Hepatites D e E circulam no Brasil e preocupam especialistas

Populações pobres, ribeirinhas e indígenas enfrentam maior risco de infecção grave e dificuldades de acesso a diagnóstico e tratamento adequado.
Doenças graves circulando silenciosamente em comunidades vulneráveis
Hepatites D e E permanecem invisíveis aos sistemas de saúde que não as procuram ativamente.
Mark

Por que essas duas hepatites não recebem a mesma atenção que A, B e C?

Mimi

Porque são menos comuns em populações urbanas e de renda mais alta, onde a maioria dos médicos trabalha. A D e a E concentram-se em áreas remotas e pobres, então simplesmente não entram na prática clínica cotidiana.

Mark

A hepatite D depender da B parece uma desvantagem evolutiva para o vírus. Como ele sobrevive?

Mimi

Exatamente. Talvez por isso ele não se espalhe como esperaríamos. Mas em comunidades onde a hepatite B já é endêmica, ele encontra um hospedeiro perfeito e causa danos muito piores.

Mark

E a hepatite E em suínos—isso significa que é um risco ocupacional?

Mimi

Sim, mas também um risco para qualquer pessoa que coma carne mal cozida ou beba água contaminada. O vírus está nos animais, passa para a água, e daí para as pessoas. No Sul, onde há muita criação de porcos, os números são altos.

Mark

Se não há teste rápido para a hepatite D, como os médicos diagnosticam?

Mimi

Com testes de sangue mais complexos e demorados. Muitas vezes, a doença não é nem procurada porque o médico não pensa nela. É um círculo vicioso: não se testa, não se encontra, não se trata.

Mark

O que muda se essas doenças fossem diagnosticadas?

Mimi

Tudo. Pessoas saberiam que têm a doença, poderiam receber tratamento, evitar transmitir para outros. Agora, estão circulando sem saber, passando para parceiros sexuais, para comunidades inteiras.

Mark

Essa revisão de 200 estudos vai mudar alguma coisa?

Mimi

Espera-se que sim. Ela coloca as hepatites D e E no radar. Mas só muda se os gestores de saúde ouvirem e investirem em testes, treinamento de médicos e pesquisa nas regiões onde a doença é mais prevalente.

  • Hepatite D ultrapassa 20% na Amazônia; hepatite E atinge 59% no Sul
  • Hepatite D depende do vírus B para infectar e causa infecções graves
  • Genótipo 3 da hepatite D predomina no Brasil com quadros mais severos
  • Apenas 16 estudos sobre hepatite D e 30 sobre hepatite E foram incluídos na revisão de 200 trabalhos
  • Doença concentra-se em populações pobres, ribeirinhas e indígenas com acesso limitado à saúde

Hepatite D atinge mais de 20% na Amazônia; hepatite E chega a 59% no Sul, especialmente entre criadores de suínos. Hepatite D depende do vírus B para infectar e causa infecções graves; genótipo 3 predomina no Brasil com quadros mais severos.

Revisão de 200 estudos com dados de 14,5 milhões de pessoas revela que hepatites D e E circulam no Brasil com prevalência expressiva em determinadas regiões, mas permanecem pouco diagnosticadas e investigadas.

Quando se pensa em hepatite viral no Brasil, a conversa costuma girar em torno dos tipos A, B e C. Mas uma revisão abrangente de duzentos estudos, liderada por pesquisadores do Hospital Israelita Einstein e publicada em julho na revista PLOS One, traz à luz duas formas menos conhecidas da doença que circulam pelo país com prevalência preocupante em certas regiões: as hepatites D e E. O trabalho reuniu dados de 14,5 milhões de pessoas, analisando pesquisas realizadas entre 2013 e 2024, e revela um cenário que especialistas descrevem como alarmante justamente por sua invisibilidade.

Os números são expressivos em determinadas localidades. Na região amazônica, alguns estudos encontraram prevalência da hepatite D superior a 20%. No Sul do país, a hepatite E atingiu índices de até 59% em levantamentos específicos, particularmente entre populações que vivem ou trabalham próximas a animais infectados. Apesar dessa circulação documentada, ambas as doenças permanecem amplamente subdiagnosticadas. "A pesquisa nos alerta para a presença dessas sorologias incomuns que podem não estar sendo diagnosticadas corretamente por não estarem no radar de nossa prática clínica", observa João Renato Rebello Pinho, patologista e coordenador do estudo.

