Ibovespa sobe discretamente; Cemig desaba 9,71% com temores de federalização

O mercado precifica risco, e a incerteza sobre Cemig era real demais
A queda de 9,71% da Cemig refletiu temores sobre possível federalização de ativos mineiros como pagamento de dívida estadual.
Mark

Por que a Cemig caiu tanto se o resto do mercado estava subindo?

Mimi

Porque o mercado precifica risco. Quando o presidente do Senado diz que está discutindo federalizar a empresa como forma de pagar dívida estadual, os investidores entendem que pode haver mudança de controle, e isso é incerteza. Caiu 9,71% em um dia.

Luke

Mas o governador disse que nada está definido. Quanto dessa queda é pânico real e quanto é apenas reação ao rumor?

Mimi

Ótima pergunta. É difícil separar. O que sabemos é que houve uma conversa entre Pacheco e Zema, e que a proposta existe. O resto é interpretação do mercado.

Mark

E por que o Ibovespa subiu se Cemig e Vale caíram?

Mimi

Porque outros setores compensaram. Marfrig subiu 5,58%, Lojas Renner 4,03%, os bancos também subiram. E o índice é ponderado por valor de mercado — nem todas as ações têm o mesmo peso.

Luke

Mas a notícia principal é que o governo projeta déficit pior do que esperado. Como isso não derrubou a bolsa?

Mimi

Porque o mercado externo está tão favorável que está compensando. Os juros americanos caíram, o dólar enfraqueceu, e isso atrai capital estrangeiro. Entraram 12,4 bilhões de reais em novembro.

Mark

Isso é sustentável?

Luke

Ninguém sabe. Os estrategistas do Itaú dizem que é o começo do rali de fim de ano, mas também reconhecem que um movimento de realização é possível. E a questão fiscal brasileira não desapareceu — apenas está sendo ignorada por enquanto.

Mimi

Exatamente. É um equilíbrio frágil. Enquanto Wall Street estiver tranquilo, o Brasil fica bem. Mas se algo mudar lá fora, ou se a preocupação fiscal aqui ganhar peso, o cenário vira.

  • Ibovespa subiu 0,33% para 126.035,3 pontos, tocando máxima intradia de 126.875,11 pontos — maior nível desde julho de 2021
  • Cemig desabou 9,71% para 11,35 reais após discussões sobre federalização como forma de pagar dívida de 160 bilhões de reais de Minas Gerais
  • Governo projeta déficit primário de 177,4 bilhões de reais para 2023 (1,7% do PIB), pior que previsão de setembro
  • Investidores estrangeiros trouxeram 12,4 bilhões de reais em novembro até dia 20, revertendo três meses de saídas

Ibovespa alcançou máxima intradia de 126.875 pontos, maior nível desde julho de 2021, refletindo otimismo com mercado externo menos restritivo. Cemig despencou 9,71% após discussões sobre federalização como forma de pagamento da dívida de MG; Vale recuou 1,10% após cinco altas consecutivas.

Ibovespa subiu 0,33% nesta quarta-feira, impulsionado por perspectivas de estabilização dos juros nos EUA, mas Cemig desabou 9,71% com receios sobre possível federalização de ativos mineiros.

A bolsa brasileira fechou quarta-feira com ganhos modestos, o Ibovespa subindo 0,33% para 126.035,3 pontos, mas a sessão revelou uma divisão clara entre otimismo externo e preocupações domésticas. Na máxima do dia, o índice tocou 126.875,11 pontos — o maior nível intradia desde julho de 2021 — antes de recuar, sinalizando que nem mesmo a perspectiva favorável de estabilização dos juros americanos conseguiu sustentar o movimento de alta com força total.

