ESBL não deve ser tratada como situação terapêutica única; a escolha do antimicrobiano depende do foco da infecção, estabilidade do paciente e suscetibilidade in vitro. Para ITU não complicada, aminoglicosídeos, nitrofurantoína e sulfametoxazol-trimetoprim são preferenciais; carbapenêmicos (ertapeném, imipeném, meropeném) são preferidos em infecções invasivas.
IDSA 2026: novas recomendações para tratamento de infecções por ESBL
A resistência não muda a duração — muda o agente
Por que a IDSA decidiu separar o tratamento de ESBL em três categorias diferentes — ITU não complicada, ITU complicada e infecções invasivas?
Porque o comportamento clínico é radicalmente diferente em cada cenário. Uma infecção urinária não complicada em uma mulher jovem é um problema local, contido. Uma infecção invasiva com bacteremia é uma ameaça sistêmica. Os dados mostram que carbapenêmicos salvam vidas em bacteremia, mas usar carbapenêmicos para uma cistite simples é desperdício e contribui para resistência.
Então por que piperacilina-tazobactam, que é um agente tão usado, caiu em desgraça?
Os números falam. Em bacteremia por ESBL, a sobrevida com meropeném foi 96% contra 88% com piperacilina-tazobactam. Oito pontos percentuais em mortalidade é enorme. E mesmo quando você reanalisa os dados microbiológicos, a diferença permanece. A diretriz está dizendo: não use piperacilina-tazobactam em infecção invasiva, ponto.
Mas e se o teste de sensibilidade disser que a bactéria é sensível a piperacilina-tazobactam?
Não importa. O teste in vitro não prediz o desfecho clínico nesse cenário. Há uma desconexão entre o que o laboratório diz e o que acontece no paciente. Por isso a diretriz é tão clara: evite, mesmo com suscetibilidade.
Qual é a limitação mais importante dessa diretriz para um médico no Brasil?
A disponibilidade. Muitos dos agentes preferenciais não existem aqui. Gepotidacina, sulopenem, cefepime-enmetazobactam — não temos. Fosfomicina intravenosa também não. Então o médico brasileiro precisa adaptar, usando o que tem — sulfametoxazol-trimetoprim, fluoroquinolonas, carbapenêmicos — e entender que está operando com um arsenal mais limitado.
A transição para terapia oral é importante nessa diretriz?
Muito. Porque significa que você não precisa manter o paciente internado recebendo antibióticos intravenosos se houver uma opção oral ativa e o paciente estiver estável. Mas tem que haver três coisas: absorção gastrointestinal adequada, estabilidade hemodinâmica e um agente oral que realmente funcione contra aquele microrganismo.
E quanto à duração do tratamento? A diretriz diz algo novo?
Diz que não há necessidade de tratar mais tempo só porque é ESBL. A resistência não muda a duração — muda o agente. Isso é importante porque reduz a pressão para prolongar antibióticos desnecessariamente.
O Pulso
- IDSA 2026 diferencia tratamento de ESBL em três cenários: ITU não complicada, ITU complicada e infecções invasivas
- Carbapenêmicos (ertapeném, imipeném, meropeném) são preferidos em infecções invasivas; sobrevida de 96% com meropeném versus 88% com piperacilina-tazobactam
- Para ITU não complicada, aminoglicosídeos, nitrofurantoína e sulfametoxazol-trimetoprim são preferenciais
- Piperacilina-tazobactam e cefepime devem ser evitados em infecções invasivas, mesmo com suscetibilidade in vitro
ESBL não deve ser tratada como situação terapêutica única; a escolha do antimicrobiano depende do foco da infecção, estabilidade do paciente e suscetibilidade in vitro. Para ITU não complicada, aminoglicosídeos, nitrofurantoína e sulfametoxazol-trimetoprim são preferenciais; carbapenêmicos (ertapeném, imipeném, meropeném) são preferidos em infecções invasivas.
A Infectious Diseases Society of America atualiza em 2026 suas recomendações para infecções por ESBL, diferenciando abordagens conforme o sítio de infecção e gravidade clínica, com destaque para carbapenêmicos em infecções invasivas.
A Infectious Diseases Society of America lançou em 2026 uma atualização significativa sobre como tratar infecções causadas por bactérias produtoras de ESBL — enzimas que conferem resistência a vários antibióticos betalactâmicos. O documento marca uma mudança importante na prática clínica: abandona a ideia de que toda infecção por ESBL deve ser tratada da mesma forma e, em seu lugar, propõe uma abordagem que leva em conta onde a infecção ocorre, quão grave é o quadro do paciente e qual é o padrão de sensibilidade do microrganismo em testes laboratoriais.
