Emprego forte nos EUA pressiona Ibovespa, que cai com dúvidas sobre juros

O payroll veio absurdamente forte, mudando completamente o cenário de juros
Estrategista avalia o impacto do relatório de emprego americano sobre as expectativas de corte de juros.
Mark

Por que um relatório de emprego forte nos EUA derruba a bolsa brasileira? Não deveria ser bom para a economia global?

Mimi

Parece contraintuitivo, mas é assim que funciona. Um emprego forte significa que o Federal Reserve não tem pressa em cortar juros. Juros americanos mais altos atraem dinheiro para títulos do Tesouro, longe de mercados emergentes como o Brasil.

Mark

Então o mercado estava apostando em cortes de juros?

Mimi

Exatamente. Havia esperança de que o Fed começasse a reduzir em maio. Esse payroll forte eliminou essa possibilidade. Agora a chance de corte em maio não está mais garantida.

Mark

E a Vale? Por que ela cai junto?

Mimi

A Vale depende da demanda chinesa por minério de ferro. Se o crescimento americano fica mais longo — porque juros altos desaceleram a economia — a China também sofre. É um efeito dominó.

Mark

Mas a produção industrial brasileira subiu. Isso não ajuda?

Mimi

Ajuda, mas é local. O que move a bolsa hoje é o que acontece em Nova York e em Pequim. Um dado positivo no Brasil não compensa a pressão externa.

Mark

Então o mercado está esperando o quê agora?

Mimi

Aguarda a decisão do conselho da Vale sobre o presidente, e principalmente, sinais mais claros do Federal Reserve. Se houver qualquer indicação de que os juros cairão mais cedo, o Ibovespa recupera.

  • O payroll americano de janeiro surpreendeu com força rara — 353 mil vagas, quase o dobro da previsão —, derrubando qualquer esperança de corte de juros pelo Fed em março e lançando dúvidas sobre maio.
  • A probabilidade de manutenção dos juros americanos em março disparou para 78,5%, e os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA avançaram, pressionando a saída de capital de mercados emergentes como o Brasil.
  • O Ibovespa reverteu a alta inicial e recuou para os 127 mil pontos, acumulando queda semanal de 1,30% após um janeiro que já havia encerrado com perda de 4,80%.
  • A Vale aprofundou as perdas com a queda do minério de ferro na China e a incerteza política sobre o futuro do presidente Eduardo Bartolomeo, cujo destino no cargo permaneceu indefinido após reunião extraordinária do conselho.
  • Em meio à pressão, a produção industrial brasileira de dezembro subiu 1,1%, atingindo o teto das expectativas e oferecendo um raro sinal positivo no front doméstico.

Em uma sexta-feira marcada pela tensão entre dados e expectativas, o mercado de trabalho americano revelou uma vitalidade que poucos antecipavam — 353 mil vagas criadas em janeiro, quase o dobro do previsto —, e esse excesso de força tornou-se, paradoxalmente, um peso para os mercados emergentes. O Ibovespa, que havia começado o dia em alta, recuou para a faixa dos 127 mil pontos, carregando consigo a incerteza sobre quando o Federal Reserve decidirá, afinal, iniciar o ciclo de corte de juros. O Brasil sente, uma vez mais, que o ritmo da economia americana define o compasso dos seus próprios mercados.

A bolsa brasileira abriu a sexta-feira em alta, chegando a 128.878 pontos, mas não resistiu ao impacto do relatório de emprego americano. O payroll de janeiro revelou a criação de 353 mil vagas — quase o dobro da previsão de 195 mil —, com taxa de desemprego em 3,7% e salários crescendo acima do esperado. Dezembro também foi revisado para cima, de 216 mil para 333 mil postos. O conjunto de dados redesenhou completamente o cenário monetário nos Estados Unidos.

O Federal Reserve já havia descartado um corte em março, mas o payroll robusto passou a colocar em dúvida até mesmo uma redução em maio. Na plataforma CME Group, a probabilidade de manutenção dos juros em março subiu para 78,5%. Estrategistas e analistas foram categóricos: os números vieram fortes em todas as frentes, eliminando qualquer perspectiva realista de alívio monetário no curto prazo.

O efeito cascateou para o Brasil. Com os rendimentos dos títulos americanos em alta, investidores tendem a migrar de mercados emergentes para ativos mais seguros, e o Ibovespa sentiu esse movimento — recuando para a faixa dos 127 mil pontos e acumulando queda semanal de 1,30%, após um janeiro que já havia encerrado com recuo de 4,80%.

A Vale concentrou as maiores pressões do dia. Suas ações caíram 1,16%, pressionadas pela queda de 2,23% no contrato futuro do minério de ferro na Dalian Commodity Exchange, que fechou a 941 yuans por tonelada. As incertezas sobre o ritmo de crescimento da China pesaram sobre a mineradora, que ainda enfrentou ruídos políticos: o conselho extraordinário da empresa se reuniu para deliberar sobre a permanência do presidente Eduardo Bartolomeu no cargo, mas encerrou o encontro sem decisão final — o que tende a amplificar a volatilidade das ações nos próximos dias. A Petrobras, em contraste, emergiu como o principal destaque positivo da sessão.

