Índice brasileiro recua apesar de reduzir perdas; mercados americanos caem com Treasuries em patamares máximos desde 2020. Mercado precifica 70% de chance de aumento de 0,25 ponto percentual na taxa de juros americana em março, impactando bolsas globais.
Ibovespa cai com foco em juros dos EUA; mercado externo pressiona bolsa
O custo de capital sobe e o crescimento desacelera
Por que os juros americanos têm tanto poder sobre a bolsa brasileira?
Porque quando os juros nos EUA sobem, o dinheiro que poderia estar em ações brasileiras migra para títulos americanos, que se tornam mais atraentes. Além disso, as empresas aqui ficam com capital mais caro para se financiar.
E por que o mercado começou a acreditar que o Fed vai subir juros em março?
A inflação americana não está caindo, e os dados de emprego saíram fortes. Quando a economia está aquecida e a inflação alta, o banco central precisa apertar. O mercado apenas antecipou o óbvio.
Os analistas do Itaú parecem pessimistas com 2022.
Eles estão sendo realistas. Se o custo de capital sobe e o crescimento econômico desacelera, os lucros das empresas caem. É matemática, não pessimismo.
Mas houve ganhos em setores específicos, como proteína.
Sim, porque o JPMorgan viu números muito bons para JBS e Marfrig no trimestre passado. Quando há notícia positiva sobre lucros, a ação sobe mesmo em dia ruim de mercado.
A declaração de Bolsonaro sobre servidores ajudou?
Marginalmente. O mercado viu como um sinal de contenção fiscal, mas é pouco diante da pressão externa. É como tentar segurar uma porta enquanto um furacão bate do outro lado.
O que esperar nos próximos dias?
Tudo depende do que o Fed sinalizar. Se confirmar aperto de juros, a pressão continua. Se houver alguma flexibilização no discurso, talvez o mercado respire.
Der Puls
- Ibovespa caiu 0,29% a 102.422,90 pontos nesta segunda-feira
- Mercado precifica 70% de chance de aumento de 0,25 ponto percentual na taxa de juros americana em março
- Analistas do Itaú BBA projetam Ibovespa em 115 mil pontos para o final de 2022
- Projeção de crescimento do PIB brasileiro reduzida de 0,36% para 0,28%
Índice brasileiro recua apesar de reduzir perdas; mercados americanos caem com Treasuries em patamares máximos desde 2020. Mercado precifica 70% de chance de aumento de 0,25 ponto percentual na taxa de juros americana em março, impactando bolsas globais.
O Ibovespa caiu 0,29% nesta segunda-feira, pressionado pela expectativa de elevação de juros nos EUA e alta dos rendimentos dos Treasuries, afetando a liquidez global e o custo de capital das empresas.
A bolsa brasileira fechou segunda-feira em terreno negativo, cedendo 0,29% e encerrando o pregão aos 102.422,90 pontos. O movimento refletia menos uma fraqueza interna do que uma onda de cautela que varria os mercados globais — especialmente Wall Street, onde os investidores começavam a precificar com seriedade a possibilidade de que o Federal Reserve elevasse as taxas de juros americanas mais cedo e com mais agressividade do que se imaginava semanas atrás.
O gatilho para essa mudança de humor foi duplo. Na semana anterior, a ata da última reunião do Fed havia revelado um tom mais duro da instituição diante da inflação que não cedia. Depois, na sexta-feira, os dados do mercado de trabalho americano confirmaram a força da economia — exatamente o tipo de notícia que, em contexto inflacionário, acelera as apostas em aperto monetário. O resultado era visível nos rendimentos dos Treasuries de dez anos, que subiram para o maior nível desde o início de 2020. Os operadores agora precificavam uma probabilidade superior a 70% de que a taxa de juros americana subisse 0,25 ponto percentual já em março.
Essa dinâmica externa pressionava a bolsa brasileira de forma direta. Quando os juros americanos sobem, o capital global se torna mais caro e flui para ativos de menor risco — tipicamente títulos do Tesouro americano. Simultaneamente, o custo de capital para as empresas em todo o mundo aumenta, reduzindo a atratividade das ações. O Ibovespa, apesar de ter recuperado parte das perdas ao longo da sessão, não conseguiu escapar dessa corrente. No pior momento do dia, o índice havia caído até 101.730,87 pontos. O volume financeiro movimentado foi de 5,4 bilhões de reais.
Dentro da bolsa, o movimento foi desigual. A Intermédica liderava as quedas, enquanto a JBS se destacava entre os ganhos. No setor de mineração, as ações reverteram quedas iniciais mais acentuadas após as companhias anunciarem paralisações nas operações em Minas Gerais devido a chuvas intensas — notícia que, paradoxalmente, oferecia algum alívio aos preços das ações, já que reduzia a oferta de minério. A Vale caía 0,1%, a CSN avançava 3,7%, e a Usiminas subia 2,2%. No petróleo, a Petrobras PN recuava 0,2%, enquanto a ON subia 0,1%, com o barril operando perto da estabilidade conforme problemas de oferta no Cazaquistão e na Líbia compensavam temores sobre a propagação da variante Ômicron.
No segmento de proteína, analistas do JPMorgan projetavam resultados surpreendentemente fortes para JBS e Marfrig no quarto trimestre de 2021, elevando suas projeções financeiras e observando que os preços nos EUA teriam se mantido bem acima das médias históricas. A JBS ON avançava 2,8% e a Marfrig ON subia 2%. No setor de saúde, a situação era mais sombria: Qualicorp caía 4,1%, Hapvida cedia 1,7%, Intermédica recuava 1,7%, e SulAmérica tinha queda de 2,4% após o Credit Suisse cortar seu preço-alvo de 33,95 reais para 20 reais. Fintechs e varejistas também sofriam, com Inter Unit recuando 4,4%, Méliuz caindo 3,1%, Totvs cedendo 2,2%, Magazine Luiza caindo 3,4%, Via recuando 2,2%, e Americanas caindo 0,5%.
No contexto doméstico, havia um pequeno alívio fiscal. O presidente Jair Bolsonaro havia declarado que não estariam garantidos reajustes a nenhuma categoria de servidores públicos — uma sinalização que, aos olhos do mercado, oferecia alguma contenção nas despesas do governo. Mas esse conforto era marginal diante das pressões externas.
Os analistas do Itaú BBA, incluindo Marcelo Sá, já sinalizavam que 2022 seria um ano desafiador para a bolsa. Sua projeção era de que o Ibovespa fechasse o ano em 115 mil pontos — abaixo da meta de 120 mil pontos que havia sido estabelecida para 2021. O raciocínio era claro: o aumento nos juros globais elevaria o custo de capital das empresas, enquanto um cenário macroeconômico mais desafiador pressionaria os lucros por ação. A pesquisa Focus do Banco Central, divulgada na semana, reforçava essa visão ao elevar a projeção para a taxa Selic em 2022 de 11,50% para 11,75%, enquanto reduzia a expectativa de crescimento do PIB de 0,36% para 0,28%. O Ibovespa vinha de duas sessões consecutivas de alta, mas a primeira semana do ano ainda assim havia fechado em queda — um sinal de que a volatilidade e a incerteza permaneciam como marcas do mercado.
Bemerkenswerte Zitate
Analistas do Itaú BBA projetam um ano difícil para o Ibovespa, com impacto negativo do maior custo de capital e menor lucro por ação em cenário macroeconômico mais desafiador— Marcelo Sá e equipe do Itaú BBA