Nas águas de Trieste, um veleiro de 143 metros permanece imóvel há quase cinco anos — não por abandono, mas por decreto. O Sailing Yacht A, pertencente ao oligarca russo Andrey Melnichenko, foi congelado em 2022 como resposta à invasão da Ucrânia, transformando-se num símbolo paradoxal das sanções internacionais: um bem retido que, ao ser preservado, consome diariamente 24 mil euros dos cofres públicos italianos. A história deste veleiro é, no fundo, a história de como a geopolítica se instala nos portos e cobra o seu preço em silêncio.
Iate de oligarca russo custa 24 mil euros por dia à Itália em congelamento
Tornou-se uma presença habitual no nosso golfo, faz parte da nossa paisagem natural
Como é que um iate acaba por custar 24 mil euros por dia a um país inteiro?
Porque não pode ser deixado a deteriorar-se. Se um veleiro desta dimensão ficar sem manutenção, sofre danos irreversíveis em poucos meses. Então Itália tem de manter uma tripulação permanente, sistemas de climatização, vigilância.
Mas quem decidiu que Itália tinha essa obrigação? Não podia simplesmente deixá-lo apodrecer?
Não, porque se as sanções forem levantadas — e as sanções podem ser levantadas — Itália tem de devolver o iate nas mesmas condições em que o encontrou. É congelamento, não confisco.
E quanto aos quadros impressionistas lá dentro? Quem paga pela conservação deles?
Também Itália. Encontraram oito quadros e várias pinturas dos séculos XVII e XVIII. Precisam de espaços climatizados. É tudo responsabilidade do Estado.
Espera — o iate vale 300 milhões de euros e já custou 40 milhões em manutenção. Não há um ponto em que deixa de fazer sentido economicamente?
Há. Se Melnichenko não pagar os custos, Itália pode vender o iate em leilão. Potencialmente recupera tudo e ainda fica com lucro.
Mas ele vai pagar?
Ninguém sabe. Ele vive entre a Suíça e os Emirados Árabes Unidos. O iate está congelado há quase cinco anos.
E a revisão obrigatória que vem aí antes de janeiro? Quanto custa?
Vários milhões. Os estaleiros de Génova e Trieste estão a disputar o trabalho.
Então o custo vai continuar a subir.
Sim. E enquanto isso, o veleiro é parte da paisagem de Trieste. As pessoas já se habituaram a procurá-lo no horizonte.
Il Polso
- Desde março de 2022, o Estado italiano gasta cerca de 24 mil euros por dia para manter um iate que não lhe pertence e que não pode usar.
- O custo acumulado já ultrapassa os 40 milhões de euros, e uma revisão obrigatória de vários milhões está prevista para antes de janeiro — sem qualquer garantia de reembolso imediato.
- Melnichenko transferiu a propriedade do iate para a mulher dois dias antes da apreensão, numa manobra jurídica que os tribunais europeus acabaram por considerar insuficiente para afastar as sanções.
- A Itália caminha para um impasse: se o oligarca não pagar os custos acumulados, o Estado pode leiloar o veleiro avaliado em 300 milhões de euros — potencialmente saindo a ganhar.
- Enquanto o Sailing Yacht A fica preso em Trieste, o segundo iate de Melnichenko navega livremente sob bandeira malaia, atracado nas Maldivas.
Nas águas de Trieste, um veleiro de 143 metros permanece imóvel há quase cinco anos — não por abandono, mas por decreto. O Sailing Yacht A, pertencente ao oligarca russo Andrey Melnichenko, foi congelado em 2022 como resposta à invasão da Ucrânia, transformando-se num símbolo paradoxal das sanções internacionais: um bem retido que, ao ser preservado, consome diariamente 24 mil euros dos cofres públicos italianos. A história deste veleiro é, no fundo, a história de como a geopolítica se instala nos portos e cobra o seu preço em silêncio.