No cenário doméstico, a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE trouxe um alento: a produção industrial de dezembro cresceu 1,1% em relação a novembro, atingindo o teto das expectativas. O dado oferece algum suporte a ações ligadas ao consumo, mas não foi suficiente para mudar o tom defensivo de um mercado que aguarda, com crescente impaciência, sinais mais claros sobre os próximos passos do Federal Reserve.

A bolsa brasileira começou a sexta-feira em terreno positivo, subindo 0,31% e alcançando os 128.878,43 pontos, mas não conseguiu sustentar o ganho. Ao longo do pregão, o Ibovespa recuou para a faixa dos 127 mil pontos, refletindo uma reversão que tem origem clara: o mercado de trabalho americano apresentou números muito mais robustos do que o esperado, e isso muda completamente o cenário para os juros nos Estados Unidos.

O relatório de emprego dos EUA, conhecido como payroll, mostrou a criação de 353 mil vagas em janeiro — quase o dobro da previsão de 195 mil. A taxa de desemprego permaneceu em 3,7%, abaixo da expectativa de 3,8%. Os salários também surpreenderam para cima: crescimento de 0,55% na margem mensal contra previsão de 0,3%, e aumento de 4,48% na comparação anual, superando a expectativa de 4,1%. Dezembro também foi revisado para cima, passando de 216 mil para 333 mil postos gerados. Trata-se de um conjunto de dados que reforça a força do mercado de trabalho americano em todas as frentes.

Essa força tem uma consequência direta para as expectativas de política monetária. O Federal Reserve havia descartado na semana anterior qualquer possibilidade de corte de juros em março, mas o payroll forte agora coloca em dúvida até mesmo um corte em maio. Na plataforma CME Group, a probabilidade de manutenção dos juros em março subiu para 78,5% após a divulgação dos dados. Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus, resumiu o impacto: o payroll veio absurdamente forte, mudando completamente o cenário de juros e eliminando qualquer possibilidade realista de redução em março, enquanto coloca em xeque a chance de redução em maio. Larissa Quaresma, analista da Empiricus Research, reforçou que os números vieram fortes em todas as linhas, com a geração de vagas quase dobrando o estimado, e que isso representa um sinal bem negativo para o processo de corte de juros nos Estados Unidos.

O impacto cascateia para o Brasil. O Ibovespa acumula queda semanal de cerca de 1,30%, e janeiro já havia fechado com recuo de 4,80%. A desvalorização reflete não apenas a desaceleração dos índices futuros em Nova York, mas também o avanço dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano — quando os juros americanos sobem, investidores tendem a sair de mercados emergentes em busca de retornos mais seguros.

A Vale, maior empresa de mineração do país, sofre pressão adicional. Suas ações caíram 1,16% no horário do fechamento, pressionadas pela queda do minério de ferro na China. O contrato mais negociado do minério de ferro no mercado futuro da Dalian Commodity Exchange, para maio de 2024, fechou em queda de 2,23%, cotado a 941 yuans por tonelada, equivalente a US$ 131,05. Jansen Costa, sócio fundador da Fatorial Investimentos, apontou que o principal problema é a China e as incertezas com o ritmo de crescimento da economia, com o minério de ferro tendo relevância crucial para a Vale. Além disso, há uma visão desfavorável para a empresa em meio aos ruídos políticos recentes, apesar do aumento na produção da mineradora no quarto trimestre.

A situação da Vale ganhou ainda mais relevância nesta sexta-feira porque o conselho extraordinário da empresa se reuniu para avaliar se o presidente Eduardo Bartolomeo permaneceria no cargo. De acordo com apurações, a expectativa era que o encontro terminasse sem decisão final, o que pode elevar ainda mais os ruídos em torno do assunto e amplificar a volatilidade das ações. Enquanto isso, a Petrobras emergiu como o grande destaque positivo do dia, oferecendo algum contrapeso à fraqueza da mineradora.

No front doméstico, houve uma nota positiva. A Pesquisa Industrial Mensal divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostrou que a produção industrial de dezembro subiu 1,1% em relação a novembro, atingindo o teto das expectativas. Essa expansão pode servir de amparo a algumas ações ligadas ao consumo na bolsa, oferecendo alguma sustentação em um dia de pressão externa significativa. Mas o tom geral permanece defensivo, com o mercado aguardando sinais mais claros sobre quando — e se — o Federal Reserve finalmente começará a reduzir os juros.

O payroll veio absurdamente forte. É impressionante a força do mercado do trabalho lá nos EUA. Muda completamente o cenário de juros.
— Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus
Veio forte em todas as linhas, como resultado da geração de vagas ficando quase o dobro do estimado pelo mercado. E tudo isso já em janeiro, é um sinal bem negativo para o processo de corte de juros nos Estados Unidos.
— Larissa Quaresma, analista da Empiricus Research
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