Ibovespa sobe 1,42% no dia, mas acumula queda de 3% em novembro; riscos fiscais dominam perspectivas para dezembro

O mercado não trabalha com números exorbitantes
Especialista em renda variável comenta a dificuldade do mercado em aceitar os R$ 198 bilhões da PEC da Transição.
Mark

Por que o mercado reagiu tão mal à PEC da Transição, se ela era esperada?

Mimi

Porque o valor — quase R$ 200 bilhões fora do teto de gastos — foi muito além do que o mercado considerava prudente. Lula manteve suas promessas de campanha, mas isso criou um risco fiscal que assusta os investidores.

Mark

E por que a demora em anunciar o ministro da Fazenda importa tanto?

Mimi

Porque é o sinal mais claro do que o governo vai fazer com a economia. Um ministro pró-mercado tranquiliza. Um ministro ideológico assusta. Enquanto não se sabe, ninguém investe com segurança.

Mark

Os estrangeiros e os brasileiros estão vendo a mesma coisa?

Mimi

Não. Os estrangeiros apostaram mais em Lula, mas o mercado interno está muito mais cético. Há uma desconfiança profunda sobre como a equipe econômica vai lidar com os gastos.

Mark

O discurso de Powell realmente muda as coisas aqui?

Mimi

Muda, mas não resolve. Se os juros americanos caem, o Brasil fica mais atrativo para investimento. Mas se o risco fiscal aqui continuar alto, ninguém vem.

Mark

Então dezembro é tudo ou nada?

Mimi

Praticamente. Se o ministro agradar e a PEC for revisada para reduzir os gastos, há espaço para um rali. Se não, a volatilidade continua.

  • A PEC da Transição, com valores próximos a R$ 198 bilhões fora do teto orçamentário, acendeu um sinal de alerta fiscal que derrubou o Ibovespa a quase 107 mil pontos no pior momento de novembro.
  • A demora de Lula em anunciar o futuro ministro da Fazenda gerou ansiedade crescente entre investidores, que oscilam entre esperança e cautela a cada rumor sobre o nome escolhido.
  • O dólar chegou perto de R$ 5,40 durante o mês, pressionado pela incerteza política, antes de recuar a R$ 5,20 nesta quarta com o alívio vindo do discurso dovish de Jerome Powell.
  • Enquanto investidores estrangeiros mantêm expectativas relativamente otimistas sobre o governo do PT, o mercado interno permanece repleto de dúvidas, criando uma divisão que alimenta a volatilidade.
  • Dezembro pode trazer um rali de fim de ano — mas apenas se o nome do ministro da Fazenda agradar ao mercado e se o valor fora do teto for reduzido a patamares considerados aceitáveis.

Ao encerrar novembro com queda acumulada de mais de 3%, o Ibovespa revela a tensão entre a esperança depositada por investidores estrangeiros no novo governo e a desconfiança do mercado interno diante de incertezas fiscais e políticas. O discurso mais brando de Jerome Powell trouxe alívio pontual nesta quarta-feira, elevando o índice 1,42%, mas o ruído em torno da PEC da Transição e a demora na escolha do ministro da Fazenda mantêm o país em compasso de espera. O Brasil entra em dezembro carregando uma pergunta que o mercado ainda não consegue responder: quem conduzirá a política econômica de Lula — e em que direção?

A Bolsa brasileira fechou novembro com um sinal contraditório: alta de 1,42% no último pregão do mês, mas queda acumulada de 3,06% no período. O Ibovespa encerrou a quarta-feira aos 112.486 pontos, impulsionado pelo discurso dovish de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, que sinalizou desaceleração no ritmo de altas de juros nos Estados Unidos. As bolsas americanas reagiram com força, e as empresas de commodities — protagonistas do índice brasileiro — acompanharam o movimento.

Mas o otimismo externo teve vida curta durante o pregão. Lula reuniu-se com Arthur Lira e demonstrou pouca disposição para recuar nos valores da PEC da Transição, que prevê cerca de R$ 198 bilhões fora do teto orçamentário — número que o mercado considera excessivo. O Ibovespa chegou a cair para o campo negativo após o encontro, antes de se recuperar nas horas finais de negociação.

Novembro inteiro foi marcado por essa gangorra. O índice chegou a superar os 120 mil pontos na euforia pós-eleitoral, mas também flertou com os 107 mil nos momentos de maior tensão fiscal. O dólar espelhou esse nervosismo, chegando perto de R$ 5,40 antes de recuar a R$ 5,20 nesta quarta — ainda assim, acumulou alta de 0,68% no mês.

O mercado entra em dezembro com dois gatilhos no radar: o anúncio do ministro da Fazenda e uma eventual revisão da PEC para valores mais compatíveis com a responsabilidade fiscal. Economistas ouvidos pelo mercado são unânimes — a combinação desses dois eventos é o que pode destravar um rali de fim de ano. Sem ela, a volatilidade deve continuar sendo a protagonista.

