Enquanto os carros híbridos avançam sobre o mercado de veículos leves no Brasil, o gás natural veicular encontra novo destino nos caminhões e ônibus que percorrem as cidades todas as noites recolhendo o que sobra do dia. O grupo MAT, fabricante de cilindros, viu suas vendas para carros desabar 87% em cinco anos e respondeu virando a proa para a limpeza urbana — um setor onde o biometano promete reduzir emissões em até 90% e silenciar motores que acordam bairros inteiros. A transição já começou, mas esbarra em uma infraestrutura de abastecimento que ainda pensa em carros, não em carretas.
Híbridos reduzem GNV em carros, mas impulsionam gás em caminhões e ônibus
A frota de pesados a gás é irreversível, mas o abastecimento urbano é crítico
Por que os híbridos afetam tanto o mercado de GNV em carros leves, mas não em caminhões?
Os híbridos oferecem eficiência sem exigir mudanças na infraestrutura de abastecimento. Para um carro que roda em cidade, é perfeito. Caminhões pesados têm outro perfil — rodam muito, precisam de autonomia, e o diesel é caro. O gás fica atraente quando você tem volume de uso.
A MAT perdeu 87% do mercado de carros leves em cinco anos. Como uma empresa sobrevive a isso?
Pivotando. Eles viram que o mercado de pesados estava aberto e começaram a focar ali. Em 2025, venderam quase 2 mil cilindros para caminhões. Não é o mesmo que 24 mil, mas é crescimento real em um segmento que estava dormindo.
Por que a limpeza urbana é tão importante nessa história?
Porque reúne tudo que favorece o biometano: veículos que rodam intensamente, operação concentrada nas cidades, e a possibilidade de ter abastecimento próprio. Além disso, trabalham à noite, então o ruído reduzido é um ganho real para as comunidades.
A infraestrutura é realmente o maior obstáculo?
É o obstáculo crítico. Um posto de gasolina não consegue abastecer uma carreta. Os tempos de enchimento não funcionam para logística comercial. Sem resolver isso, o biometano fica bonito no papel mas inviável na prática.
A MAT está apostando que pode resolver isso sozinha?
Não sozinha, mas liderando. Eles querem construir pontos corporativos para que transportadoras tenham infraestrutura própria. Se conseguirem, viram de fornecedor de cilindros para parceiro estratégico da descarbonização urbana.
Qual é o horizonte realista para isso?
Depende de quanto as cidades e empresas estão dispostas a investir. O biometano é tecnicamente viável e ambientalmente superior. Mas viabilidade econômica exige escala, e escala exige infraestrutura. É um círculo que alguém precisa quebrar primeiro.
The Pulse
- A chegada em massa dos híbridos esvaziou o mercado de kits de GNV para carros leves, forçando empresas inteiras a reinventar sua razão de existir.
- O grupo MAT viu suas vendas de cilindros para veículos leves despencar de quase 25 mil unidades em 2020 para pouco mais de 3 mil em 2025 — uma queda que não deixou margem para hesitação.
- Caminhões de coleta de lixo emergiram como o novo front: rodam todos os dias, operam concentrados nas cidades e podem ganhar muito com um combustível mais silencioso e menos poluente.
- O biometano seduz com números expressivos — até 90% menos emissões que o diesel —, mas os postos de abastecimento existentes foram projetados para carros, não para carretas que não cabem nas manobras.
- A MAT aposta na criação de pontos de abastecimento corporativos próprios como a chave para destravar a transição e deixar de ser apenas fabricante de cilindros para se tornar protagonista da infraestrutura do gás.
Enquanto os carros híbridos avançam sobre o mercado de veículos leves no Brasil, o gás natural veicular encontra novo destino nos caminhões e ônibus que percorrem as cidades todas as noites recolhendo o que sobra do dia. O grupo MAT, fabricante de cilindros, viu suas vendas para carros desabar 87% em cinco anos e respondeu virando a proa para a limpeza urbana — um setor onde o biometano promete reduzir emissões em até 90% e silenciar motores que acordam bairros inteiros. A transição já começou, mas esbarra em uma infraestrutura de abastecimento que ainda pensa em carros, não em carretas.
Os carros híbridos estão redesenhando o mercado de combustíveis alternativos no Brasil de um jeito que poucos anteciparam: ao conquistar os veículos leves, empurraram o gás natural veicular para um território completamente diferente — o dos caminhões e ônibus que trabalham na limpeza das cidades.
O grupo MAT, fabricante de cilindros para armazenamento de gás, ilustra essa virada com números difíceis de ignorar. Em 2020, vendia quase 25 mil cilindros para carros leves. Em 2025, esse volume havia caído para pouco mais de 3 mil — uma retração de 87% que tornou inevitável a mudança de estratégia. A empresa voltou os olhos para os veículos pesados e encontrou um mercado em expansão: de 492 cilindros vendidos para pesados em 2024, saltou para 1.835 em 2025, com quase metade destinada a frotas de coleta e limpeza urbana.
