Incêndio na UFPE destrói décadas de pesquisa em fármacos e doenças raras

Pesquisadores vivem luto pela perda de projetos de vida inteira; amostras de pacientes falecidos com tumores raros foram destruídas, impossibilitando pesquisas futuras.
Sinto que é uma perda de duas décadas de trabalho
Pesquisador descreve a destruição de amostras biológicas e equipamentos que levaram vinte anos para acumular.
Mark

O que torna esse incêndio diferente de outros desastres em laboratórios? Parece que há algo além da perda de equipamento.

Mimi

Equipamento se compra de novo. O que se perdeu aqui foram amostras biológicas que levaram anos para coletar e que vêm de pessoas específicas — algumas já falecidas. Você não consegue replicar uma amostra de sangue de um paciente que morreu.

Luke

Mas quanto disso é realmente irreplacável? Se as amostras foram bem documentadas, os dados ainda existem em algum lugar, certo?

Mimi

Os dados existem, sim. Mas a amostra física é o que permite novos testes, novas técnicas. É como ter a fotografia de um quadro em vez do quadro.

Mark

E quanto ao trabalho em andamento? Esses pesquisadores conseguem recomeçar?

Mimi

Tecnicamente, sim. Mas estamos falando de pesquisas que levaram vinte anos. Recomeçar significa começar do zero em muitos casos, especialmente com Chikungunya — você só consegue aquelas amostras se houver um novo surto.

Luke

Espera, a pesquisadora disse que espera que não haja novo surto. Então ela está presa em um paradoxo: precisa da doença para continuar a pesquisa, mas não quer que a doença volte.

Mimi

Exatamente. É um dilema real. E há também a questão emocional — esses pesquisadores descrevem o lugar como uma segunda família. Não é só ciência que foi perdida.

Mark

O ministro prometeu apoio. Qual é a realidade disso?

Luke

Apoio financeiro ajuda a comprar novos equipamentos, mas não reconstrói duas décadas de amostras coletadas. É importante notar que a Polícia Federal ainda está investigando — não sabemos nem como o incêndio começou.

Mimi

E isso importa porque se foi negligência ou falta de segurança, há responsabilidade além do desastre em si.

Mark

Então o que fica em aberto?

Luke

As causas do incêndio, a capacidade real de reconstrução, e se há backup de dados em outro lugar. O relato não deixa claro nenhum desses pontos.

  • Incêndio ocorreu na noite de 7 de outubro de 2026, por volta das 20 horas
  • Prejuízo estimado em R$ 100 milhões em equipamentos, insumos e material
  • Laboratório guardava mais de 10 mil amostras de pacientes com Chikungunya acompanhados por três anos
  • Pesquisadores perderam amostras de sangue, órgãos e dados de duas décadas de estudos

Pesquisadores perderam amostras de sangue, órgãos e dados de duas décadas de estudos sobre doenças infecciosas e câncer. O incêndio destruiu um dos maiores acervos mundiais de amostras de Chikungunya, com mais de 10 mil amostras de pacientes acompanhados por três anos.

Incêndio em prédio da UFPE no Recife destruiu laboratórios com pesquisas sobre Covid-19, Chikungunya e câncer, causando prejuízo estimado em R$ 100 milhões. Pesquisadores lamentam perda de amostras biológicas irreplacáveis e anos de trabalho.

Na noite de quarta-feira, 7 de outubro, um incêndio de grandes proporções consumiu um prédio multiuso da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, destruindo laboratórios que funcionavam como centro nervoso de pesquisas sobre doenças infecciosas, câncer e inovação terapêutica. A reitoria da instituição estima o prejuízo em R$ 100 milhões em equipamentos, insumos e material científico. A Polícia Federal abriu investigação para apurar as causas do sinistro, que começou por volta das 20 horas.

O prédio abrigava o Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino, conhecido como Nupit, um espaço que havia sido reestruturado durante a pandemia de Covid-19 para funcionar como laboratório de campanha. Ali funcionavam laboratórios de fármacos, informática e genética, onde dezenas de pesquisadores desenvolviam trabalhos que atravessavam décadas. Para muitos deles, o incêndio representou não apenas a perda de dados e amostras, mas o apagamento de trajetórias científicas inteiras.

