Em meio a sinais contraditórios vindos de Oriente e Ocidente, a bolsa brasileira buscava equilíbrio nesta terça-feira: a promessa de um gigantesco pacote de estímulos chinês acendia esperança, mas o ceticismo americano e as incertezas fiscais domésticas impediam qualquer avanço mais robusto. O Ibovespa subia com moderação, como quem caminha com um peso nos ombros — refletindo a condição de uma economia emergente que depende tanto do humor alheio quanto da própria capacidade de inspirar confiança.
Ibovespa sobe com esperança em pacote chinês, mas fraqueza de NY limita ganhos
O que sustenta o Ibovespa é o S&P, não a esperança em Pequim
Por que o mercado não comemorou mais essa notícia da China? 278 bilhões de dólares é uma quantia enorme.
Porque o mercado aprendeu a desconfiar. Estímulos anteriores não funcionaram como esperado. A economia chinesa continua fraca, especialmente no setor imobiliário. É como prometer chuva quando o solo já está saturado.
E por que Nova York estava tão fraca naquele dia?
Não era um dia específico. Era um padrão. Os índices futuros americanos operavam em queda, sinalizando que o otimismo global era limitado. Quando Wall Street hesita, os mercados emergentes sentem primeiro.
Haddad disse que não ia se deixar levar por pressões. Isso significa que havia pressão?
Exatamente. A pressão estava lá, silenciosa mas presente. O mercado questionava se o governo conseguiria manter o déficit zero enquanto anunciava 300 bilhões em investimentos. Haddad estava tentando parecer firme, mas a negação sobre não ter discutido revisão da meta com Lula era reveladora.
Os dados de arrecadação ajudaram?
Ajudaram, mas não o suficiente para acalmar as dúvidas estruturais. Um mês bom de arrecadação não resolve a questão de fundo: o governo está gastando mais do que ganha, e ninguém sabe como isso vai terminar.
Então o Ibovespa subiu apesar de tudo?
Subiu porque tinha que subir em algum lugar. A China oferecia esperança, mesmo que frágil. Mas foi uma subida contida, cautelosa. O mercado estava dizendo: vamos ver, mas não estamos convencidos.
The Pulse
- Pequim estuda injetar cerca de 278 bilhões de dólares nos mercados, comprando ações domésticas via Hong Kong — uma aposta monumental para conter a sangria das bolsas chinesas.
- O otimismo asiático esbarra no ceticismo de Nova York: futuros americanos em queda e petróleo recuando no exterior travam o avanço do Ibovespa, que sobe apenas 0,63%.
- No front doméstico, o debate sobre reoneração da folha e um plano industrial de R$ 300 bilhões até 2026 reacendem dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal do governo.
- O ministro Haddad vai ao Roda Viva para acalmar o mercado, negando pressões sobre a meta de déficit zero — mas a própria negação revela o tamanho da tensão.
- Dados de arrecadação acima do esperado em dezembro oferecem alívio pontual, enquanto Vale sobe puxada pelo minério e Petrobras cede com o recuo do petróleo.
Em meio a sinais contraditórios vindos de Oriente e Ocidente, a bolsa brasileira buscava equilíbrio nesta terça-feira: a promessa de um gigantesco pacote de estímulos chinês acendia esperança, mas o ceticismo americano e as incertezas fiscais domésticas impediam qualquer avanço mais robusto. O Ibovespa subia com moderação, como quem caminha com um peso nos ombros — refletindo a condição de uma economia emergente que depende tanto do humor alheio quanto da própria capacidade de inspirar confiança.
A bolsa brasileira abriu em alta nesta terça-feira alimentada por relatos de que Pequim preparava um pacote de cerca de 2 trilhões de yuans — aproximadamente 278 bilhões de dólares — para comprar ações no mercado doméstico via Hong Kong. Era o tipo de notícia capaz de acender esperança nos mercados globais. Mas o Ibovespa subia apenas 0,63%, rondando os 127.400 pontos, preso entre o otimismo asiático e o ceticismo americano.
Os índices futuros de Nova York operavam em queda, transmitindo fraqueza aos emergentes, enquanto o petróleo recuava no exterior — dois vetores que limitavam qualquer recuperação mais expressiva. Carlos Lopes, economista do BV, ponderava que o sinal chinês ajudava, mas exigia cautela: o pacote ainda aguardava confirmação oficial, e os estímulos anteriores de Pequim não haviam surtido o efeito esperado na economia real, com a crise imobiliária persistindo sem sinais de reversão.
O peso doméstico era igualmente relevante. Na véspera, o Ibovespa havia caído 0,81% enquanto as bolsas americanas subiam — reflexo direto das incertezas fiscais locais. Dois temas concentravam a preocupação: o debate sobre a reoneração da folha de pagamentos e o anúncio de uma nova política industrial com investimentos de R$ 300 bilhões até 2026, ampliando despesas num momento em que o mercado já questionava o equilíbrio das contas públicas.
O ministro Fernando Haddad foi ao programa Roda Viva tentar acalmar os ânimos, afirmando que não cederia a pressões na discussão sobre a reoneração e negando qualquer conversa com Lula sobre revisão da meta de déficit zero para 2024. A própria negação, porém, sinalizava o quanto o tema já circulava nos bastidores. Dados de arrecadação de dezembro — R$ 231,2 bilhões, acima da mediana projetada — ofereciam algum conforto, mas num ambiente de incerteza, até boas notícias precisam de contexto.