A lógica da escolha é clara. Caminhões de lixo rodam intensamente todos os dias, operam concentrados nas cidades e precisam de alta disponibilidade — condições que favorecem o biometano, combustível produzido pela purificação do biogás. Os ganhos são concretos: até 90% menos emissões de gases de efeito estufa em relação ao diesel e muito menos ruído, o que faz diferença real para veículos que trabalham à noite em áreas residenciais.
Mas a transição esbarra em um obstáculo sério: a infraestrutura de abastecimento brasileira foi pensada para carros, não para carretas. Os postos que oferecem GNV não têm espaço para manobras de veículos grandes, e os tempos de enchimento são inadequados para a lógica de uma frota comercial. Um caminhão parado é prejuízo.
Para contornar esse gargalo, a MAT planeja desenvolver pontos de abastecimento corporativos dedicados, permitindo que transportadoras e empresas de limpeza urbana abasteçam suas frotas sem depender da rede pública. Para o presidente da empresa, Luis Fernando Assaf, a infraestrutura deixou de ser um detalhe e virou a peça central de qualquer transição real do diesel para o gás. O objetivo agora é transformar o biometano de promessa em realidade acessível para frotas em todo o país.
Os carros híbridos estão redesenhando o mercado de combustíveis alternativos no Brasil, e o impacto mais visível está acontecendo longe das ruas onde circulam sedans e hatchbacks. Enquanto a tecnologia híbrida conquista o segmento de veículos leves, as empresas que investem em gás natural veicular estão virando suas operações inteiras para caminhões e ônibus — especialmente aqueles que trabalham na coleta de lixo das cidades.
O grupo MAT, fabricante de cilindros para armazenamento de gás, oferece um retrato claro dessa transformação. Em 2020, a empresa vendia 24.854 cilindros para carros leves equipados com kits de GNV. Cinco anos depois, esse número desabou para 3.045 unidades — uma queda de 87% que forçou a companhia a repensar completamente sua estratégia comercial. A resposta foi óbvia: se os carros leves não queriam mais gás, os pesados poderiam.
A mudança de foco começou a render resultados rápido. Em 2024, a MAT comercializou 492 cilindros para veículos pesados. No ano seguinte, esse volume saltou para 1.835 unidades. Quase metade delas — 47,6% — foi destinada a caminhões e ônibus adaptados para operações de coleta e limpeza urbana, um segmento que descobriu no gás natural e no biometano uma alternativa economicamente viável ao diesel. Para 2026, a empresa projeta fornecer cerca de 2.100 cilindros para pesados, com aproximadamente 30% indo para empresas como a Comlurb, a companhia de limpeza pública do Rio de Janeiro.
O que torna a limpeza urbana particularmente atraente para essa transição é a natureza do trabalho. Esses veículos rodam intensamente todos os dias, precisam estar disponíveis na maior parte do tempo e operam concentrados nas cidades — exatamente as condições que favorecem o uso de biometano, um combustível produzido pela purificação do biogás. Quando há oferta local do combustível, a substituição do diesel pode gerar ganhos ambientais e operacionais sem exigir mudanças radicais na rotina das empresas. Os números são impressionantes: caminhões movidos a biometano podem reduzir emissões de gases de efeito estufa em até 90% comparado aos modelos a diesel, além de produzirem significativamente menos ruído — uma vantagem crucial para veículos que trabalham à noite em áreas residenciais.
Mas há um problema sério bloqueando essa transição em larga escala. A infraestrutura de abastecimento no Brasil simplesmente não está preparada para caminhões. Segundo Luis Fernando Assaf, presidente da MAT, os postos de gasolina e diesel que oferecem GNV foram projetados para carros leves e carecem do espaço necessário para manobras de carretas. Os tempos de enchimento também são inadequados para a dinâmica logística de uma frota comercial. Um caminhão parado esperando abastecimento é dinheiro perdido.
Diante desse gargalo, a MAT está expandindo sua atuação além da fabricação de cilindros. A empresa planeja desenvolver pontos de abastecimento corporativos próprios, permitindo que transportadoras e empresas de limpeza urbana tenham estrutura dedicada para abastecer suas frotas. A estratégia reduz deslocamentos até postos públicos, elimina filas e diminui os períodos em que os veículos ficam indisponíveis. Para a MAT, a infraestrutura deixou de ser um detalhe logístico e virou parte essencial da viabilidade econômica de qualquer migração do diesel para o gás.
Assaf é direto sobre o que está em jogo: "A frota de veículos pesados a gás é uma realidade irreversível no Brasil para a descarbonização, mas o abastecimento urbano tornou-se um ponto crítico." A empresa vê no biometano não apenas um combustível mais limpo, mas uma oportunidade de expansão que pode transformar como as cidades gerenciam seus resíduos. O objetivo agora é deixar de ser apenas um fabricante de cilindros e se tornar o protagonista da infraestrutura necessária para que o biometano deixe de ser uma promessa de laboratório e se torne acessível às frotas de todo o país.
Notable Quotes
Postos projetados para veículos leves carecem de espaço para manobras de carretas e apresentam tempos de enchimento inadequados para a dinâmica logística— Luis Fernando Assaf, presidente da MAT
A frota de veículos pesados a gás é uma realidade irreversível no Brasil para a descarbonização, mas o abastecimento urbano tornou-se um ponto crítico— Luis Fernando Assaf, presidente da MAT