Hepatite D atinge mais de 20% na Amazônia; hepatite E chega a 59% no Sul, especialmente entre criadores de suínos. Hepatite D depende do vírus B para infectar e causa infecções graves; genótipo 3 predomina no Brasil com quadros mais severos.
Hepatites D e E circulam no Brasil e preocupam especialistas
Doenças graves circulando silenciosamente em comunidades vulneráveis
Por que essas duas hepatites não recebem a mesma atenção que A, B e C?
Porque são menos comuns em populações urbanas e de renda mais alta, onde a maioria dos médicos trabalha. A D e a E concentram-se em áreas remotas e pobres, então simplesmente não entram na prática clínica cotidiana.
A hepatite D depender da B parece uma desvantagem evolutiva para o vírus. Como ele sobrevive?
Exatamente. Talvez por isso ele não se espalhe como esperaríamos. Mas em comunidades onde a hepatite B já é endêmica, ele encontra um hospedeiro perfeito e causa danos muito piores.
E a hepatite E em suínos—isso significa que é um risco ocupacional?
Sim, mas também um risco para qualquer pessoa que coma carne mal cozida ou beba água contaminada. O vírus está nos animais, passa para a água, e daí para as pessoas. No Sul, onde há muita criação de porcos, os números são altos.
Se não há teste rápido para a hepatite D, como os médicos diagnosticam?
Com testes de sangue mais complexos e demorados. Muitas vezes, a doença não é nem procurada porque o médico não pensa nela. É um círculo vicioso: não se testa, não se encontra, não se trata.
O que muda se essas doenças fossem diagnosticadas?
Tudo. Pessoas saberiam que têm a doença, poderiam receber tratamento, evitar transmitir para outros. Agora, estão circulando sem saber, passando para parceiros sexuais, para comunidades inteiras.
Essa revisão de 200 estudos vai mudar alguma coisa?
Espera-se que sim. Ela coloca as hepatites D e E no radar. Mas só muda se os gestores de saúde ouvirem e investirem em testes, treinamento de médicos e pesquisa nas regiões onde a doença é mais prevalente.
O Pulso
- Hepatite D ultrapassa 20% na Amazônia; hepatite E atinge 59% no Sul
- Hepatite D depende do vírus B para infectar e causa infecções graves
- Genótipo 3 da hepatite D predomina no Brasil com quadros mais severos
- Apenas 16 estudos sobre hepatite D e 30 sobre hepatite E foram incluídos na revisão de 200 trabalhos
- Doença concentra-se em populações pobres, ribeirinhas e indígenas com acesso limitado à saúde
Hepatite D atinge mais de 20% na Amazônia; hepatite E chega a 59% no Sul, especialmente entre criadores de suínos. Hepatite D depende do vírus B para infectar e causa infecções graves; genótipo 3 predomina no Brasil com quadros mais severos.
Revisão de 200 estudos com dados de 14,5 milhões de pessoas revela que hepatites D e E circulam no Brasil com prevalência expressiva em determinadas regiões, mas permanecem pouco diagnosticadas e investigadas.
Quando se pensa em hepatite viral no Brasil, a conversa costuma girar em torno dos tipos A, B e C. Mas uma revisão abrangente de duzentos estudos, liderada por pesquisadores do Hospital Israelita Einstein e publicada em julho na revista PLOS One, traz à luz duas formas menos conhecidas da doença que circulam pelo país com prevalência preocupante em certas regiões: as hepatites D e E. O trabalho reuniu dados de 14,5 milhões de pessoas, analisando pesquisas realizadas entre 2013 e 2024, e revela um cenário que especialistas descrevem como alarmante justamente por sua invisibilidade.
Os números são expressivos em determinadas localidades. Na região amazônica, alguns estudos encontraram prevalência da hepatite D superior a 20%. No Sul do país, a hepatite E atingiu índices de até 59% em levantamentos específicos, particularmente entre populações que vivem ou trabalham próximas a animais infectados. Apesar dessa circulação documentada, ambas as doenças permanecem amplamente subdiagnosticadas. "A pesquisa nos alerta para a presença dessas sorologias incomuns que podem não estar sendo diagnosticadas corretamente por não estarem no radar de nossa prática clínica", observa João Renato Rebello Pinho, patologista e coordenador do estudo.