A resistência aos betalactâmicos funciona assim: as bactérias produzem enzimas chamadas betalactamases que conseguem inativar esses antibióticos. As ESBL, especificamente, conseguem neutralizar penicilinas e cefalosporinas de primeira, segunda e terceira geração, além do aztreonam. Mas não conseguem inativar cefamicinas nem carbapenêmicos. Qualquer enterobactéria pode produzir ESBL, mas as mais comuns são a Escherichia coli, a Klebsiella pneumoniae e a Klebsiella oxytoca. O painel que elaborou essas recomendações foi composto por seis especialistas em doenças infecciosas com experiência em resistência antimicrobiana, e o documento reflete a literatura disponível até 1º de março de 2026, com a ressalva importante de que as orientações foram pensadas especificamente para o contexto dos Estados Unidos.
Para infecções urinárias não complicadas, a diretriz estabelece uma lista de opções preferenciais: aminoglicosídeos em dose única, gepotidacina, nitrofurantoína, pivmecilinam, sulopenem e sulfametoxazol-trimetoprim. Destes, apenas aminoglicosídeos, nitrofurantoína e sulfametoxazol-trimetoprim estão disponíveis no Brasil. Fosfomicina oral aparece como alternativa para infecção por E. coli. Fluoroquinolonas, cefepime-enmetazobactam ou carbapenêmicos podem ser usados quando resistência, indisponibilidade ou intolerância impedem as opções preferenciais. A diretriz orienta explicitamente a evitar amoxicilina-clavulanato e doxiciclina nesse cenário. Um detalhe prático: se piperacilina-tazobactam ou cefepime foram iniciados empiricamente e o microrganismo é identificado depois como ESBL, mas o paciente está melhorando clinicamente, não é necessário trocar o antibiótico nem prolongar o tratamento.
Para infecções fora do trato urinário — bacteremias, infecções invasivas — a orientação muda significativamente. Aqui, carbapenêmicos são preferidos: ertapeném, imipeném e meropeném. Em pacientes criticamente enfermos ou com hipoalbuminemia, imipeném ou meropeném são recomendados em vez de ertapeném. Cefepime-enmetazobactam é alternativa. O suporte clínico para essa preferência vem de um ensaio clínico aberto com 391 pacientes com infecção da corrente sanguínea por ESBL. A sobrevida em 30 dias foi de 88% com piperacilina-tazobactam e 96% com meropeném. Mesmo após reanálise microbiológica, a diferença permaneceu favorável ao carbapenêmico.
Para infecções urinárias complicadas, sulfametoxazol-trimetoprim, ciprofloxacino ou levofloxacino são preferenciais quando há suscetibilidade demonstrada. Se essas opções não puderem ser usadas, cefepime-enmetazobactam ou carbapenêmicos são preferidos. Um ensaio clínico randomizado mostrou sucesso terapêutico de 74% com cefepime-enmetazobactam e 52% com piperacilina-tazobactam em ITU complicada por ESBL. A fosfomicina intravenosa permanece como alternativa de segunda linha, mas o painel ressalta que precisa de mais dados antes de ser classificada como terapia preferencial.
Há restrições importantes. Piperacilina-tazobactam pode ser considerada alternativa em ITU complicada apenas para pacientes não críticos e sem bacteremia concomitante. Para infecções fora do trato urinário, a diretriz não sugere seu uso, mesmo com suscetibilidade in vitro. Cefepime também deve ser evitado em ITU complicada e em infecções invasivas por ESBL, ainda que o teste indique suscetibilidade. Cefoxitina e cefotetan também não são sugeridos até que haja mais dados de desfechos clínicos e esquemas de dose mais bem definidos.
A transição de terapia intravenosa para oral deve ser considerada quando houver um agente oral ativo disponível, estabilidade hemodinâmica do paciente, concentração adequada do medicamento no sítio de infecção e absorção gastrointestinal suficiente. A diretriz não estabelece durações específicas para infecções por ESBL e afirma que patógenos resistentes, em geral, não precisam de cursos mais longos que organismos suscetíveis. Para a prática clínica, a mensagem central é clara: defina o sítio da infecção, avalie a gravidade, confirme a suscetibilidade in vitro e então escolha entre opções preferenciais e alternativas. A própria IDSA ressalta que suas sugestões foram construídas para os Estados Unidos, uma limitação relevante ao aplicar a diretriz em outros contextos, especialmente em relação ao perfil de suscetibilidade local e à disponibilidade dos antimicrobianos.
Citações Notáveis
A escolha do antimicrobiano depende do foco da infecção, da estabilidade do paciente e da suscetibilidade in vitro — ESBL não deve ser tratada como situação terapêutica única— Infectious Diseases Society of America, 2026
As sugestões foram construídas para os Estados Unidos, limitação relevante ao aplicar a diretriz em outros contextos, especialmente em relação ao perfil de suscetibilidade e à disponibilidade dos antimicrobianos— IDSA, nota sobre aplicabilidade global