Fed alivia tensões e café sobe 7,7%; algodão, açúcar e cacau também avançam

Onda de calor na Europa provocou diversos incêndios e matou mais de mil pessoas.
Estamos andando em cima de uma lâmina
Analista de café alerta sobre a fragilidade dos estoques globais e riscos climáticos à safra brasileira.
Mark

Por que o Fed conseguiu aliviar tanto o mercado com um aumento de 0,75 ponto percentual? Isso não é ainda bastante agressivo?

Mimi

É tudo relativo. Os investidores temiam um aumento de 1 ponto percentual ou até mais. Quando o Fed sinalizou algo menor, foi como se dissesse: "Vamos desacelerar um pouco". Isso muda a narrativa de recessão iminente para algo mais controlado.

Luke

Mas espera — o Carvalhaes está dizendo que os estoques de café estão em um terço do nível de um ano atrás. Isso é um fato confirmado pela bolsa de Nova York ou é uma estimativa?

Mimi

É confirmado. Ele cita especificamente 740 mil sacas na última sexta-feira. Isso é um número que a bolsa publica.

Mark

E quanto ao risco climático que ele menciona? Ele está especulando sobre a safra 2023 ou há algo mais concreto?

Mimi

Ele está usando a onda de calor europeia como evidência de que o clima global está instável. Mas é verdade que é uma projeção — ninguém sabe ainda como será a safra brasileira.

Luke

Exatamente. Ele diz "será que o tempo vai ser bom?" — isso é uma pergunta, não uma previsão. E quanto aos mil mortos na Europa — isso é confirmado ou é uma estimativa?

Mimi

A reportagem diz "mais de mil pessoas", então é pelo menos mil. Provavelmente confirmado pelos relatos da época.

Mark

O algodão subiu 4,84% porque o petróleo subiu. Mas se o petróleo cair amanhã, o algodão cai junto?

Mimi

Provavelmente. A dinâmica é que petróleo mais caro torna o etanol mais competitivo, então usinas brasileiras desviam cana para biocombustível. Se o petróleo cair, essa dinâmica se inverte.

Luke

Mas isso é uma correlação que os operadores observam, não uma lei física. Há outros fatores em jogo — demanda global, oferta, especulação.

Mimi

Verdade. A reportagem diz que operadores observam isso, não que é garantido.

Mark

Então no fim das contas, o que mudou realmente? O Fed aliviou, os preços subiram um dia, mas os riscos estruturais continuam os mesmos?

Mimi

Sim. É um respiro, não uma solução. Os estoques continuam baixos, o clima continua imprevisível, o medo de recessão continua lá.

  • Fed sinalizou aumento de juros de 0,75 ponto percentual
  • Café arábica subiu 7,7%, a US$ 2,152 por libra-peso
  • Estoques certificados em Nova York: 740 mil sacas (um terço do nível de um ano antes)
  • Onda de calor na Europa matou mais de mil pessoas

Fed sinalizou aumento de juros de 0,75 ponto percentual, menor do que o temido pelos investidores, aliviando pressões no mercado. Café recuperou perdas da semana anterior; estoques certificados em NY permanecem muito baixos, em apenas um terço dos níveis de um ano atrás.

Sinais do Federal Reserve sobre aumento menor de juros aliviaram tensões financeiras, levando café a subir 7,7%, enquanto algodão, açúcar, cacau e suco de laranja também avançaram.

Na segunda-feira, o Federal Reserve ofereceu ao mercado financeiro exatamente o alívio que os investidores precisavam ouvir. Os sinais vindos do banco central americano sobre a próxima rodada de aumentos de juros — que será de 0,75 ponto percentual, menor do que muitos temiam — abriram espaço para que os preços das commodities agrícolas recuperassem o fôlego. O café arábica, que havia despencado na semana anterior, subiu 7,7% nesta sessão, com os contratos para setembro fechando a US$ 2,152 por libra-peso, um ganho de 1.540 pontos. Algodão, açúcar, cacau e suco de laranja também avançaram, puxados pela mesma onda de otimismo que varreu os mercados.

Mas o analista Eduardo Carvalhaes, especialista em café, vê nessa recuperação algo menos notável do que a queda que a precedeu. A semana anterior havia sido brutal: o café havia perdido cerca de 2 mil pontos, uma retração que Carvalhaes considera o verdadeiro sinal de alerta. O que o preocupa ainda mais é o estado dos estoques certificados pela bolsa de Nova York. Na última sexta-feira, o volume chegava a apenas 740 mil sacas — um terço do que havia um ano antes. Estamos no meio do verão americano, época em que os estoques deveriam estar crescendo em preparação para o inverno, quando o consumo sobe. Em vez disso, os armazéns seguem perigosamente vazios.

Carvalhaes aponta para um cenário climático que adiciona camadas de risco a essa equação já frágil. A onda de calor que varreu a Europa na última semana foi devastadora: incêndios em cascata e mais de mil mortos. Esse tipo de evento climático extremo levanta uma questão incômoda sobre o que esperar da próxima safra brasileira em 2023. Se as condições climáticas não forem favoráveis e a produção prevista não se concretizar, o mercado global de café não terá para onde se virar. "Estamos andando em cima de uma lâmina", resume o analista.

O cacau também subiu com a notícia do Fed, embora de forma mais modesta. Os contratos para setembro avançaram 0,34% (US$ 8 por tonelada), chegando a US$ 2.329 por tonelada, enquanto os papéis para dezembro subiram 0,42% (US$ 10), a US$ 2.366 por tonelada. Mas operadores do mercado reconhecem que o ganho foi contido por uma preocupação maior: o medo de uma recessão global que poderia comprimir a demanda pela amêndoa. Esse receio mantém um teto sobre qualquer valorização mais agressiva.

O açúcar encontrou suporte em um lugar inesperado: o petróleo. Os contratos para outubro fecharam em alta de 0,8%, a 19,41 centavos de dólar por libra-peso, enquanto os papéis para março de 2023 subiram 0,7%, a 19,53 centavos. O barril de Brent, referência internacional, avançava mais de 4% nesta segunda-feira, chegando a US$ 105,31, impulsionado por preocupações com o fornecimento à Europa após sinais da Gazprom de que pode não conseguir atender à demanda. Quando o petróleo sobe, o etanol fica mais competitivo, o que incentiva as usinas brasileiras a desviarem mais cana para a produção de biocombustível em detrimento do açúcar.

O algodão acompanhou essa dinâmica do petróleo. Os contratos para dezembro, os mais negociados em Nova York, fecharam em alta de 4,84% (429 pontos), a 93 centavos de dólar por libra-peso. A commodity havia acumulado quedas significativas nas semanas anteriores, e com a falta de grandes novidades macroeconômicas nesta segunda-feira, os investidores aproveitaram para aumentar suas posições no mercado da pluma. A recuperação, porém, é mais um respiro do que uma reversão de tendência — o algodão continua pressionado pelas mesmas incertezas que afetam todo o complexo de commodities agrícolas.

Estranho não é essa alta, mas a grande queda da semana passada, de cerca de 2 mil pontos
— Eduardo Carvalhaes, analista especializado em mercado de café
Será que o tempo vai ser bom para a safra 2023 do Brasil? Se a produção prevista não se concretizar, o mercado não terá onde buscar café. Estamos andando em cima de uma lâmina
— Eduardo Carvalhaes
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei Valor Econômico ↗
Kontakt FAQ