Ibovespa cede ante risco de aperto monetário ainda mais forte nos EUA

Os ativos de risco devem permanecer pressionados até que a inflação americana se estabilize
Avaliação de especialista sobre o cenário de incerteza que mantém mercados globais sob pressão.
Mark

Por que o mercado brasileiro caiu tão pouco se a inflação americana está em 9%?

Mimi

Porque a Selic já subiu quase tudo que podia. Quando você já fez o dever de casa, a tempestade lá fora não te assusta tanto. Os investidores sabem que o Banco Central brasileiro praticamente terminou seu ciclo de aperto.

Mark

Mas a inflação brasileira também está alta, em 12%. Isso não muda as coisas?

Mimi

Muda, sim. E é o problema. Se a inflação não ceder, o BC pode ser forçado a voltar a apertar em poucos meses. Ninguém acredita que vai ficar parado até o fim de 2023 como prometeu.

Mark

O que a PEC Kamikaze tem a ver com tudo isso?

Mimi

Tudo. Ela abriu a porta para mais gastos públicos — transferências de renda, reajustes — justamente quando o BC tenta controlar a inflação. É como tentar apagar um incêndio enquanto alguém joga gasolina.

Mark

As ações de commodities caíram pouco. Por que?

Mimi

Porque os investidores locais estão apostando em dividendos fartos nos próximos 12 a 24 meses. A Vale caiu só 0,34% porque o mercado acredita que vai ganhar dinheiro com ela, mesmo que a recessão global chegue.

Mark

E os bancos? Por que foram os piores?

Mimi

Porque vivem de juros altos. Com a Selic chegando ao fim de sua subida, o gatilho de compra desaparece. E se a economia desacelera, a inadimplência sobe. É um duplo golpe.

Mark

O Fed pode realmente subir 1 ponto inteiro de uma vez?

Mimi

Ninguém descarta. O Fed está atrás da curva — a inflação em 9% e os juros em 1,75% não fazem sentido. Se a inflação disparar novamente, eles vão apertar com força.

  • Inflação americana atinge 9% em 12 meses, maior nível desde 1981
  • Ibovespa fecha em queda de 0,40%, a 97.881 pontos
  • Selic já completou quase toda sua trajetória de alta, chegando a 13,75% ao ano em agosto
  • Federal Reserve pode elevar juros em 1 ponto na próxima reunião, daqui a duas semanas
  • Inflação brasileira em 12% ao ano sem sinais de arrefecimento

Inflação dos EUA surpreende para cima novamente, atingindo 9% em 12 meses, o maior nível desde 1981, alimentando especulação sobre alta de juros de 1 ponto no próximo encontro do Fed. No Brasil, a Selic já completou quase toda sua trajetória de alta, oferecendo alguma proteção ao mercado local, mas riscos fiscais e inflação persistente podem forçar novo ciclo de aperto.

Inflação americana atinge recorde desde 1981, renovando temores de aperto monetário ainda mais agressivo do Federal Reserve. Ibovespa fecha em queda de 0,40%, pressionado por perspectivas de recessão global.

A inflação americana voltou a surpreender para cima nesta quarta-feira, atingindo 9% em 12 meses — o maior nível desde 1981. O número chegou pela manhã e ecoou por toda a semana nos mercados globais, renovando o temor de que o Federal Reserve, o banco central americano, possa apertar ainda mais a torniquete dos juros. O Ibovespa, que havia começado o dia em leve alta, fechou em queda de 0,40%, a 97.881 pontos, seu menor nível desde 4 de novembro. Na semana, as perdas acumuladas chegaram a 2,40%.

O mercado ainda guarda na memória fresca o susto anterior. Quando a inflação americana disparou antes, o Fed havia preparado um aumento de meio ponto percentual nos juros, mas acelerou o passo e subiu 0,75 ponto de uma vez. Agora, especulações apontam para uma possível elevação de 1 ponto inteiro na próxima reunião, daqui a duas semanas. "O Fed está claramente atrás da curva e a possibilidade da elevação de 1 ponto no próximo encontro não pode ser descartada. Não é impossível", afirma Alexandre Póvoa, sócio da Meta Asset Management. O Banco Central do Canadá já deu o exemplo nesta mesma quarta, saltando sua taxa básica de 1,5% para 2,5%.