A hepatite D, também chamada de Delta, possui uma característica singular que a torna particularmente complexa: ela depende inteiramente do vírus da hepatite B para conseguir infectar o organismo. Essa interdependência significa que a vacinação contra a hepatite B oferece proteção contra a Delta, mas também explica por que ela aparece com maior frequência em áreas onde o vírus B é mais prevalente. Quando ambos os vírus estão presentes, a situação se agrava significativamente. O vírus D consegue reativar a doença mesmo quando o vírus B parece estar controlado, aumentando dramaticamente o risco de danos hepáticos graves. No Brasil, o genótipo 3 do vírus D predomina na Amazônia, uma variante associada a quadros mais severos. A transmissão ocorre através do contato com sangue e fluidos corporais, incluindo relações sexuais sem proteção.
O desafio diagnóstico é substancial. Não existe teste rápido disponível para a hepatite Delta, e o tratamento é complexo com ferramentas limitadas de manejo. A doença concentra-se desproporcionalmente em populações pobres e isoladas—ribeirinhos e indígenas—criando uma série de obstáculos para o acesso adequado à saúde que prejudicam o prognóstico desses pacientes. Apenas dezesseis trabalhos sobre hepatite D foram incluídos na revisão, um número que ilustra a escassez de pesquisa sobre a doença. Pinho levanta uma hipótese intrigante sobre por que o genótipo 3 não se espalhou pelo Brasil como o genótipo 1 fez na Europa: como causa infecções mais graves, as pessoas infectadas viajam menos e têm menos contato com outras populações, limitando naturalmente sua disseminação.
A hepatite E apresenta um perfil distinto. Transmitida principalmente pela ingestão de água e alimentos contaminados, ela também circula em animais, especialmente em suínos. O genótipo 3 é predominante no Brasil e tende a um comportamento menos agressivo que outras variantes encontradas em surtos globais, embora ainda possa causar lesões hepáticas graves e, em situações específicas, necessitar de transplante. Estudos em animais identificaram o vírus em porcos de diferentes regiões do país, explicando por que a infecção humana é mais frequente entre pessoas que vivem ou trabalham próximas a animais infectados. A região Sul, com sua importante atividade de criação de suínos, registrou os principais índices de prevalência.
O grande problema é que ninguém sabe exatamente quantas pessoas têm hepatite E no Brasil porque se testa muito pouco. A hepatite E foi incluída em apenas trinta dos duzentos estudos analisados, outro indicador da falta de dados sobre sua ocorrência no território nacional. Segundo Pinho, o que os levantamentos sugerem é que pessoas testadas negativas para os demais vírus da hepatite podem, na verdade, estar infectadas pela forma E. Uma pessoa pode carregar a infecção sem apresentar sintomas durante parte de sua evolução, e sem investigação adequada, esses casos permanecem não diagnosticados, sem acompanhamento e sem tratamento.
A escassez de pesquisa sobre ambas as hepatites dificulta não apenas a compreensão de quantas pessoas estão infectadas, mas também como os vírus circulam e quais grupos estão mais expostos. A distribuição observada das hepatites D e E pode refletir a circulação real dos vírus, mas apenas onde existem mais pesquisas e em populações que foram efetivamente avaliadas. O cenário que emerge é o de duas doenças graves circulando silenciosamente em comunidades vulneráveis, invisíveis aos sistemas de saúde que não as procuram.
Citações Notáveis
A pesquisa nos alerta para a presença dessas sorologias incomuns que podem não estar sendo diagnosticadas corretamente por não estarem no radar de nossa prática clínica— João Renato Rebello Pinho, patologista e coordenador do estudo
Não temos, por exemplo, um teste rápido para hepatite Delta. Além disso, ela é mais frequente no Brasil em populações pobres e mais isoladas, como ribeirinhos e indígenas, gerando uma série de entraves para o acesso à saúde— João Renato Rebello Pinho