Nos mercados financeiros, a política raramente pede licença antes de entrar. Na última sexta-feira, a simples indicação de Flávio Bolsonaro como possível candidato presidencial em 2026 foi suficiente para transformar um dia de recorde histórico no Ibovespa em sua maior queda desde 2021 — um lembrete de que o capital, antes de qualquer coisa, busca previsibilidade. O mercado não votou contra um nome; votou contra a incerteza que ele representa.
Ibovespa cai 4,31% após indicação de Flávio Bolsonaro; dólar sobe a R$ 5,43
O mercado não vota por ideologia, vota por previsibilidade
Por que o mercado reagiu tão mal à indicação de Flávio Bolsonaro? Não é apenas uma questão de preferência política?
Não é. O mercado não vota por ideologia. Ele vota por previsibilidade. Um candidato com rejeição alta e dificuldade para crescer além de sua base significa um segundo turno incerto, e isso torna impossível prever qual agenda econômica vai prevalecer.
Mas Tarcísio de Freitas é realmente tão mais competitivo?
Aos olhos do mercado, sim. Ele é visto como alguém com maior capacidade de ampliar apoio além da direita tradicional. Isso reduz a incerteza sobre o resultado final.
E se a esquerda vencer de qualquer forma?
Aí entra o segundo ponto que os analistas levantaram: a importância de ter maioria no Congresso. Lula e Bolsonaro governaram sem isso. Temer teve maioria e avançou mais na agenda fiscal. O mercado quer um presidente que consiga governar, independentemente de qual seja.
A queda de 4,31% é desproporcional a uma indicação de candidato?
Não, quando você considera que o índice havia batido recorde histórico horas antes. O mercado estava precificando otimismo. A notícia reverteu isso tudo. É o tipo de movimento que acontece quando a incerteza política sobe de repente.
Os dados de inflação não ajudaram a conter a queda?
Não conseguiram. A inflação está sob controle, sim, mas a incerteza sobre quem vai governar e como vai governar é mais forte que um dado econômico positivo de curto prazo.
O Pulso
- O Ibovespa abriu o dia batendo recorde histórico de 165 mil pontos e fechou em queda de 4,31% — uma reversão brutal provocada por um único anúncio político.
- A indicação de Flávio Bolsonaro como candidato presidencial acendeu o alerta dos investidores, que veem no governador Tarcísio de Freitas o nome mais competitivo e previsível para a direita.
- Analistas apontam rejeição elevada e base eleitoral estreita como os principais riscos do candidato, o que aumenta a chance de um segundo turno desfavorável e reduz a clareza sobre qual agenda econômica prevalecerá.
- O dólar fechou a R$ 5,43, maior valor desde outubro, enquanto apenas quatro ações resistiram à onda de vendas — Suzano, Weg, Braskem e Klabin.
- Dados de inflação no Brasil e nos EUA foram processados ao longo do dia, mas não tiveram força suficiente para conter o movimento de cautela desencadeado pela incerteza eleitoral.
Nos mercados financeiros, a política raramente pede licença antes de entrar. Na última sexta-feira, a simples indicação de Flávio Bolsonaro como possível candidato presidencial em 2026 foi suficiente para transformar um dia de recorde histórico no Ibovespa em sua maior queda desde 2021 — um lembrete de que o capital, antes de qualquer coisa, busca previsibilidade. O mercado não votou contra um nome; votou contra a incerteza que ele representa.
A sexta-feira começou como um dia histórico para a bolsa brasileira. O Ibovespa tocou 165.035 pontos pela manhã, um novo recorde. Mas o dia não terminaria assim. A notícia de que Jair Bolsonaro teria indicado seu filho Flávio como candidato à presidência em 2026 inverteu o humor do mercado de forma imediata. Ao fechar, o índice havia caído 4,31%, encerrando em 157.369 pontos — a maior queda percentual desde fevereiro de 2021. O dólar subiu 2,29%, chegando a R$ 5,43, seu maior valor de encerramento desde outubro. Apenas quatro ações subiram no dia.
A explicação dos estrategistas é direta: o mercado tem preferência clara por Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, por considerá-lo mais competitivo eleitoralmente e mais previsível do ponto de vista econômico. Ricardo Pompermaier, da Davos Investimentos, explicou que Flávio Bolsonaro é visto como um candidato com alta rejeição e pouca capacidade de ampliar sua base para além do eleitorado já convicto. Isso reduz a competitividade da direita e aumenta a incerteza sobre qual agenda econômica prevalecerá no próximo governo — e é exatamente essa incerteza que os investidores precificam.
