Grupo de dança de Uganda promete devolver criptomoedas de campanha de Flávio

Uma engrenagem que junta moeda, influenciador e causa eleitoral clara
Especialista em direito eleitoral descreve a estrutura da Brasil 22 Token como possível violação da lei.
Mark

Por que um grupo de dança infantil de Uganda aceitaria fazer propaganda política para uma criptomoeda?

Mimi

Eles viram uma oportunidade de financiar o sonho de construir uma casa e uma escola em Uganda. O fundador perdeu os pais quando era criança e vive essa missão há anos. Quando a Brasil 22 Token ofereceu 20 mil dólares em tokens, pareceu uma chance real.

Luke

Mas eles dizem que não sabiam que as pessoas não iam gostar. Como um grupo com 12,9 milhões de seguidores não prevê a reação a um vídeo político?

Mark

O que torna isso uma possível ilegalidade eleitoral?

Mimi

A estrutura remunera influenciadores indiretamente. Quanto mais pessoas compartilham o conteúdo, mais a moeda se valoriza, e quem postou ganha com isso. É financiamento de campanha disfarçado.

Luke

Mas a Brasil 22 Token afirma que a distribuição é independente de voto e que não constitui doação eleitoral. Qual é a diferença legal entre receber tokens por participar de um projeto e receber por votar?

Mark

A campanha de Flávio Bolsonaro sabia disso?

Mimi

A campanha nega qualquer envolvimento e diz que vai processar o site. Mas o especialista aponta que a análise legal não depende do conhecimento do candidato — depende do benefício que o conteúdo traz à campanha.

Luke

Então Flávio pode ser responsabilizado mesmo que não tenha contratado ninguém? E como se investiga um site sediado no exterior com domínio privado?

Mark

Isso já aconteceu antes?

Mimi

Sim, com Pablo Marçal em 2024. Ele oferecia dinheiro a quem conseguisse mais visualizações em trechos de seus vídeos. Foi condenado por abuso de poder econômico.

Luke

Mas Marçal era o próprio candidato oferecendo o dinheiro. Aqui há uma camada de distância — a Brasil 22 Token, o Hypers Kids Africa, e depois Flávio. Isso muda a análise legal?

Mark

O que o Tribunal Superior Eleitoral pode fazer?

Mimi

Há uma resolução que proíbe pagamento a perfis no exterior para fazer propaganda eleitoral. Mas o site não está hospedado no Brasil e o domínio é privado, o que complica investigação e remoção.

Luke

Então é possível que nada aconteça? Que o esquema continue até a eleição porque está tecnicamente fora do alcance das autoridades brasileiras?

  • Crianças que dançam para sobreviver foram usadas como veículo de propaganda eleitoral brasileira, recebendo criptomoedas avaliadas em US$ 20 mil por um vídeo que acumulou 3,5 milhões de visualizações.
  • A reação foi imediata e brutal: o grupo perdeu 100 mil seguidores em dias, forçando uma retratação pública e a promessa de devolução dos tokens digitais.
  • Especialistas identificam no esquema uma arquitetura jurídica perigosa — influenciadores remunerados indiretamente pela valorização de uma moeda vinculada a conteúdo eleitoral, o que pode configurar abuso de poder econômico.
  • A campanha de Flávio Bolsonaro nega qualquer envolvimento e anuncia ações judiciais, enquanto os perfis marcados no vídeo — Nikolas Ferreira e Pablo Marçal — guardam silêncio ou alegam desconhecimento.
  • O TSE enfrenta um obstáculo estrutural: o site da Brasil 22 Token está hospedado fora do Brasil com domínio privado, tornando a investigação juridicamente complexa e territorialmente escorregadia.

No cruzamento entre a inocência da dança e os labirintos do poder político, um grupo de crianças ugandesas se viu inadvertidamente enredado em uma campanha eleitoral brasileira mediada por criptomoedas. O Hypers Kids Africa, nascido da adversidade nas ruas de Kampala, aceitou tokens digitais em troca de um vídeo pró-Bolsonaro — e, diante da rejeição de seus seguidores, prometeu devolvê-los. O episódio ilumina como as fronteiras entre entretenimento, finanças digitais e propaganda eleitoral se tornam cada vez mais porosas e difíceis de fiscalizar.

