Marilda da Silva acordou após cirurgia e descobriu que a prótese foi implantada no joelho errado, deixando ambas as pernas comprometidas. Hospital alega que paciente sedada insistiu para operar o outro joelho; filha contesta e relata falta de marcação e exames na perna direita.
Idosa tem prótese implantada no joelho errado em cirurgia em Curitiba
Agora ela tem ambas as pernas comprometidas
Como é que uma coisa dessas acontece? Não existem protocolos para evitar cirurgias no membro errado?
Existem, sim. O padrão internacional é marcar o local da cirurgia no corpo do paciente antes de entrar na sala. Nesse caso, segundo a filha, não houve nenhuma marcação. É um passo básico.
Mas precisamos ser cuidadosos aqui. O hospital diz que fez uma radioscopia. A questão é: essa radioscopia realmente aconteceu? Não temos como verificar porque, segundo eles, não fica registrada.
Então é a palavra de quem contra a palavra de quem?
Basicamente, sim. O hospital diz que a paciente, já sedada, insistiu para operar o outro joelho. Marilda nega ter dito qualquer coisa. Sua filha estava lá e não viu nada disso acontecer.
E aqui está o ponto crítico: mesmo que a paciente tivesse pedido isso — o que ela nega — um médico responsável não deveria simplesmente atender. Você não muda um plano cirúrgico baseado no pedido de alguém sob sedação sem documentar, sem exames, sem confirmação.
Qual é o impacto real para Marilda agora?
Ela tem duas pernas comprometidas. A esquerda ainda precisa da cirurgia que deveria ter feito. A direita tem uma cicatriz grande e está se recuperando de uma cirurgia desnecessária. E ela terá que passar por outra cirurgia.
E há também o aspecto emocional que a filha menciona. O hospital, ao dizer que foi a paciente quem pediu, transferiu a culpa para ela. Isso é particularmente problemático quando você está falando de uma pessoa sedada que não pode se defender.
O que pode acontecer com o médico agora?
O CRM abriu uma sindicância. Se comprovarem violação ética, as punições vão de advertência até cassação do registro profissional.
Mas temos que lembrar que isso ainda é investigação. Nada foi comprovado. O que sabemos é que houve um erro — isso é fato. Como o erro aconteceu, por quê, e quem é responsável — isso ainda está sendo apurado.
Le Pouls
- Marilda da Silva, 72 anos, operada no joelho direito em vez do esquerdo em 30 de setembro
- Cirurgia de artroplastia realizada no Hospital Cruz Vermelha de Curitiba
- Não houve marcação no corpo da paciente para sinalizar qual membro deveria ser operado
- CRM-PR abriu sindicância; punições podem variar de advertência à cassação do registro profissional
Marilda da Silva acordou após cirurgia e descobriu que a prótese foi implantada no joelho errado, deixando ambas as pernas comprometidas. Hospital alega que paciente sedada insistiu para operar o outro joelho; filha contesta e relata falta de marcação e exames na perna direita.
Mulher de 72 anos foi operada no joelho direito em vez do esquerdo durante cirurgia de artroplastia em hospital particular de Curitiba. Médico alegou que paciente sob sedação insistiu pela mudança, mas ela nega ter dito algo.
Marilda da Silva acordou da sedação e descobriu que os cirurgiões haviam implantado uma prótese no joelho errado. A mulher de 72 anos havia chegado ao Hospital Cruz Vermelha de Curitiba no dia 30 de setembro com uma cirurgia marcada para o joelho esquerdo — o procedimento já havia sido planejado após exames que confirmavam a necessidade. Quando recobrou a consciência, porém, percebeu que a intervenção havia sido feita no joelho direito. Uma artroplastia, para ser claro, é o implante de uma prótese de metal e polietileno nas superfícies ósseas e cartilaginosas desgastadas, um procedimento que exige precisão absoluta sobre qual membro será tratado.
