No Brasil, o direito de abrir as portas em um feriado tornou-se palco de uma disputa mais profunda sobre quem detém o poder de mediar o trabalho: o Estado, os sindicatos ou o mercado. O Ministério do Trabalho, sob o comando de Luiz Marinho, reafirmou em janeiro de 2024 uma portaria que exige negociação coletiva para o comércio varejista funcionar em feriados, restaurando um papel central aos sindicatos que havia sido esvaziado na era Bolsonaro. A medida, prevista para ser publicada em fevereiro, encontra resistência organizada no empresariado e no Congresso, revelando que a questão vai além do
Governo mantém regra que obriga negociação sindical para trabalho em feriados no varejo
Está meio desbalanceado na forma como foi negociada
Por que o governo insistiu em manter essa regra se sabia que ia gerar tanta reação?
Porque há uma visão de que os sindicatos precisam ter poder de negociação real. Sem a obrigatoriedade de passar pelas convenções coletivas, os trabalhadores ficam isolados, negociando individualmente com patrões muito mais poderosos.
Mas a lei de 2019 já permitia trabalho em feriados. O que mudou?
A lei permitia, mas não obrigava ninguém a negociar com sindicatos. Agora obriga. É uma escolha política de fortalecer a representação coletiva em vez de deixar tudo para negociação individual.
E por que farmácias e postos de gasolina ficam de fora?
Porque são considerados essenciais. As pessoas precisam de remédios e combustível nos feriados, independentemente de acordo sindical. É uma concessão à realidade.
Os empresários têm razão em dizer que isso prejudica o emprego?
É uma pergunta legítima. Se abrir em feriado fica mais caro e mais complicado, alguns lojistas podem decidir não abrir. Mas também é verdade que sem proteção sindical, trabalhadores podem ser pressionados a trabalhar em condições ruins.
Por que Marinho não incluiu empresários na mesa de negociação?
Ele conversou com a CNC, que é uma confederação. Mas as frentes parlamentares dizem que não foram ouvidas de verdade, que a mesa foi montada de forma desequilibrada. É uma questão de quem senta à mesa e com quanto peso.
O Congresso consegue derrubar isso?
Pode. Tem um projeto de lei pronto que faz o oposto — permite trabalho em feriados sem obrigatoriedade de convenção. Se conseguir votos, consegue derrubar. Mas o governo tem seus próprios votos também.
The Pulse
- A portaria do Ministério do Trabalho reacende uma tensão estrutural: ao exigir convenções coletivas para feriados no varejo, o governo reverte uma flexibilização de Bolsonaro e devolve poder de barganha aos sindicatos.
- Confederações do varejo, supermercados e frentes parlamentares empresariais reagiram em bloco, acusando a medida de criar insegurança jurídica e de contrariar a Lei de Liberdade Econômica de 2019.
- O Congresso não ficou parado: a Câmara aprovou urgência para um projeto que tornaria o trabalho em feriados permanentemente livre de obrigações sindicais, e senadores e deputados prometem continuar a pressão.
- O ministro Marinho recuou da versão original após a pressão inicial, prometeu exceções para serviços essenciais e uma nova publicação em fevereiro, mas parlamentares dizem que as concessões são insuficientes.
- A batalha agora se divide em duas frentes simultâneas: a portaria que chega em fevereiro e o projeto de lei 5552/2023, que pode enterrar definitivamente a exigência de negociação coletiva nos feriados.
No Brasil, o direito de abrir as portas em um feriado tornou-se palco de uma disputa mais profunda sobre quem detém o poder de mediar o trabalho: o Estado, os sindicatos ou o mercado. O Ministério do Trabalho, sob o comando de Luiz Marinho, reafirmou em janeiro de 2024 uma portaria que exige negociação coletiva para o comércio varejista funcionar em feriados, restaurando um papel central aos sindicatos que havia sido esvaziado na era Bolsonaro. A medida, prevista para ser publicada em fevereiro, encontra resistência organizada no empresariado e no Congresso, revelando que a questão vai além do calendário comercial — trata-se de uma disputa sobre o modelo de relações trabalhistas que o país quer construir.
O governo brasileiro decidiu manter uma regra que transforma a abertura do comércio nos feriados em matéria de negociação sindical obrigatória. A portaria, anunciada pelo ministro Luiz Marinho em 24 de janeiro de 2024 e prevista para publicação em fevereiro, determina que o varejo só pode funcionar nessas datas mediante acordo com as convenções coletivas. Farmácias e postos de gasolina ficam isentos por serem considerados serviços essenciais.