Um veleiro de três mastros permanece ancorado em Trieste há quase cinco anos, custando ao Estado italiano cerca de 24 mil euros por dia. O Sailing Yacht A foi congelado em março de 2022, logo após a invasão da Ucrânia, como sanção contra Andrey Melnichenko, oligarca russo de 54 anos com um património estimado em 20,4 mil milhões de dólares, construído no carvão e nos fertilizantes.
A embarcação é uma obra singular: 143 metros de comprimento, três mastros de fibra de carbono com mais de 90 metros de altura, oito plataformas internas ligadas por elevadores, um salão submerso na quilha com paredes de vidro, três piscinas e um heliponto. Projetado pelo designer francês Philippe Starck em 2016, o iate leva o nome de Aleksandra Nikolić, mulher do oligarca e antiga cantora pop sérvia. A sua manutenção exige uma tripulação permanente de 20 pessoas e já custou aproximadamente 40 milhões de euros ao erário público italiano.
A situação jurídica é complexa. Melnichenko transferiu a propriedade do veleiro para a mulher dois dias antes da apreensão, alegando que pertencia a um trust independente. O Tribunal de Justiça da União Europeia rejeitou o argumento, confirmando que é legítimo congelar bens em trust quando o sancionado mantém controlo prático sobre eles. O congelamento não é um confisco definitivo — se as sanções forem levantadas, Itália terá de devolver o iate nas mesmas condições. Mas a lei italiana permite cobrar os custos de manutenção ao proprietário, e caso este não pague, o Estado pode leiloar a embarcação.
Avaliado em cerca de 300 milhões de euros — menos do que os 530 milhões que custou a construir —, o Sailing Yacht A poderia render à Itália um benefício líquido em caso de venda, compensando parcialmente anos de despesa. Antes disso, porém, uma revisão obrigatória de vários milhões de euros terá de ser realizada antes de janeiro, com os estaleiros de Génova e Trieste a disputar o contrato.
Para os habitantes de Trieste, o veleiro tornou-se parte da paisagem. O escritor Franco Del Campo confessou que o procura diariamente no horizonte desde sua casa, e que a sua ausência anuncia mau tempo. Reconheceu que talvez sentisse a sua falta — mas acrescentou, com ironia: "pensando no que nos custa, a verdade é que não". Enquanto isso, o segundo iate de Melnichenko, o Motor Yacht A, navega sob bandeira malaia e encontra-se atracado nas Maldivas, tendo escapado ao mesmo destino.
Um veleiro de três mastros permanece ancorado nas águas de Trieste há quase cinco anos, imóvel e custando ao Estado italiano aproximadamente 24 mil euros por dia. O Sailing Yacht A, avaliado atualmente em cerca de 300 milhões de euros, foi congelado pelas autoridades italianas em março de 2022, logo após a invasão da Ucrânia, como parte das sanções impostas a empresários russos próximos de Vladimir Putin. Seu proprietário é Andrey Melnichenko, um oligarca de 54 anos que construiu sua fortuna em carvão e fertilizantes e possui um patrimônio estimado em 20,4 mil milhões de dólares.
O veleiro é uma obra de engenharia e design extraordinária. Projetado em 2016 pelo designer francês Philippe Starck, mede 143 metros de comprimento e 25 metros de largura. Seus três mastros de fibra de carbono ultrapassam os 90 metros de altura — equivalente a um edifício de 30 andares. A embarcação pesa mais de 12 mil toneladas e funciona com um motor híbrido que lhe confere autonomia de cerca de 10 mil quilómetros. Internamente, distribui-se por oito plataformas conectadas por elevadores e uma escada em espiral. Quando em operação, pode acomodar aproximadamente 60 hóspedes além da tripulação, com 20 camarotes equipados com vidros fumados e fechaduras biométricas. As comodidades incluem três piscinas, spa, ginásio e um salão submerso na quilha com paredes de vidro que permitem observar o fundo do mar. Existe também um heliponto. O nome da embarcação homenageia Aleksandra Nikolić, mulher de Melnichenko, uma antiga cantora pop e modelo sérvia com quem o oligarca se casou em 2005.