O cenário externo tem sido o principal motor da bolsa paulista nas últimas semanas. A queda nos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano, alimentada por dados de inflação ao consumidor mais fracos nos EUA e alguma acomodação no mercado de trabalho, criou um ambiente menos restritivo para ativos de risco. Em novembro, o Ibovespa acumula alta superior a 11%, e investidores estrangeiros voltaram a trazer dinheiro para o Brasil — 12,4 bilhões de reais entraram no mercado secundário até o dia 20, revertendo três meses consecutivos de saídas. Estrategistas do Itaú BBA interpretam esse movimento como o disparo da tradicional alta de fim de ano, com a bolsa agora livre para subir sem obstáculos imediatos.

Mas o otimismo encontra resistência em casa. No começo da tarde, o governo divulgou suas projeções fiscais para 2023: déficit primário de 177,4 bilhões de reais, equivalente a 1,7% do PIB, resultado pior do que o previsto em setembro. Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, interpretou o anúncio como sinal de que a administração tem pouca inclinação para conter despesas, muito menos cortá-las, e que derrapagens orçamentárias tendem a ser acomodadas através de déficits maiores. Essa tensão entre o alívio externo e a preocupação fiscal doméstica marcou toda a sessão.

O maior drama do dia foi a Cemig. A empresa de energia elétrica de Minas Gerais desabou 9,71%, fechando a 11,35 reais, após discussões sobre uma possível federalização de seus ativos. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, revelou que conversou com o governador Romeu Zema sobre uma proposta que incluiria a federalização de ativos como Copasa, Cemig e Codemig como forma de pagamento da dívida de aproximadamente 160 bilhões de reais do estado. Zema, em entrevista separada, afirmou que ainda não há nada definido sobre a federalização da Cemig, mas o mercado já precificava o risco. A Copasa também caiu, recuando 2,83%.

Entre as maiores empresas do índice, a Vale recuou 1,10% para 74,85 reais, interrompendo cinco altas consecutivas em dia de ajustes técnicos, apesar do avanço dos futuros do minério de ferro na Ásia. A Petrobras cedeu 0,17%, a 35,16 reais, em dia de queda do petróleo no exterior, embora o barril tenha encerrado longe de sua mínima diária. Investidores aguardam o plano estratégico 2024-2028 da Petrobras, que será divulgado na sexta-feira após discussões com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os ganhos do dia vieram de setores específicos. A Marfrig subiu 5,58% para 8,90 reais, renovando máxima intradia em cerca de um ano, após anunciar plano de recompra de até 31 milhões de ações — 9,30% dos papéis em circulação — e receber recomendação de compra do Bank of America com preço-alvo de 13 reais. A JBS avançou 4,04%. As Lojas Renner valorizaram-se 4,03% para 14,98 reais, ampliando ganhos de novembro que já somam cerca de 22%, embora o papel ainda acumule perdas de mais de 24% no ano. O IRB subiu 6,19%, tocando máximas desde o final de agosto. Os bancos também contribuíram: Itaú Unibanco ganhou 0,62% e Bradesco subiu 2,08%, reforçando o índice junto com a B3, que se valorizou 1,4%.

O volume financeiro da sessão somou 27 bilhões de reais. Wall Street fechou em alta na véspera do feriado de Ação de Graças, deixando a B3 sem a referência do mercado norte-americano na quinta-feira. O rendimento do Treasury de 10 anos marcava 4,41% no final do dia. Enquanto isso, o Senado aprovou nesta quarta-feira o parecer favorável à taxação de fundos exclusivos e offshores, além do projeto que regulamenta apostas esportivas — ambas as propostas seguem para o plenário. O cenário permanece em suspenso: otimismo externo versus preocupações fiscais internas, com a bolsa oscilando entre máximas históricas e temores sobre a sustentabilidade do movimento.

Este e outros desenvolvimentos relacionados com a meta fiscal para 2024 sugerem que a administração tem pouca inclinação para conter a despesa, muito menos cortá-la
— Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs
Assim, foi dada a largada para o rali de fim de ano. Agora, o cenário é de alta e livre para subir
— Equipe do Itaú BBA, relatório Diário do Grafista
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