No pregão, a Vale subia 1,52% puxada pela alta do minério de ferro em Dalian, enquanto a Petrobras cedia com o recuo do petróleo. O dia retratava um mercado em transição: esperanças externas de um lado, preocupações internas do outro, e o Ibovespa no meio — subindo, mas com passos curtos.
A bolsa brasileira abriu em alta nesta terça-feira, alimentada pela perspectiva de um pacote de estímulos chinês de proporções gigantescas. Os relatos indicavam que Pequim estava preparando um plano de cerca de 2 trilhões de yuans — aproximadamente 278 bilhões de dólares — destinado principalmente a comprar ações no mercado doméstico através de uma aliança com a Bolsa de Hong Kong. Era o tipo de notícia que costuma acender esperança nos mercados globais. Mas o ganho do Ibovespa permaneceu modesto, preso entre sinais contraditórios que refletiam a complexidade do momento econômico.
O índice subia 0,63% no meio da manhã, tocando os 127.400 pontos, quando a reportagem foi feita. Não era uma recuperação espetacular. A razão era simples: enquanto a China oferecia esperança, Nova York oferecia ceticismo. Os índices futuros das bolsas americanas operavam em queda, sinalizando fraqueza que rapidamente se transmitia aos mercados emergentes. Além disso, o petróleo recuava no exterior, pressionando para baixo uma economia como a brasileira que depende significativamente das receitas do setor energético. O resultado era um Ibovespa preso, incapaz de aproveitar plenamente o otimismo asiático.
Carlos Lopes, economista do BV, oferecia uma perspectiva realista sobre o que estava acontecendo. O sinal da China ajudava, sim, mas era preciso cautela. Primeiro, porque ainda faltava a confirmação oficial do pacote. Segundo, e mais importante, porque os estímulos anteriores não tinham gerado os efeitos esperados na economia chinesa real. A bolsa de Xangai continuava sofrendo com as dificuldades estruturais do país — particularmente a crise do setor imobiliário que não dava sinais de recuperação. O que realmente sustentava o Ibovespa, segundo Lopes, era o desempenho do índice S&P 500 americano, não a esperança em Pequim.
Mas havia outro peso sobre os ombros do mercado brasileiro: as incertezas fiscais domésticas. Na segunda-feira anterior, o Ibovespa havia fechado em queda de 0,81%, encerrando em 126.601 pontos, enquanto as bolsas americanas subiam. O motivo era a preocupação com as contas públicas, alimentada por dois temas específicos. O primeiro era a discussão sobre a reoneração da folha de pagamentos — uma questão técnica, mas politicamente sensível, que envolvia a possibilidade de restaurar contribuições sobre a folha de salários. O segundo era o anúncio da nova política industrial do governo, que previa investimentos de 300 bilhões de reais até 2026, ampliando ainda mais as despesas públicas num momento em que o mercado já questionava a sustentabilidade fiscal.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tentava acalmar os ânimos. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, ele afirmou que não se deixaria levar por pressões na discussão sobre a reoneração. Haddad ressaltou que o diálogo sobre o tema estava aberto entre os presidentes da República, Luiz Inácio Lula da Silva, da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco. Ele também negou que tivesse havido discussão com Lula sobre uma eventual revisão da meta de déficit zero para 2024 — uma negação que, por si só, revelava que a questão estava na pauta.
Naquele mesmo dia, o mercado recebia dados de arrecadação que ajudavam a alimentar o debate. Em dezembro, o governo havia arrecadado 231,225 bilhões de reais, superando a mediana das projeções de 224,75 bilhões. Para o ano inteiro de 2023, a arrecadação somou 2,31 trilhões de reais, dentro da faixa esperada. Os números eram positivos, mas ganhavam importância amplificada justamente porque as dúvidas sobre o cenário fiscal eram tão profundas. Num ambiente de incerteza, até boas notícias precisam ser contextualizadas.
No pregão, as ações refletiam essa mistura de sinais. O minério de ferro subia 1,42% em Dalian, na China, puxando as ações da Vale para cima em 1,52%. Mas a Petrobras cedia, com as ações preferenciais caindo 0,27% e as ordinárias recuando 0,10%. Havia também a questão dos balanços corporativos que saíam naquele dia — Procter & Gamble, Verizon e 3M — e a expectativa pelo resultado da Netflix após o fechamento do mercado. Cada número tinha o potencial de reconfigurar o humor dos investidores.
O que emergia daquele dia de negociação era um retrato de um mercado em transição, preso entre esperanças externas e preocupações internas. A China oferecia um estímulo que poderia ajudar, mas cuja eficácia era questionável. Os Estados Unidos sinalizavam cautela. E o Brasil, no meio, tentava convencer seus credores de que tinha as contas sob controle enquanto expandia gastos e deixava em aberto questões fundamentais sobre tributação. O Ibovespa subia, mas modestamente. Era o reflexo dessa realidade complexa.
Notable Quotes
O sinal da China ajuda um pouco, mas ainda é preciso esperar a confirmação e é importante ponderar que ainda não se viu grandes efeitos de estímulos passados— Carlos Lopes, economista do BV
O que tem segurado o Ibovespa é o S&P e não a bolsa chinesa, que tem sentido as dificuldades da economia local, do setor imobiliário— Carlos Lopes, economista do BV