Manter uma embarcação desta dimensão em congelamento exige uma tripulação permanente de pelo menos 20 pessoas e representa um encargo financeiro considerável. Segundo o jornal Il Piccolo, a despesa diária ronda os 24 mil euros. Desde março de 2022, o custo acumulado já atinge aproximadamente 40 milhões de euros. A Agência do Património Público, entidade responsável pela guarda do iate, justificou a falta de transparência sobre os detalhes operacionais com "motivos de confidencialidade e de segurança". O Estado italiano também deve conservar os bens no interior do veleiro, incluindo oito quadros impressionistas e várias pinturas dos séculos XVII e XVIII descobertos durante um inventário realizado em 2022, que necessitam de condições climatizadas adequadas.
Os custos continuarão a aumentar. Antes de janeiro, o Sailing Yacht A terá de ser submetido a uma revisão obrigatória semelhante a uma inspeção periódica, uma operação que custará vários milhões de euros. Os estaleiros de Génova e Trieste disputam atualmente a realização deste trabalho. A situação financeira tornou-se particularmente complexa porque Melnichenko transferiu a propriedade do iate para sua mulher a 9 de março de 2022, apenas dois dias antes da apreensão. Os advogados do oligarca argumentaram que a embarcação pertencia a um trust administrado por um fiduciário independente, mas o Tribunal de Justiça da União Europeia confirmou que é legítimo congelar bens em trust quando a pessoa sancionada mantém controlo prático sobre eles.
Tecnicamente, o congelamento não é um confisco definitivo. Se as sanções forem levantadas, Itália terá de devolver o iate nas mesmas condições em que o encontrou. Contudo, a legislação italiana estabelece que as despesas de manutenção podem ser cobradas ao proprietário caso este queira recuperar a embarcação. Se Melnichenko não assumir os custos acumulados, o Estado italiano tem direito a colocar o veleiro em leilão. Considerando que o iate foi avaliado em aproximadamente 300 milhões de euros — apesar de ter custado cerca de 530 milhões na construção — Itália poderia potencialmente obter um benefício financeiro através de uma eventual venda, compensando parcialmente a despesa de manutenção.
O Sailing Yacht A tornou-se uma presença constante na paisagem de Trieste. O escritor Franco Del Campo descreveu como a embarcação adquire "cores e dimensões diferentes" dependendo da hora do dia e do ponto de observação. "Os triestinos sempre olhamos para o mar e, a esta altura, depois de tantos anos, tornou-se uma presença habitual no nosso golfo, faz parte da nossa paisagem natural, ao nível do nosso castelo de Miramare", explicou. Del Campo admitiu que procura o veleiro diariamente no horizonte desde sua casa, e que sua ausência indica aproximação de mau tempo. Apesar de reconhecer que talvez sentisse sua falta, acrescentou: "pensando no que nos custa, a verdade é que não".
Melnichenko possui um segundo iate de grandes dimensões, o Motor Yacht A, com 119 metros de comprimento. Esta embarcação conseguiu evitar o mesmo destino. Perdeu a matrícula da Ilha de Man em março de 2022 e dirigiu-se para Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos. Entre o final de 2024 e início de 2025, passou a navegar sob bandeira da Malásia e, desde o final de agosto, encontra-se atracada em Malé, nas Maldivas. Enquanto isso, o Sailing Yacht A permanece no golfo de Trieste, transformado num dos exemplos mais visíveis dos custos financeiros e jurídicos associados ao congelamento de bens de grandes fortunas russas alvo de sanções internacionais.
Citazioni salienti
Os triestinos sempre olhamos para o mar e, a esta altura, depois de tantos anos, tornou-se uma presença habitual no nosso golfo, faz parte da nossa paisagem natural, ao nível do nosso castelo de Miramare— Franco Del Campo, escritor de Trieste
A partir da minha casa, todas as manhãs procuro-o com o olhar e, se não o encontro, significa que se aproxima mau tempo e que foi refugiar-se do vento— Franco Del Campo