Ibovespa fecha em queda com receios fiscais e registra pior mês desde pandemia

O mercado apresenta características de um fim de ciclo econômico
Gestor de renda variável descreve o ambiente de volatilidade crescente e ganhos mais lentos para as ações.
Mark

Por que setembro foi tão pior que os outros meses do trimestre?

Mimi

Porque os dois medos — o Fed e o teto de gastos — se intensificaram simultaneamente. Powell falou, o mercado reagiu, e aqui dentro a gente ainda estava processando os rumores sobre o auxílio emergencial. Foi um acúmulo.

Mark

Mas o Ibovespa fechou praticamente estável hoje. Como isso é o pior mês desde a pandemia?

Mimi

Porque você não olha para um dia isolado. Olha para o mês inteiro. Hoje foi só o ponto final de uma queda de 6,57% em setembro. A estabilidade de hoje não apaga o que veio antes.

Mark

O que assusta mais os investidores agora — o Fed ou o teto de gastos?

Mimi

Tecnicamente, o Fed. Mas o teto de gastos é o que deixa o investidor sem dormir à noite. O Fed é previsível, segue uma lógica. O teto de gastos é político, é imprevisível. E quando você não consegue prever, você vende.

Mark

A Daycoval já estava reduzindo exposição antes disso tudo?

Mimi

Sim. Eles viram a economia americana se recuperando muito rápido e pensaram: isso vai forçar o Fed a apertar. Então começaram a sair de renda variável e de títulos prefixados. Foram prudentes.

Mark

E agora? O que os gestores fazem?

Mimi

Procuram por defensivos. Empresas com margens altas, pouca dívida, negócios globais. Porque se o ciclo está terminando, você quer estar em um lugar onde o lucro ainda cresce mesmo quando tudo desacelera.

  • Jerome Powell sinalizou ao Congresso americano que o Fed pode retirar estímulos mais rapidamente do que o esperado, derrubando Wall Street e contaminando mercados ao redor do mundo.
  • No Brasil, rumores de que o governo pressiona pela extensão do auxílio emergencial fora do teto de gastos acenderam um alerta fiscal que pesou sobre juros, câmbio e ações ao longo de todo o trimestre.
  • O Ibovespa fechou setembro com queda de 6,57% — seu pior mês desde março de 2020 — e o terceiro trimestre com perdas de 12,48%, destruindo valor em praticamente todos os setores.
  • Gestores já reposicionam carteiras para ativos defensivos: empresas com margens maiores, baixo endividamento e exposição global, diante de um cenário descrito como 'fim de ciclo econômico'.
  • A curva de juros e o comportamento do dólar revelaram que o mercado local reagiu mais ao risco fiscal doméstico do que à política monetária americana — o dólar não arrefeceu quando deveria, se fosse apenas o Fed o culpado.

No último dia de setembro, o Ibovespa encerrou um trimestre marcado por dois temores que se alimentam mutuamente: a perspectiva de retirada mais rápida de estímulos pelo Federal Reserve e a fragilidade fiscal brasileira, com rumores de gastos fora do teto. O índice acumulou perdas de 12,48% no período — o pior desempenho desde o auge da pandemia —, lembrando que mercados não reagem apenas a fatos, mas à antecipação de incertezas que ainda não têm forma definida.

O Ibovespa encerrou setembro aos 110.979 pontos, com queda quase imperceptível de 0,11% no dia — mas o número mascara um trimestre devastador. Em setembro, o índice perdeu 6,57%, seu pior mês desde março de 2020. No acumulado do terceiro trimestre, a destruição chegou a 12,48%.

Dois vetores distintos pressionaram os mercados ao longo do período. Nos Estados Unidos, Jerome Powell reafirmou ao Congresso que o Federal Reserve usará todos os seus instrumentos para conter uma inflação elevada, sinalizando que o tapering pode ser mais veloz do que o esperado. A reação foi imediata: S&P 500, Dow Jones e Nasdaq fecharam em queda. No Brasil, o outro vetor foi fiscal — rumores de que o governo estuda estender o auxílio emergencial fora do teto de gastos alimentaram a desconfiança dos investidores sobre a trajetória das contas públicas.

Entre as ações mais negociadas, o desempenho foi misto: Vale subiu aproveitando a alta do minério na China, enquanto Banco do Brasil e Ambev recuaram com mais força. O volume total movimentado na B3 foi de R$ 35,255 bilhões.

Mauro Rached, da Daycoval, destaca que a política monetária americana é a 'maestrina dos mercados', mas pondera que o Fed pode moderar o ritmo do aperto caso os próprios mercados reajam de forma muito brusca — criando, por si só, um aperto adicional. A gestora já havia reduzido exposição a renda variável e prefixados antecipando a alta nos Treasuries.

