Ibovespa sobe 7% em janeiro com recorde de fluxo estrangeiro, desafiando alta do Fed

Baratas não significa que vão subir
Especialistas alertam que preços baixos não garantem ganhos se a política fiscal não melhorar.
Mark

Por que estrangeiros compraram tanto em janeiro se o Federal Reserve estava sinalizando alta de juros?

Mimi

Porque várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. A crise na Ucrânia elevou os preços das commodities, o Brasil está cheio de empresas de commodities, e essas ações estavam muito baratas em dólar.

Luke

Mas espera — o Fed já tinha sinalizado isso antes de janeiro, certo? Então por que o mercado só precificou em janeiro?

Mimi

Boa pergunta. Balistiero diz que em janeiro houve uma convergência — o Fed já estava precificado, Brasília estava em recesso, e a Ucrânia criou urgência.

Mark

E quanto à ideia de que juros altos nos EUA drenam capital dos emergentes? Isso não deveria ter acontecido?

Mimi

Henrique Bredda, um gestor, chama isso de "análise popular, convincente e errada". Ele diz que hoje a inflação é causada por commodities, não por outros fatores, então o Brasil se beneficia.

Luke

Mas ele está comparando com os anos 70. Hoje é diferente, mas será que a lógica dele aguenta escrutínio? Ele está dizendo que a história mudou, mas não está provando que mudou.

Mimi

É verdade. O que sabemos é que o fluxo aconteceu. Por quê, exatamente, ainda é interpretação.

Mark

E esse fluxo vai continuar?

Mimi

Natali alerta que pode não. Ele diz que é carry trade e fluxo de bolsa, coisas que não acontecem há muito tempo. Se o Ibovespa se descolar muito dos índices internacionais, pode haver reversão.

Luke

Então estamos falando de especulação, não de investimento de longo prazo?

Mimi

Exatamente. E Beny Parnes, da SPX, diz que o fluxo vai minguar. Só volta se houver reformas fiscais.

Mark

Qual é o risco real para um investidor brasileiro agora?

Mimi

Que o fluxo saia tão rápido quanto entrou, deixando a bolsa caindo. E internamente, há incerteza sobre as eleições e o compromisso fiscal dos candidatos.

Luke

Mas as ações estão baratas, certo? Então mesmo que o fluxo saia, não seria uma oportunidade de compra?

Mimi

Sim, estão baratas. Mas baratas não significa que vão subir. Depende do que acontece com a política fiscal, as reformas, a economia global.

  • O fluxo estrangeiro recorde contrariou o senso comum: juros americanos subindo deveriam afastar capital dos emergentes, mas o Brasil atraiu R$ 32,5 bilhões em janeiro.
  • A crise na Ucrânia elevou o petróleo a US$ 93 por barril e pressionou commodities para cima, beneficiando diretamente Petrobras, Vale e siderúrgicas que lideram o Ibovespa.
  • Investidores globais migraram de tecnologia para empresas de valor — e o Ibovespa, com 40% em commodities e 8% em bancos, estava exatamente onde o dinheiro queria estar.
  • Especialistas divergem sobre a durabilidade do movimento: alguns veem uma nova era de fluxo contínuo, outros alertam que capital especulativo pode se retirar tão rapidamente quanto chegou.
  • O ano eleitoral, o nível elevado da dívida pública e a ausência de reformas estruturais formam a sombra que paira sobre o otimismo de janeiro.

Em janeiro de 2022, enquanto o Federal Reserve sinalizava o encarecimento do dinheiro americano, R$ 32,5 bilhões em capital estrangeiro encontraram caminho para a bolsa brasileira — a segunda maior entrada em uma década. O Ibovespa subiu 7% num mês em que a Nasdaq recuava mais de 10%, revelando que a lógica dos mercados raramente obedece a uma única narrativa. O Brasil, com suas commodities valorizadas pela crise ucraniana, suas ações historicamente baratas e sua composição setorial favorável à rotação global, tornou-se, por um momento, o destino improvável de quem buscava valor num mundo de incertezas.

Em janeiro de 2022, investidores estrangeiros colocaram R$ 32,5 bilhões na bolsa brasileira — a segunda maior entrada em uma década —, num movimento que desafiou a lógica convencional. O Federal Reserve sinalizava alta de juros, o que deveria drenar capital dos mercados emergentes. O Ibovespa subiu 7% enquanto o resto do mundo hesitava.