Ryan Cordeiro, pesquisador de 29 anos que fazia pós-doutorado em inovação terapêutica, perdeu um banco de amostras de sangue e tecidos de animais que usava para testes de novos fármacos contra a Covid-19. Essas amostras, guardadas desde a época da pandemia, eram parte de um estudo que havia detectado que a Covid-19 leve não causava dano prolongado ao cérebro dos pacientes — um achado que a Organização Pan-Americana da Saúde utilizou em material de orientação pública. Cordeiro também trabalhava com amostras animais para pesquisas sobre esclerose sistêmica, uma doença crônica e rara. Estava próximo de sintetizar fármacos para seu tratamento, ainda na fase de testes em animais, quando tudo foi perdido. "Sinto que é uma perda de duas décadas de trabalho", resumiu o pesquisador, descrevendo o material destruído: amostras biológicas, tumores, sangue, urina, plasma, soro e células imortalizadas. Entre elas havia amostras de pacientes com tumores raros que já faleceram — material que não pode ser replicado.

Jamile Taniele, bióloga de 39 anos que fazia pós-doutorado estudando dores crônicas associadas a Chikungunya, perdeu um acervo que era referência mundial. O laboratório guardava mais de dez mil amostras de pacientes que haviam sido acompanhados por três anos, incluindo amostras de sangue e urina de quase mil pessoas. A pesquisa buscava compreender por que a Chikungunya causa tantas dores e como tratá-las adequadamente. Taniele estava em um caminho promissor quando o incêndio destruiu tudo. "Para a gente ter de novo essa riqueza de amostras, somente se acontecer um novo surto da doença, e espero que não aconteça", disse ela, apontando o dilema impossível: recuperar o material exigiria que a doença voltasse a circular.

A professora Michelle Melgarejo, coordenadora do Nupit, descreveu o núcleo como um espaço que desenvolvia estudos sobre câncer de pâncreas, câncer de pulmão, doenças infecciosas, inflamatórias, imunológicas, saúde mental, aprendizado e neuro-oncologia. Durante a pandemia, o laboratório realizou milhares de testes. Ela alertou que o incêndio representa a perda de mestrados e doutorados ou, no mínimo, atrasos significativos nesses processos — um golpe não apenas para a ciência pernambucana, mas para a pesquisa brasileira. José Rafael Soares, biólogo que cursava doutorado em inovação terapêutica, perdeu todas as amostras que havia coletado no Sertão de Araripe para sua pesquisa sobre biomarcadores de câncer de pulmão e doenças respiratórias.

Além da dimensão científica, o incêndio destruiu um espaço de convivência. Cordeiro descreveu o Nupit como "a segunda família de todos", um ambiente saudável onde se desenvolveram amizades e trocas intelectuais. Taniele disse que o espaço era sua segunda casa e que muitos colegas estavam em desespero, chorando, deprimidos — vivendo um luto. O simbolismo da perda era tão profundo quanto a perda material: o passado de duas décadas havia sido apagado em uma noite.

O ministro da Educação, Leonardo Barchini, disse ter recebido a notícia com tristeza e anunciou que o Ministério da Educação estava em contato com a reitoria da UFPE e acompanhava as investigações. Ele estava previsto para visitar a universidade na tarde de quinta-feira, 8 de outubro. A reconstrução das pesquisas, porém, enfrentará obstáculos que nenhuma verba consegue contornar completamente: amostras biológicas de pacientes falecidos não podem ser substituídas, e estudos que levaram anos para acumular dados foram reduzidos a cinzas em horas.

Para a gente ter de novo essa riqueza de amostras, somente se acontecer um novo surto da doença, e espero que não aconteça
— Jamile Taniele, bióloga que pesquisava Chikungunya
Esse incêndio representa a perda de mestrados, de doutorados ou pelo menos um atraso nesses processos e um atraso bem grande por parte da ciência pernambucana e do Brasil
— Michelle Melgarejo, professora da UFPE
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