A Bolsa brasileira terminou a quarta-feira, 30 de novembro, em terreno positivo, com o Ibovespa subindo 1,42% e fechando aos 112.486 pontos. Mas esse ganho do dia mascara uma realidade mais complexa: o índice acumulou queda de 3,06% ao longo de todo o mês, refletindo as turbulências que marcaram novembro desde o resultado das eleições presidenciais. O giro financeiro do pregão foi de R$ 39,9 bilhões.

O otimismo que moveu os mercados nesta quarta veio de fora. Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, proferiu um discurso considerado dovish pelos agentes de mercado, sinalizando que o ritmo de alta de juros nos Estados Unidos deve desacelerar nos próximos meses. As bolsas americanas responderam com força: o Dow Jones avançou 2,18% para 34.589 pontos, o S&P 500 subiu 3,09% para 4.080 pontos, e o Nasdaq ganhou 4,41%, fechando aos 11.468 pontos. Essa perspectiva mais branda para a economia americana reduziu os temores de recessão, o que beneficiou as empresas de commodities — justamente as de maior peso na Bolsa brasileira.

Mas a notícia externa teve impacto limitado aqui no Brasil durante boa parte do dia. O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, reuniu-se com Arthur Lira, vice-presidente da Câmara dos Deputados, e pareceu pouco inclinado a ceder em relação aos valores da chamada PEC da Transição. Lula deseja manter os números que apresentou na proposta para cumprir as promessas de campanha. Segundo Luiz Souza, especialista em renda variável da SVN Investimentos, o presidente eleito quer trabalhar com valores próximos a R$ 198 bilhões — um número que o mercado considera exorbitante e desconectado da realidade. Ao final do encontro, o Ibovespa foi para o terreno negativo.

Nas últimas horas de negociação, porém, o índice deu uma nova guinada. As perspectivas mais positivas para a economia americana ajudaram a recuperação. Novembro como um todo foi marcado pela volatilidade. No pior momento do mês, o Ibovespa quase perdeu os 107 mil pontos. Na melhor fase — a primeira semana após a vitória de Lula — ultrapassou os 120 mil. Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora, observa que os investidores estrangeiros depositaram muito mais expectativa no governo do PT do que o mercado interno, que permanece repleto de dúvidas.

A moeda americana também refletiu essas incertezas. O dólar chegou próximo aos R$ 5,40 em novembro, pressionado pelas dúvidas sobre a futura equipe econômica de Lula e pelos riscos fiscais. Nesta quarta, porém, a moeda americana encerrou o pregão valendo R$ 5,201 na compra e R$ 5,202 na venda, com queda de 1,63% no dia. No mês, o dólar comercial acumulou alta de 0,68%. Dezembro também costuma ser um período em que investidores estrangeiros levam capital de volta para seus países de origem, o que pode pressionar a moeda novamente.

O esperado rali de final de ano enfrenta obstáculos. Daniel Meireles, sócio da HCI Invest, prevê continuidade da alta volatilidade, especialmente com o início das nomeações dos ministérios — em particular, a indicação para o Ministério da Fazenda. Se o nome escolhido tiver um perfil pró-mercado, o Ibovespa pode se recuperar com força. Caso contrário, investidores tendem a reduzir seus riscos, afetando a performance da Bolsa. Marcelo Boragini, sócio da Davos Investimentos, aponta que o presidente eleito desagradou o mercado pela demora em anunciar o futuro ministro da Fazenda, trazendo grande ansiedade aos investidores. A PEC também decepcionou ao elevar demasiadamente o risco fiscal do país.

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, acredita que dezembro tende a ser positivo, tanto pelo viés local quanto internacional. Ela aponta arrefecimento inflacionário nos últimos indicadores macroeconômicos dos Estados Unidos e alguma desaceleração no mercado de trabalho americano, o que traz perspectivas positivas para a política monetária internacional. Com base nisso, investidores ficam mais propensos a migrar para ativos com potencial de retorno mais elevado. As negociações tendem a ser destravadas uma vez que forem divulgados os nomes dos ministros. Se o valor fora do teto de gastos for reduzido a números condizentes com as expectativas do mercado e se o nome do futuro ministro da Fazenda agradar, há chances de um rali na Bolsa. Mas a junção desses dois eventos é primordial para que isso ocorra.

Lula quer manter números que iniciou na PEC para cumprir o que prometeu na campanha, mas é um número bem fora da realidade e que o mercado não trabalha
— Luiz Souza, especialista em renda variável da SVN Investimentos
Se o valor fora do teto for reduzido a números condizentes com o que o mercado espera e se o nome do futuro ministro agradar o mercado, o rali pode acontecer
— Marcelo Boragini, sócio da Davos Investimentos
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