O médico responsável ofereceu uma explicação quando a filha de Marilda, Sabrina da Silva, o procurou após a cirurgia. Ele disse que a paciente, já sob o efeito dos sedativos, havia insistido para que o joelho direito fosse operado em vez do esquerdo, e que ele havia atendido ao desejo dela. Marilda, porém, não se lembra de ter dito qualquer coisa nesse sentido. Sabrina relata que sua mãe ficou muito chateada no momento em que soube do ocorrido e, no dia seguinte, confrontou o médico sobre o erro. O que se seguiu foi uma série de tentativas de contato com o hospital e abertura de reclamações internas, tudo no mesmo dia.
O que torna o caso ainda mais preocupante é a falta de documentação e procedimentos de segurança básicos. Segundo Sabrina, não houve nenhuma marcação no corpo de Marilda para sinalizar qual membro deveria ser operado — uma prática padrão em cirurgias para evitar exatamente esse tipo de erro. O hospital alegou que realizou uma radioscopia no centro cirúrgico para confirmar qual perna precisava da intervenção, mas esse exame não fica registrado nos arquivos, impossibilitando qualquer verificação posterior. "Eles fizeram a cirurgia sem nenhum exame, sem nenhum acompanhamento daquela perna", diz Sabrina. "Me informaram que fizeram uma radioscopia, porém, segundo o hospital, esse exame é feito no centro cirúrgico e não fica salvo. Então eles não têm como me mostrar, para provar que a direita precisava dessa cirurgia."
As consequências para Marilda foram imediatas e duradouras. Ela agora tem ambas as pernas comprometidas: a esquerda, que era a que deveria ter sido operada, continua precisando de suporte e tratamento, enquanto a direita apresenta uma cicatriz cirúrgica extensa e está em processo de recuperação de uma intervenção que nunca deveria ter acontecido. Sabrina descreve que sua mãe "sofre bastante" desde a operação, enfrentando um pós-operatório que não havia sido planejado. Além do dano físico, há também o abalo emocional: a equipe médica, ao responsabilizar Marilda pela mudança de plano cirúrgico, transferiu para ela uma culpa que não lhe pertence. "Ela se culpou, porque eles imputaram uma responsabilidade, uma culpa a ela. Uma culpa que não é dela. Agora, além dos danos físicos, tem também o abalo emocional", relata a filha.
Marilda terá que ser operada novamente para receber a prótese no joelho correto, adicionando mais um procedimento cirúrgico à sua recuperação. Enquanto isso, o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) abriu uma sindicância para investigar a conduta dos profissionais envolvidos. Caso seja comprovada violação das normas éticas, as punições podem variar de uma advertência confidencial até a cassação do registro profissional, dependendo da gravidade das consequências apuradas. O Hospital Cruz Vermelha, por sua vez, informou que iniciou uma apuração interna para esclarecer as circunstâncias do ocorrido e analisar os registros dos procedimentos adotados. A instituição também anunciou que programará o acompanhamento contínuo de Marilda com um médico ortopedista de sua equipe, considerando que a relação médico-paciente com o profissional anterior foi interrompida.
O caso expõe falhas críticas em protocolos de segurança que deveriam ser invioláveis em qualquer centro cirúrgico. A falta de marcação no corpo da paciente, a ausência de registros verificáveis dos exames de confirmação e a alegação de que uma paciente sedada teria insistido por uma mudança de plano cirúrgico levantam questões profundas sobre como a segurança do paciente foi tratada naquele dia. Marilda agora aguarda a próxima cirurgia e a investigação que pode determinar se houve negligência profissional ou violação ética.
Citations marquantes
Eles fizeram a cirurgia sem nenhum exame, sem nenhum acompanhamento daquela perna— Sabrina da Silva, filha de Marilda
Ela se culpou, porque eles imputaram uma responsabilidade, uma culpa a ela. Uma culpa que não é dela— Sabrina da Silva, sobre o impacto emocional em sua mãe