A explicação passa por uma convergência de fatores. A crise na Ucrânia elevou os preços das commodities, com o petróleo chegando a US$ 93 por barril. A Petrobras subiu 13%, a Vale e as siderúrgicas puxaram o índice. A China sinalizava corte de juros, pressionando ainda mais as commodities. Enquanto isso, Brasília estava em recesso, mantendo a política fora do noticiário.

Houve também uma rotação global de portfólios. Com juros em alta, investidores saíram de empresas de tecnologia — que dependem de crescimento acelerado e queimam caixa — e migraram para empresas consolidadas e lucrativas. O Ibovespa, com sua composição em commodities, bancos e consumo básico, estava perfeitamente posicionado. A Nasdaq caiu mais de 10% no mesmo período.

Somava-se a isso o fato de as ações brasileiras estarem historicamente baratas. Em dólares, o índice estava em níveis de 2014, mas os lucros das empresas nunca haviam sido tão altos. Analistas do Santander e da XP apontavam assimetria atraente, mesmo com eleições presidenciais no horizonte.

O gestor Henrique Bredda contestou a narrativa de que altas do Fed sempre prejudicam o Brasil, chamando-a de "análise popular, convincente e errada". Hoje, a inflação global é puxada por commodities — o que beneficia o país —, e investidores buscam oportunidades, não apenas segurança.

A cautela, porém, é unânime. O fluxo especulativo pode se reverter rapidamente se o Ibovespa se descolar demais dos índices internacionais ou se fundos precisarem recompor posições em seus mercados de origem. O ano eleitoral, a dívida elevada e a ausência de reformas estruturais limitam o otimismo. A recomendação predominante é diversificação — os brasileiros têm apenas 1% a 2% de exposição internacional, e momentos de correção são oportunidade para ampliar essa fatia.

Em janeiro, investidores estrangeiros colocaram R$ 32,5 bilhões na bolsa brasileira. Foi a segunda maior quantia em uma década, um número que desafia a lógica convencional do mercado financeiro. Naquele mesmo mês, o Federal Reserve sinalizava que elevaria as taxas de juros nos Estados Unidos — um movimento que, segundo o pensamento tradicional, deveria drenar capital dos mercados emergentes para os títulos americanos, mais seguros e agora mais rentáveis. Não foi o que aconteceu. O Ibovespa subiu 7% enquanto o resto do mundo hesitava.

A explicação não é simples. Ricardo Balistiero, economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, aponta uma convergência de fatores. O Federal Reserve já havia sinalizado suas intenções para o ano inteiro, então o mercado já precificava essas mudanças. Brasília estava em recesso, deixando a política brasileira fora do noticiário. E havia a crise na Ucrânia, que criava incerteza global e elevava os preços das commodities — petróleo, gás natural, minério de ferro. A Rússia é um ator central nesse mercado. O petróleo já havia saltado para US$ 93 por barril, patamar não visto desde 2014. Alguns analistas da Gavekal, uma das maiores casas de research independentes do mundo, consideravam a crise europeia até mais decisiva para a economia global do que as decisões do Federal Reserve.

O Brasil se beneficiava diretamente. A Petrobras viu suas ações ordinárias subirem 13% e as preferenciais 12% no mês. A Vale, a CSN e a Usiminas — empresas de minério de ferro — também puxavam o índice para cima. Do outro lado do mundo, a China sinalizava que reduziria suas taxas de juros para estimular sua economia, o que também pressionava os preços das commodities para cima. Empresas consolidadas, aquelas que não precisam crescer exponencialmente para justificar seu valor, tornaram-se atrativas. A B3, o Itaú Unibanco e o Bradesco subiram 31%, 21% e 18% respectivamente.

Houve também uma mudança tática no mercado global. Quando os juros sobem, investidores saem de tecnologia — empresas que prometem crescimento acelerado — e entram em valor, empresas sólidas que já geram lucro. Liao Yuh Chieh, professor do Insper e responsável pela educação financeira do C6 Bank, explica: um ciclo de alta de juros é feito justamente para esfriar a economia. Não faz sentido investir em uma empresa que precisa crescer rapidamente quando o mercado está desacelerando. Além disso, empresas de tecnologia queimam caixa. Quando os juros sobem, o custo de oportunidade para obter dinheiro aumenta. Um investidor exige retornos maiores porque há opções mais seguras disponíveis. O Ibovespa, com 40% de sua composição em commodities, 8% em bancos e 8% em consumo básico, estava perfeitamente posicionado para essa rotação. A Nasdaq caiu mais de 10% em janeiro. O Ibovespa avançou quase 7%.