Um grupo de dança formado por crianças e adolescentes ugandeses, o Hypers Kids Africa, publicou na quarta-feira um vídeo apoiando Flávio Bolsonaro na corrida presidencial brasileira. Em troca, recebeu 120 milhões de tokens da criptomoeda $B22, avaliados em cerca de 20 mil dólares. Dois dias depois, após perder 100 mil seguidores e enfrentar uma onda de críticas, o grupo anunciou que devolveria os ativos digitais, afirmando que não queria se envolver com política — apenas dançar e fazer as pessoas felizes.

O grupo, fundado por Butindo Moses após ele perder os pais em um acidente e passar a viver nas ruas de Kampala, reúne crianças de 7 a 15 anos e chegou às quartas de final do America's Got Talent. Ao aceitar a parceria com a Brasil 22 Token, o grupo via uma chance de financiar a construção de uma casa e escola em Uganda — o sonho que move a iniciativa há anos.

O vídeo mostrava crianças com camisetas amarelas dançando ao som de uma música que pedia votos para o número 22, marcando os perfis de Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal. A Brasil 22 Token afirmou ter mais de 20 criadores de conteúdo prontos para publicar vídeos semelhantes até o dia da eleição, em 25 de outubro, distribuindo tokens a quem compartilhasse o material.

A campanha de Flávio Bolsonaro negou qualquer envolvimento, anunciou medidas judiciais e afirmou desconhecer o site. Nikolas Ferreira disse não saber do conteúdo; Pablo Marçal não respondeu.

Para o especialista em direito eleitoral Raimundo Fernandes Neto, o esquema combina três camadas incomuns: uma moeda que se valoriza com interação social, influenciadores e uma causa eleitoral explícita. O modelo remuneraria indiretamente quem publicasse o conteúdo — o que pode configurar abuso de poder econômico e violação da lei eleitoral, independentemente de pagamento direto. A comparação com o caso Pablo Marçal em 2024, que resultou em inelegibilidade por oito anos, é inevitável.

A investigação, porém, esbarra em obstáculos concretos: o site da Brasil 22 Token está hospedado fora do Brasil com registro de domínio privado. O TSE, por sua vez, informou que não comenta casos que possam vir a ser objeto de análise judicial.

Um grupo de dança infantil de Uganda com quase 13 milhões de seguidores no Instagram publicou um vídeo na noite de quarta-feira apoiando Flávio Bolsonaro na corrida presidencial brasileira. Em troca, recebeu 120 milhões de tokens de uma criptomoeda chamada $B22 — ativos digitais que, segundo o próprio grupo, valem cerca de 20 mil dólares no momento. Dois dias depois, após uma onda de críticas de seus seguidores, o Hypers Kids Africa anunciou que devolveria o dinheiro digital.

O grupo, formado por crianças e adolescentes de 7 a 15 anos do subúrbio de Kampala, ficou conhecido no Brasil por dançar ao som de sucessos brasileiros, frequentemente com a bandeira nacional ao fundo. Seus vídeos viralizaram tanto que artistas como Ivete Sangalo os compartilharam. O fundador, Butindo Moses, criou a iniciativa após perder os pais em um acidente de carro em 2009 e passar a viver nas ruas. Ele começou reunindo outras crianças em situação semelhante para dançar. O grupo chegou a participar da 19ª temporada do America's Got Talent e ficou entre os cinco melhores na fase das quartas de final. Em entrevistas durante o programa, os integrantes explicaram que o grande sonho era arrecadar recursos para comprar um terreno e construir uma casa e uma escola em Uganda.

Quando o Hypers Kids Africa aceitou a parceria com a Brasil 22 Token, a organização por trás da criptomoeda, o grupo viu uma oportunidade de financiar esse projeto. A mensagem que enviaram à BBC News Brasil deixa clara essa intenção: "Pensamos que os tokens serviriam para nos ajudar a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos. Estamos aqui para dançar e fazer as pessoas felizes, não para política." O grupo afirmou não saber que as pessoas reagiriam negativamente e pediu desculpas, dizendo que perdeu 100 mil seguidores após o vídeo. Porém, o grupo não informou quando ou como os tokens serão devolvidos, quem negociou a parceria, quem aprovou o vídeo, ou se houve contato direto com campanhas ou partidos políticos.

