Guia gastronômico destaca 29 botecos em todas as regiões de São Paulo

O boteco é onde a cidade realmente se encontra
Reflexão sobre o papel cultural dos botecos paulistanos como espaços de encontro e identidade.
Mark

Por que um guia de botecos importa agora, em dois mil e vinte e seis?

Mimi

Porque o boteco é o lugar onde a cidade realmente se encontra. Não é um restaurante formal, não é um bar de drinque caro. É onde o paulistano come um pastel, bebe uma cerveja gelada e conversa com o vizinho. Alguns desses lugares têm mais de cinquenta anos.

Mark

Mas muitos estão fechando, não é?

Mimi

Sim. O Bar do Biu vai fechar em dezembro porque o imóvel foi vendido. Isso é a realidade de São Paulo — a pressão imobiliária é enorme. Por isso documentar esses lugares agora é importante. Alguns deles são patrimônio cultural da cidade.

Mark

O que diferencia um boteco tradicional de um novo?

Mimi

Os tradicionais têm a história no corpo — paredes antigas, balcões gastos, fotos de clientes antigos. O Bar do Luiz Nozoie, por exemplo, tem uma cerveja pilsen com a ilustração do Luiz falecido. Mas os novos, como o Beleléu, trazem criatividade sem perder a essência. Drinques autorais, mas ainda servindo petiscos simples.

Mark

Qual é o papel da comida nesse espaço?

Mimi

A comida é desculpa. O que importa é o encontro. Mas a comida tem que ser boa — uma feijoada bem feita, um pastel crocante, uma batida de amendoim que funciona. Não é sofisticação, é honestidade. Você sabe o que está comendo.

Mark

E a música? Vi que vários têm samba ao vivo.

Mimi

A música é parte da identidade. O Boteco da Dona Tati, o Escarcéu, o Genuíno — esses lugares são pontos de encontro cultural. Não é só beber, é participar de algo vivo. O samba, o pagode, o chorinho — isso é São Paulo também.

Mark

Como você explica que um vocalista da Coldplay tenha ido ao Boteco da Dona Tati?

Mimi

Porque um bom boteco transcende. Não importa de onde você é, quando você entra em um lugar com aquela energia, com aquelas fitas coloridas, com aquele samba tocando, você sente algo real. Não é turismo, é experiência genuína.

  • Guia especial traz seleção de mais de 900 casas para comer e beber em São Paulo
  • 29 botecos destacados em todas as regiões da cidade
  • Alguns estabelecimentos têm mais de 50 anos, como o Jabuti (desde 1968) e a Juriti (desde 1957)
  • Preços variam de R$ 12 a R$ 198 por prato
  • Bar do Biu, tradicional desde 1987, deve fechar em dezembro após venda do imóvel

O especial inclui botecos tradicionais e modernos, com destaque para casas históricas como Bar do Luiz Nozoie e Jabuti, além de novos endereços. Estabelecimentos oferecem desde petiscos clássicos e feijoada até drinques autorais, com preços variando de R$ 12 a R$ 198 por prato.

Folha de S.Paulo publica especial com seleção de 29 botecos em todas as regiões de São Paulo, parte de guia com mais de 900 estabelecimentos gastronômicos da cidade.

São Paulo tem uma forma muito particular de se alimentar e beber que não cabe em restaurantes sofisticados nem em fast-food. Existe um lugar específico para isso: o boteco. A Folha de S.Paulo acaba de publicar um especial gastronômico que mapeou mais de novecentas casas onde comer e beber na cidade, e dentro dessa seleção ampla, destacou vinte e nove botecos espalhados por todas as regiões — desde a zona norte até a sul, passando pelo centro e pelas áreas oeste e leste. O guia não é apenas uma lista de endereços. Ele reúne estabelecimentos escolhidos por um júri especializado e também pela opinião dos próprios paulistanos, coletada através de uma pesquisa Datafolha que tentou capturar o que a cidade realmente ama comer e beber.

Alguns desses botecos são instituições. O Bar do Luiz Nozoie, na região sul, é um dos principais representantes da tradição botequeira paulistana, tão respeitado que até bartenders famosos frequentam o lugar. Funciona com ar-condicionado agora, mas mantém seus clássicos: a batida de amendoim e porções como manjuba frita por trinta reais ou polvo por oitenta. O Jabuti, aberto desde mil novecentos e sessenta e oito, serve frutos do mar em um ambiente simples e sem pretensão — um bolinho de bacalhau sai por doze reais, as patinhas de caranguejo por oitenta e nove. A Juriti, no Cambuci desde mil novecentos e cinquenta e sete, carrega no letreiro o título de "rainha dos aperitivos" e ainda serve a linguiça Joana d'Arc assada no álcool, um clássico que custa sessenta reais.