Fernando Siqueira, da Infinity Asset, é mais direto sobre o cenário doméstico: o teto de gastos poderia ser um mecanismo de ajuste lento e estruturado, mas o que se vê são apenas manobras para contorná-lo, sem que se saiba o que está sendo colocado no lugar. Diante disso, sua preferência recai sobre empresas defensivas — margens sólidas, baixo endividamento e presença global. Para ele, o mercado já exibe as marcas de um fim de ciclo: alta mais lenta, volatilidade muito maior.

O Ibovespa fechou o pregão de quinta-feira aos 110.979 pontos, praticamente estável com queda de 0,11%, mas o número esconde uma realidade muito mais severa: setembro terminou como o pior mês para o índice desde março de 2020, quando a pandemia ainda era uma incógnita assustadora. No acumulado do mês, as perdas chegaram a 6,57%. No trimestre inteiro, o tombo foi ainda mais profundo: 12,48% de destruição de valor.

Dois medos distintos pressionaram o mercado ao longo de todo o terceiro trimestre, e ambos voltaram à tona nesta quinta. De um lado, as preocupações com a política monetária americana — Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, reafirmou em depoimento ao Congresso que o banco central usará suas ferramentas para controlar uma inflação muito alta, sinalizando que a retirada de estímulos pode ser mais rápida do que o mercado esperava. A fala desencadeou quedas imediatas em Nova York: o S&P 500 caiu 1,19%, o Dow Jones recuou 1,59% e o Nasdaq fechou em baixa de 0,44%. Do outro lado, as questões fiscais brasileiras, especialmente os rumores de que o governo estaria pressionando pela extensão do auxílio emergencial fora do teto de gastos.

O volume financeiro movimentado na B3 foi de R$ 35,255 bilhões. Entre as ações mais líquidas, o desempenho foi misto e revelador. A Vale subiu 0,58%, aproveitando a alta dos preços do minério de ferro na China. A Petrobras caiu 0,58%. Os bancos tiveram comportamentos distintos: Itaú e Bradesco subiram levemente (0,10% e 0,14%, respectivamente), enquanto o Banco do Brasil despencou 1,80% e a Ambev recuou 1,29%.

Mauro Rached, chefe de investimentos da Daycoval, observa que a política monetária americana segue sendo o fator de maior atenção para os agentes financeiros — ela é, em suas palavras, a maestrina dos mercados. Mas há uma nuance importante: o que o Fed diz nem sempre é o que o mercado interpreta que o Fed diz. Embora o banco central tenha sinalizado que o tapering pode terminar no meio de 2022, a velocidade da redução de estímulos pode ser menor, dependendo de como os próprios mercados reagirem. Se uma queda brusca das ações e uma alta nas taxas de juros criarem um aperto monetário adicional, o Fed pode acabar esperando mais antes de apertar ainda mais.

A Daycoval já vinha reduzindo suas recomendações para renda variável e, especialmente, para títulos prefixados, antecipando a perspectiva de alta nas taxas dos Treasuries e seus reflexos nos ativos locais. No cenário doméstico, Fernando Siqueira, gestor de renda variável da Infinity Asset, vê o teto de gastos como um mecanismo que poderia resolver o problema do endividamento público de forma lenta e estruturada. O que se vê agora, porém, são apenas manobras para contorná-lo. "A gente não sabe o que está sendo colocado no lugar, apenas há um esforço de gastar mais", afirma.

Os ativos responderam majoritariamente aos riscos fiscais nesta quinta, reflexo visível na curva de juros. Se a alta nos juros fosse apenas consequência das mudanças na perspectiva de política monetária, o dólar teria arrefecido — mas não foi o que aconteceu. Diante de um cenário mais desafiador para os ativos de risco globalmente, com a retirada de estímulos nos EUA e uma perspectiva de crescimento econômico ruim para o Brasil em 2022, Siqueira prefere ações mais defensivas: empresas com margens de lucro maiores, endividamento baixo e exposição ao mercado global. "O mercado apresenta características de um fim de ciclo econômico, em que as ações sobem de maneira mais lenta e com uma volatilidade bem maior", conclui.

O teto de gastos era uma forma de resolver o problema do endividamento público de uma maneira lenta. Agora o que nós vemos são apenas tentativas de manobras para driblar esse teto.
— Fernando Siqueira, gestor de renda variável da Infinity Asset
O Fed vai fazer um exercício dinâmico. Se houver um aperto monetário adicional de uma queda brusca das ações e de uma alta nas taxas de juros, o Fed pode acabar esperando mais.
— Mauro Rached, chefe do Daycoval Investimentos
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