O vídeo que circulou mostrava crianças dançando com camisetas amarelas enquanto uma música ao fundo dizia "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro". A legenda marcava os perfis de Nikolas Ferreira, deputado federal pelo PL de Minas Gerais, de Flávio Bolsonaro e do influenciador Pablo Marçal, convidando as pessoas a comprar a $B22 e compartilhar nas redes sociais. O vídeo acumulou mais de 3,5 milhões de visualizações. A Brasil 22 Token, que lançou a iniciativa na terça-feira anterior, afirmou que parte das vendas da criptomoeda financiaria projetos para as crianças em Uganda e que distribuiria tokens a usuários que compartilhassem conteúdos incentivando o voto em Flávio. A organização também anunciou ter mais de 20 criadores de conteúdo com vídeos prontos para publicação e que a distribuição continuaria diariamente até o dia da eleição, 25 de outubro.

A campanha de Flávio Bolsonaro negou qualquer envolvimento. Em nota, a equipe jurídica afirmou desconhecer a autoria do site, não ter relação com seu conteúdo nem com a venda de criptomoedas, e anunciou que entraria com medidas judiciais nas esferas eleitoral, cível e criminal para derrubar o site. A campanha também disse que não há perfis contratados para fazer propaganda e que todas as páginas e canais oficiais foram informados ao Tribunal Superior Eleitoral. Nikolas Ferreira afirmou desconhecer o conteúdo, e Pablo Marçal não respondeu aos contatos.

Para Raimundo Fernandes Neto, doutor em Direito Constitucional e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, o esquema reúne elementos que podem configurar ilegalidades eleitorais. Ele descreve a estrutura como "uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara". Segundo Fernandes Neto, a lei eleitoral veda o uso de influenciadores remunerados, e o modelo da Brasil 22 Token remuneraria quem postasse e repostasse o conteúdo. Cada vez que as postagens vinculadas ao conteúdo fossem compartilhadas, a criptomoeda se valorizaria, e quem as publicasse receberia de acordo com esse valor. "É uma forma de financiamento de influenciadores para a campanha eleitoral, só que não é dinheiro, não é de uma forma direta", afirmou.

O especialista também vê semelhança com o caso do influenciador Pablo Marçal nas eleições de 2024, quando ele oferecia incentivos financeiros a quem conseguisse mais visualizações em trechos de seus vídeos. Marçal foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico e teve sua inelegibilidade mantida por oito anos. Para Fernandes Neto, o uso da moeda para financiar ou beneficiar candidaturas já seria vedado pela legislação eleitoral, independentemente do pagamento direto ou não. Ele avalia que o caso envolve a "junção de dois abusos": o dos meios de comunicação, já que o Tribunal Superior Eleitoral considera as plataformas digitais meios de comunicação social, e o abuso de poder econômico. A análise, segundo a jurisprudência, recai sobre o benefício que o conteúdo pode trazer à campanha, não sobre a responsabilidade pessoal do candidato.

Porém, há entraves que tornam uma possível investigação mais complexa. O site da Brasil 22 Token não é hospedado no Brasil, e o registro do domínio aparece como privado nos repositórios de internet. Uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral proíbe o pagamento por perfis no exterior para publicar propaganda eleitoral a favor de candidatos brasileiros, mesmo que as contas estejam em outros países e direcionem conteúdo ao público brasileiro. Fernandes Neto classifica o mecanismo como "uma maneira muito engenhosa, mas perigosa também, de desinformar", com possíveis dividendos tanto eleitorais quanto financeiros. O Tribunal Superior Eleitoral afirmou que não se manifesta sobre temas ou casos que possam vir a ser objetos de análise na Justiça Eleitoral.

Pensamos que os tokens serviriam para nos ajudar a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos.
— Hypers Kids Africa, em mensagem à BBC News Brasil
É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara.
— Raimundo Fernandes Neto, especialista em direito eleitoral
Quieres la nota completa? Lee el original en BBC ↗
Contáctanos FAQ