Mas o guia também mostra que a botecagem paulistana não é coisa do passado. Estabelecimentos mais novos convivem com os antigos, trazendo criatividade sem perder a essência. O Beleléu, que completa dois anos em outubro, já é um dos queridinhos da região com seu bolinho prexequinha de carne moída com bacon e queijo por dezenove reais, além de drinques autorais como o Beleléu mango com gim, suco de maracujá e xarope de manga por trinta e seis reais. O Bolovo, aberto em maio do ano anterior, oferece pagode ao vivo e batidas criativas — de pudim, de goiaba ou de Nesquik — servidas também em régua de degustação. A Bagaceira traz o toque do chef Thiago Maeda, conhecido também pelo vizinho Koya 88, com entradas como quiabim de Seoul por vinte e nove reais e drinques como o mupy de caju, uma mistura de cachaça, saquê, absinto, soda de caju com limão e matchá.

Os preços variam bastante. Um pastel de rabada custa vinte e cinco reais e noventa centavos no Bolovo, enquanto uma picanha do Juarez fatiada, servida em réchaud, chega a cento e noventa e oito reais. A feijoada, prato que aparece em vários botecos, pode sair por cento e quatro reais e noventa centavos para dois no Bar do Jão, ou por setenta e nove reais individuais no Jacaré Grill aos sábados. As bebidas também cobrem um espectro amplo: chope Brahma claro por quatorze reais e noventa centavos no Bar Léo, ou coquetéis mais elaborados como o dedo duro do Valadares, com caju, maracujá, vodca e colarinho doce, por trinta e cinco reais.

Alguns desses botecos carregam histórias pessoais e familiares. O Bar do Jão foi inaugurado em mil novecentos e noventa e quatro por seu João e seu filho Alexandre. Aos oitenta e três anos, seu João ainda gosta de ficar no caixa conversando com clientes, mas é a segunda geração que comanda a casa. O estabelecimento mudou de história quando venceu o Comida di Buteco consecutivamente entre dois mil e dezessete e dois mil e vinte e um. O Famoso Bar do Justo, fundado em mil novecentos e quarenta e seis, recebeu o Selo de Valor Cultural da prefeitura — uma placa que reconhece a importância do bar para a cidade. Valtinho Ribeiro comanda a casa até hoje.

Alguns botecos já enfrentam o fim. O Bar do Biu, instalado na esquina da rua Cardeal Arcoverde com a João Moura desde mil novecentos e oitenta e sete, é um ponto tradicional onde torcedores do Corinthians se reúnem para ver os jogos. Serve feijoada e pratos nordestinos como baião de dois no almoço. Mas o imóvel foi vendido para virar um prédio, e o bar deve funcionar apenas até dezembro. Há também botecos que se tornaram pontos de encontro cultural. O Boteco da Dona Tati, decorado com fitas coloridas do Senhor do Bonfim, é conhecido pelas rodas de samba e chorinho que lotam o bar e a calçada — tão famoso que nem Chris Martin, vocalista da Coldplay, resistiu. O Escarcéu, comandado por Edu Passarelli, costuma lotar nas tardes de fim de semana com suas rodas de samba.

A geografia dos botecos reflete a própria geografia de São Paulo. Na região central estão casas como a Bagaceira na Vila Buarque, o Bar Cambará na Barra Funda, o Bar Léo na Santa Ifigênia e a Juriti no Cambuci. A região sul tem o Bar do Luiz Nozoie no Bosque da Saúde, o Jabuti e o Moela na Vila Mariana, o Venezas Bar no Ipiranga. A região norte conta com o Bar do Plínio em Casa Verde, o Famoso Bar do Justo em Santana, o Bolovo também em Santana. A região oeste tem o Bar do Biu em Pinheiros, a Empanadas Bar na Vila Madalena, o Galo também em Pinheiros, o Valadares em Água Branca. A região leste tem o Bar do Jão na Penha e o Jordão Bar no Tatuapé. Essa distribuição mostra que o boteco não é privilégio de um bairro ou de uma classe — é um fenômeno que atravessa toda a cidade, em suas diferentes formas e expressões.

Seu João, aos 83 anos, ainda gosta de ficar no caixa e conversar com os clientes do Bar do Jão, que fundou com o filho Alexandre em 1994
— Informação sobre o Bar do Jão
O Famoso Bar do Justo recebeu o Selo de Valor Cultural da prefeitura, reconhecendo a importância do bar fundado em 1946
— Prefeitura de São Paulo
Fale Conosco FAQ