Gustavo Cruz, da RB Investimentos, foi além e levantou uma questão estrutural: independentemente do vencedor, governos sem maioria consolidada no Congresso tendem a travar reformas fiscais. Ele citou Michel Temer como exemplo positivo de gestão com apoio parlamentar, em contraste com os governos Bolsonaro e Lula, que enfrentaram dificuldades por falta dessa base.
Enquanto isso, dados econômicos de ambos os lados do Atlântico circulavam pelo mercado. Nos EUA, o índice PCE — medida de inflação preferida do Federal Reserve — veio levemente acima do esperado, mas analistas não veem impacto nas apostas de corte de juros pelo Fed. No Brasil, o IGP-10 de novembro registrou queda acumulada de 0,44% em 12 meses, o primeiro recuo nessa base desde abril de 2024. Os números sugeriam inflação sob controle — mas não foram suficientes para segurar a onda de vendas desencadeada pela política.
A bolsa de valores brasileira viveu uma sexta-feira de volatilidade extrema. Pela manhã, o Ibovespa havia tocado um novo recorde histórico, atingindo 165.035,97 pontos. Mas o dia mudaria de rumo. Ao fechar, o índice despencou 4,31%, terminando em 157.369,36 pontos — a maior queda percentual desde 22 de fevereiro de 2021, quando caiu 4,87%. O dólar, por sua vez, subiu 2,29%, fechando cotado a R$ 5,4318, seu maior valor de encerramento desde 16 de outubro.
O gatilho para essa reversão foi a notícia de que Jair Bolsonaro teria indicado seu filho, Flávio Bolsonaro, como candidato à presidência em 2026. A reação do mercado foi imediata e negativa. Investidores têm como favorito para a disputa o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas — uma preferência que reflete cálculos sobre viabilidade eleitoral e previsibilidade econômica. Apenas quatro ações subiram no dia: Suzano, Weg, Braskem e Klabin. O resto do mercado vendeu.
Ricardo Pompermaier, estrategista-chefe da Davos Investimentos, explicou o movimento. Segundo ele, analistas enxergam em Flávio Bolsonaro um nível de rejeição elevado e dificuldade para ampliar sua base para além do eleitorado já alinhado à direita. Isso importa porque reduz a competitividade da direita e aumenta a chance de um segundo turno menos favorável para esse grupo. "Quando o mercado identifica um candidato com baixa capacidade de crescimento, costuma aumentar a cautela, não necessariamente por preferência política, mas porque isso reduz a previsibilidade sobre qual agenda econômica pode prevalecer no próximo governo", afirmou.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, foi direto: o mercado financeiro entende que Flávio Bolsonaro não seria um candidato competitivo para 2026. Cruz também levantou uma questão estrutural. Independentemente de quem vencer as eleições, seria importante ter um governo com apoio de maioria consolidada no Congresso para haver avanços na sustentabilidade das contas públicas. "Boa parte do governo Bolsonaro e todo o Lula foi sem apoio majoritário do Congresso, e isso prejudicou muito o avanço fiscal. Michel Temer governou com maioria, e a situação melhorou muito com ele", observou.
Na sexta-feira, o mercado também processava dados econômicos de ambos os lados do Atlântico. Nos Estados Unidos, o índice de preços de gastos com consumo (PCE) avançou 0,3% em setembro ante agosto, e 2,8% na comparação anual. Analistas esperavam acréscimo mensal de 0,2% e avanço anual de 2,8%. O PCE é a medida de inflação preferida do Federal Reserve. Apesar de vir um pouco acima do esperado, Pedro Cutolo, estrategista da ONE Wealth Management, não vê isso alterando as apostas de um novo recuo de 0,25 ponto porcentual nos juros pelo Fed na semana seguinte.
No Brasil, a Fundação Getulio Vargas divulgou o Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) de novembro. O IGP-DI subiu 0,01% no mês passado, após ter recuado 0,03% em outubro. Mas o acumulado em 12 meses mostrou queda de 0,44% — o primeiro declínio nessa base de comparação desde abril de 2024, quando havia caído 2,32%. Os números sugerem uma inflação sob controle, mas não foram suficientes para conter a venda de ações provocada pela incerteza política.
Citações Notáveis
Quando o mercado identifica um candidato com baixa capacidade de crescimento, costuma aumentar a cautela, não necessariamente por preferência política, mas porque isso reduz a previsibilidade sobre qual agenda econômica pode prevalecer— Ricardo Pompermaier, estrategista-chefe da Davos Investimentos
Michel Temer governou com maioria, e a situação melhorou muito com ele. O ideal seria que o Brasil elegesse um presidente e um Congresso que o apoie— Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos