu 40%, sinalizando uma marcha em direção oposta à da economia global.
  • Estados como Pará e Goiás lideram o ranking nacional com expansões de 119% e 107%, mas esse desempenho se apoia quase exclusivamente em mineração e agronegócio — não em industrialização sofisticada.
  • Ceará e Bahia, que apostaram em diversificação industrial, registraram quedas de 8,6% e 7,4%, expondo a fragilidade das regiões que não contam com commodities como muleta.
  • Acordos como o recém-firmado com a União Europeia, a reforma tributária e o ajuste fiscal surgem como rotas de saída, mas a história recente sugere que reconhecer o caminho não garante percorrê-lo.

Há décadas, a indústria brasileira observa o mundo avançar enquanto permanece quase imóvel. Entre 2011 e 2026, o setor recuou 14% no Brasil enquanto a mediana global cresceu 27%, revelando não apenas uma diferença de ritmo, mas uma divergência de rumos: o país aprofunda sua dependência de commodities enquanto o mundo migra para setores de maior complexidade tecnológica. O diagnóstico é antigo, os remédios são conhecidos — acordos comerciais, reforma tributária, ajuste fiscal —, mas a distância entre saber o caminho e percorrê-lo continua sendo o maior obstáculo da economia brasileira.

A indústria brasileira carrega uma marca difícil de apagar: a incapacidade de acompanhar o ritmo do mundo. Desde janeiro de 2002, a atividade industrial cresceu apenas 13,8% — número que já seria modesto, mas que se torna revelador quando se separa a indústria extrativa, com alta de 55,7%, da indústria de transformação, que avançou apenas 10%. O Brasil prospera quando vende o que tem no subsolo, mas não consegue construir o que precisa nas fábricas.

O quadro piora quando o ponto de comparação é 2011. Nesse intervalo de quinze anos, o setor industrial recuou 13,3%. Pará e Goiás, os campeões nacionais de crescimento, devem seus números quase inteiramente à mineração e ao agronegócio. Ceará e Bahia, que tentaram diversificar com polos industriais tradicionais, registraram quedas de 8,6% e 7,4% — uma mensagem dura: sem commodities, a indústria brasileira não apenas estagna, ela recua.

O verdadeiro abismo aparece na comparação internacional. Dados da Organização para o Desenvolvimento Industrial da ONU mostram que, entre 2011 e julho de 2026, o Brasil registrou queda de 14% enquanto a mediana de 68 países apresentou alta de 27%. Em eletrônicos e computadores, a divergência é ainda mais brutal: alta de 51% no mundo, queda de 40% no Brasil. Os únicos setores em que o país supera a média global são papel e celulose e refino de petróleo — novamente, ligados à extração.

Os gargalos são conhecidos: infraestrutura precária, custos elevados e um protecionismo histórico que isola sem proteger. As saídas também existem — o acordo com a União Europeia, a reforma tributária e o ajuste fiscal que poderia baratear o crédito produtivo. Mas entre conhecer o caminho e percorrê-lo, a indústria brasileira segue, há décadas, esperando.

A indústria brasileira carrega consigo uma marca que parece indelével: a incapacidade de acompanhar o ritmo do mundo. Não é uma impressão. Os números, quando postos lado a lado, contam uma história de imobilismo que atravessa décadas e se aprofunda quando se olha para os últimos quinze anos.

Desde o início de 2002, a atividade industrial como um todo cresceu apenas 13,8%. Parece um número, até que se descobre o que estava acontecendo naquele período: a primeira década dos anos 2000 foi marcada por um ciclo econômico robusto, impulsionado pela demanda global por commodities. Mesmo assim, o crescimento acumulado é modesto. A indústria extrativa, aquela que tira do chão o que a natureza oferece, avançou 55,7% no mesmo período. A indústria de transformação — aquela que agrega valor, que processa, que fabrica — cresceu apenas 10%. A diferença não é um detalhe. É o retrato de uma economia que prospera quando vende o que tem, mas que não consegue construir o que precisa.

Quando se compara o desempenho com a média de 2011, o quadro piora. O setor recuou 13,3% nesse intervalo de quinze anos. Pará e Goiás, os dois estados que mais cresceram — com expansões de 119,2% e 107% respectivamente — devem esse desempenho quase inteiramente à mineração e ao agronegócio. Mesmo esses números, quando vistos sob a lente de 2011, caem para 18,7% e 27%, bem mais modestos. As commodities, como se costuma dizer, podem muito. Mas não podem tudo.

O contraste com estados que dependem de indústrias mais tradicionais é brutal. Ceará e Bahia registraram quedas de 8,6% e 7,4% respectivamente no período desde 2002. São economias que tentaram diversificar, que investiram em polos industriais, que apostaram em setores que não fossem apenas extração. E ainda assim recuaram. A mensagem é clara: a indústria brasileira não apenas estagna. Ela se retrai onde não há commodities para sustentar.

Mas o verdadeiro choque vem quando se coloca o Brasil ao lado do resto do mundo. Segundo dados da Organização para o Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas, entre 2011 e julho de 2026, o Brasil registrou queda de 14% na atividade industrial. A mediana de 68 países apresentou alta de 27%. Não é uma diferença marginal. É um abismo. Os únicos segmentos em que o Brasil consegue superar a média mundial são papel e celulose, coque e refino de petróleo — novamente, setores ligados à extração e ao processamento de recursos naturais.

Em eletrônicos e computadores, a lacuna é vertiginosa. Enquanto a indústria global cresceu 51% nesse período, a brasileira caiu 40%. Não é uma questão de ritmo diferente. É uma questão de direção oposta. Enquanto o mundo se move para setores de maior valor agregado e complexidade tecnológica, o Brasil se vê preso em uma estrutura que não consegue acompanhar.

Os gargalos são conhecidos. Infraestrutura deficiente, custos elevados, uma tendência histórica ao protecionismo que, paradoxalmente, não protege a indústria — apenas a isola. Richard Baldwin, pesquisador do IMD Business School, tem demonstrado como a proximidade entre economias pobres e ricas tende a aumentar a participação industrial nas primeiras. O Brasil, geograficamente próximo de mercados desenvolvidos, não conseguiu aproveitar essa vantagem.

As saídas também são conhecidas, ainda que difíceis. O acordo comercial recém-finalizado com a União Europeia pode abrir caminhos para ganhos de produtividade. A reforma tributária, se implementada, tende a penalizar menos o setor industrial. E o ajuste fiscal, tão esperado, poderia reduzir os juros e tornar o investimento em produção mais atrativo. Mas conhecer o caminho e percorrê-lo são coisas diferentes. A indústria brasileira segue esperando.

As commodities podem muito. Mas não podem tudo.
— Análise do texto
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