A ata da última reunião do Fed reforçou esse cenário. O documento deixa claro que a autoridade monetária americana não hesitará em adotar uma política "ainda mais restritiva" caso novos saltos inesperados da inflação ocorram. Os juros americanos estão atualmente em 1,75% e podem chegar a algo em torno de 4% ao ano antes do ciclo de alta terminar. Mas há um problema: com a inflação em 12 meses já na casa dos 9%, manter juros tão baixos não faz muito sentido. "Não adianta falar em política restritiva com os juros americanos baixos como ainda estão, enquanto a inflação em 12 meses já está na casa dos 9%", alerta Póvoa. "Os ativos de risco e as commodities deverão continuar pressionados até que essa inflação americana ao menos se estabilize."

O chamado Livro Bege, publicado pelo Fed oito vezes ao ano, reforçou os sinais de resistência inflacionária. O documento relata aspectos econômicos que guiam as decisões sobre juros, e dos 12 distritos pesquisados, todos acusaram aumentos substanciais de preços. Mesmo cinco deles relatando queda na demanda, a pressão inflacionária persiste. O culpado principal é o mercado de trabalho: com muitas vagas e pouca mão de obra, os salários sobem, e os empregadores repassam esses custos aos preços finais. A economia americana segue crescendo acima de suas próprias capacidades, e o Fed tenta resfriar essa temperatura. Mas há risco: se apertar demais, a maior economia do mundo pode começar a encolher em 2023.

No Brasil, a situação é diferente. A Selic já completou quase toda sua trajetória de alta iniciada em março de 2021, quando estava em 2%. Investidores contam com o fim da elevação para agosto, quando chegará a 13,75% ao ano. Essa perspectiva tem ajudado a conter a pressão de baixa na bolsa brasileira. Mas há uma sombra: a inflação brasileira está em 12% ao ano e não dá sinais de arrefecimento. Se ela não ceder, o Banco Central pode ser forçado a revisar seus planos e iniciar um novo ciclo de aperto em poucos meses, em vez de manter a Selic parada até o fim de 2023 para depois cortar. A aprovação da PEC Kamikaze e novos furos no teto de gastos — com uma nova rodada de programas de transferências de renda vindo aí — não ajudam. Ninguém confia que esses gastos não serão prorrogados para 2023 em diante.

Apesar dos riscos globais, o apetite local por ações ofereceu alguma proteção. As ações de exportadoras ligadas a commodities tiveram perdas limitadas. A Vale caiu apenas 0,34%, e as siderúrgicas se saíram melhor — a CSN subiu 0,91%, podendo se beneficiar da fraqueza da produção na China. A Petrobras ON subiu 0,43% e a PN subiu 0,07%, mas a PetroRio caiu 2,92% e a 3R Petroleum caiu 5,55%. A maior pressão veio dos bancos. Com o fim da alta de juros se aproximando no Brasil, o principal gatilho de compra para ações do setor desaparece. A tese era que a inflação poderia comer solta, mas com crédito mais caro, as receitas não faltariam. Porém, a inadimplência pode solapar esses ganhos se a economia nacional acompanhar a desaceleração global. O Bradesco PN caiu 2,28%.

Ações ligadas ao ciclo doméstico tiveram alguma recuperação após a disparada do pregão anterior. A Natura & Co subiu 2,93%, a Petz subiu 1,14%, a Localiza subiu 2,26%, e as Lojas Renner — apontadas por gestores como muito abaixo do preço-justo — subiram 1,74%. Na construção, a MRV ganhou 1,31%. Das 90 ações do Ibovespa, 63 caíram. O volume total negociado foi de R$ 16 bilhões. No câmbio, o dólar à vista caiu 0,60%, a R$ 5,41, com realização de lucros após a aprovação da PEC ter estancado a generosidade pré-eleitoral com dinheiro público. Na renda fixa, as taxas de DI para janeiro de 2023 subiram de 13,859% a 13,88%, refletindo expectativas sobre a Selic, enquanto as taxas para janeiro de 2033 cederam de 13,16% a 13,09%, mostrando maior influência do risco fiscal do governo no longo prazo.

O Fed está claramente atrás da curva e a possibilidade da elevação de 1 ponto no próximo encontro não pode ser descartada
— Alexandre Póvoa, sócio da Meta Asset Management
Os ativos de risco e as commodities deverão continuar pressionados até que essa inflação americana ao menos se estabilize
— Alexandre Póvoa, sócio da Meta Asset Management
Quer a matéria completa? Leia o original em Valor Investe ↗
Fale Conosco FAQ