Mas havia outra razão, mais simples: as ações brasileiras estavam baratas. O Ibovespa em dólares estava próximo dos 21.105 pontos, um nível similar ao final de 2014. Porém, os lucros das empresas nunca haviam sido tão altos. Diversos analistas apontavam que o índice estava em suas mínimas históricas quando se observava o múltiplo preço-lucro. A XP havia publicado em dezembro que a bolsa brasileira continuava barata em qualquer métrica. O Santander alertava que, apesar das eleições presidenciais à frente, a assimetria era atraente demais para ignorar. Investidores americanos, vendo suas próprias bolsas andarem de lado, começaram a procurar alternativas. Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, resume: mais barato que mercados emergentes é difícil de achar. E dentro desses mercados, o Brasil tinha empresas bem organizadas, em um país com economia organizada entre seus pares, tudo isso com moeda desvalorizada.

Há também uma narrativa que merece ser desafiada. Henrique Bredda, gestor do fundo Alaska, chamou de "análise popular, convincente e errada" a ideia de que altas do Federal Reserve causam saída de capital do Brasil. Segundo ele, essa é uma visão fantasiosa que não resiste a um exame mais minucioso. Na década de 1970, sim, havia essa relação — o Brasil era forte em commodities agrícolas, mas foi o petróleo que dominou, e a alta dos juros americanos prejudicou o país. Hoje, a inflação é explicada principalmente pela alta dos preços das commodities, o que beneficia o Brasil. Investidores não correm mais para títulos americanos com a sinalização de altas de juros; eles buscam novas oportunidades em outros mercados.

Mas a cautela é necessária. Rodrigo Natali, estrategista-chefe da Inversa, alerta que em dezembro houve um grande movimento de investidores brasileiros aportando em ativos internacionais — um dos maiores da história. Agora, com a bolsa brasileira superando as americanas, voltar não é necessariamente a decisão correta. O fluxo estrangeiro começou com carry trade, seguido de fluxo de bolsa — algo que não acontecia há muito tempo. Muitos profissionais do mercado nunca viram isso antes e estão especulando sobre o que virá. Há falas de que o fluxo veio para ficar, que será diário, mas pode não ser nada disso. Fundos que vieram para o Brasil trouxeram capital especulativo de qualidade "razoável", mas nada garante que será mantido. Se houver um problema no portfólio principal de um fundo, ele é obrigado a retirar capital dos lugares onde tem menos desenvoltura para negociar. Quanto mais o Ibovespa se descolar dos índices internacionais, mais haverá um gatilho para a reversão.

Ricardo Balistiero é claro: muito provavelmente não vamos repetir janeiro. Foi um mês sem discussões políticas, mas não há razão para acreditar que isso continuará em 2022. Há dois candidatos na ponta da corrida presidencial sem nenhum compromisso assumido com a responsabilidade fiscal. Beny Parnes, responsável pela área de crédito da SPX, vê o fluxo diminuindo. Só haverá entrada relevante de capital se o país tiver sorte e fizer grandes reformas. Os ativos estão baratos, mas o nível da dívida é muito elevado, o que demandará aumento de carga tributária. A recomendação da XP é manter a diversificação. Os brasileiros têm apenas 1% a 2% de exposição em ativos internacionais. Correções como a observada são uma boa oportunidade de aumentar essa exposição, respeitando a diversificação entre diferentes classes de ativos, regiões e moedas. Só assim será possível navegar a maior turbulência e volatilidade esperada para 2022.

Em janeiro tivemos uma convergência de situações que fizeram o Brasil se tornar muito atrativo
— Ricardo Balistiero, economista e coordenador do Instituto Mauá de Tecnologia
Essa é a 'análise' mais popular nas rodas de conversas de investidores. É a mais típica, convincente, e errada
— Henrique Bredda, gestor do fundo Alaska, sobre a narrativa de que juros altos do Fed drenam capital do Brasil
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