A hepatite D, também chamada de Delta, possui uma característica singular que a torna particularmente complexa: ela depende inteiramente do vírus da hepatite B para conseguir infectar o organismo. Essa interdependência significa que a vacinação contra a hepatite B oferece proteção contra a Delta, mas também explica por que ela aparece com maior frequência em áreas onde o vírus B é mais prevalente. Quando ambos os vírus estão presentes, a situação se agrava significativamente. O vírus D consegue reativar a doença mesmo quando o vírus B parece estar controlado, aumentando dramaticamente o risco de danos hepáticos graves. No Brasil, o genótipo 3 do vírus D predomina na Amazônia, uma variante associada a quadros mais severos. A transmissão ocorre através do contato com sangue e fluidos corporais, incluindo relações sexuais sem proteção.

O desafio diagnóstico é substancial. Não existe teste rápido disponível para a hepatite Delta, e o tratamento é complexo com ferramentas limitadas de manejo. A doença concentra-se desproporcionalmente em populações pobres e isoladas—ribeirinhos e indígenas—criando uma série de obstáculos para o acesso adequado à saúde que prejudicam o prognóstico desses pacientes. Apenas dezesseis trabalhos sobre hepatite D foram incluídos na revisão, um número que ilustra a escassez de pesquisa sobre a doença. Pinho levanta uma hipótese intrigante sobre por que o genótipo 3 não se espalhou pelo Brasil como o genótipo 1 fez na Europa: como causa infecções mais graves, as pessoas infectadas viajam menos e têm menos contato com outras populações, limitando naturalmente sua disseminação.

A hepatite E apresenta um perfil distinto. Transmitida principalmente pela ingestão de água e alimentos contaminados, ela também circula em animais, especialmente em suínos. O genótipo 3 é predominante no Brasil e tende a um comportamento menos agressivo que outras variantes encontradas em surtos globais, embora ainda possa causar lesões hepáticas graves e, em situações específicas, necessitar de transplante. Estudos em animais identificaram o vírus em porcos de diferentes regiões do país, explicando por que a infecção humana é mais frequente entre pessoas que vivem ou trabalham próximas a animais infectados. A região Sul, com sua importante atividade de criação de suínos, registrou os principais índices de prevalência.

O grande problema é que ninguém sabe exatamente quantas pessoas têm hepatite E no Brasil porque se testa muito pouco. A hepatite E foi incluída em apenas trinta dos duzentos estudos analisados, outro indicador da falta de dados sobre sua ocorrência no território nacional. Segundo Pinho, o que os levantamentos sugerem é que pessoas testadas negativas para os demais vírus da hepatite podem, na verdade, estar infectadas pela forma E. Uma pessoa pode carregar a infecção sem apresentar sintomas durante parte de sua evolução, e sem investigação adequada, esses casos permanecem não diagnosticados, sem acompanhamento e sem tratamento.

A escassez de pesquisa sobre ambas as hepatites dificulta não apenas a compreensão de quantas pessoas estão infectadas, mas também como os vírus circulam e quais grupos estão mais expostos. A distribuição observada das hepatites D e E pode refletir a circulação real dos vírus, mas apenas onde existem mais pesquisas e em populações que foram efetivamente avaliadas. O cenário que emerge é o de duas doenças graves circulando silenciosamente em comunidades vulneráveis, invisíveis aos sistemas de saúde que não as procuram.

A pesquisa nos alerta para a presença dessas sorologias incomuns que podem não estar sendo diagnosticadas corretamente por não estarem no radar de nossa prática clínica
— João Renato Rebello Pinho, patologista e coordenador do estudo
Não temos, por exemplo, um teste rápido para hepatite Delta. Além disso, ela é mais frequente no Brasil em populações pobres e mais isoladas, como ribeirinhos e indígenas, gerando uma série de entraves para o acesso à saúde
— João Renato Rebello Pinho
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei Folha de S.Paulo ↗
Kontakt FAQ