A medida tem história. Em novembro de 2023, Marinho já havia revogado uma norma de Bolsonaro que permitia acordos diretos entre patrões e empregados, sem intermediação sindical. A reação foi imediata e organizada: confederações do varejo criticaram publicamente, a Câmara aprovou urgência para um projeto de lei contrário e o governo, pressionado, recuou e prometeu uma versão revisada. A portaria de fevereiro é essa versão — com exceções, mas mantendo a espinha dorsal da exigência sindical.
Na prática, a regra fortalece os sindicatos, que passam a ter poder de negociação e podem cobrar contribuições dos empregadores para fechar os acordos de feriado. Para os críticos, isso representa um retrocesso: a Abras e cinco frentes parlamentares empresariais lançaram nota conjunta apontando violação à Lei de Liberdade Econômica de 2019 e risco de desemprego. Também criticaram o processo — Marinho ouviu sindicatos e a CNC, mas deixou de fora entidades empresariais de livre adesão.
No Congresso, a resistência é explícita. O senador Efraim Filho e o deputado Vitor Lippi afirmaram que as mudanças são insuficientes e que a luta para derrubar a portaria continua. Joaquim Passarinho, da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, foi mais moderado, mas reconheceu que a negociação está "meio desbalanceada" e propôs um novo encontro com mais segmentos. Marinho, por sua vez, disse que respeitará as decisões do Legislativo, mas admitiu não compreender a motivação real da resistência. A portaria sai em fevereiro; o projeto de lei 5552/2023, que tornaria os feriados permanentemente livres de obrigações sindicais, segue em disputa.
O governo decidiu manter uma regra que vai mudar como o comércio varejista funciona nos feriados brasileiros. A partir de fevereiro, quando uma nova portaria for publicada, os lojistas só poderão abrir nessas datas se negociarem com as convenções coletivas — basicamente, com os sindicatos que representam os trabalhadores. Farmácias e postos de gasolina ficam de fora dessa exigência, considerados serviços essenciais. O ministro Luiz Marinho, da pasta de Trabalho e Emprego, anunciou a decisão na quarta-feira 24 de janeiro de 2024, depois de meses de pressão política e negociações nos bastidores.
Esta não é a primeira vez que o governo toca nesse assunto. Em novembro de 2023, Marinho publicou uma portaria revogando uma medida de Jair Bolsonaro de 2021 que permitia acordos diretos entre patrões e empregados, sem intermediação sindical. A reação foi imediata: confederações do varejo, como a CNC e a Fecomércio, criticaram duramente. Parlamentares se articularam. A Câmara aprovou urgência para votar um projeto de lei que vetaria a portaria. Diante da pressão, o governo recuou, revogou o texto original e prometeu uma nova versão até 1º de março. Agora, em janeiro, Marinho anuncia as exceções e a republicação para fevereiro.
Na prática, a medida fortalece os sindicatos. As organizações que organizam as convenções coletivas ganham poder de negociação e podem cobrar uma contribuição negocial dos empregadores para fechar os acordos. Isso significa que um lojista que queira abrir no feriado não negocia só com seus funcionários — precisa passar pela convenção coletiva, que tem seus próprios interesses e custos. Marinho insistiu que a regra vale apenas para feriados, não para domingos, depois que a portaria inicial deixou essa dúvida no ar.
Os críticos não se conformaram com as mudanças. A Abras, associação que representa supermercados, junto com cinco frentes parlamentares ligadas ao empresariado, divulgou uma nota conjunta chamando a medida de retrocesso. Apontam insegurança jurídica: a Lei de Liberdade Econômica de 2019 estabelece que pessoas e empresas podem trabalhar em feriados sem cobranças adicionais. A portaria, na visão deles, viola essa lei. Também levantam preocupação com desemprego. E criticam a forma como Marinho reformulou a medida — conversou com sindicatos e com a CNC, mas não incluiu representantes das entidades empresariais de livre adesão na mesa de diálogo.
No Congresso, a reação é de resistência contínua. Efraim Filho, presidente da Frente Parlamentar do Comércio e Serviços no Senado, disse ao Poder360 que os congressistas vão continuar tentando derrubar a portaria. O deputado Vitor Lippi, do PSDB de São Paulo, afirmou que as modificações não são suficientes e que a preocupação com atividades econômicas é essencial para o emprego. Joaquim Passarinho, da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, foi menos duro, mas apontou que o problema não é a proposta em si, e sim como foi negociada — "está meio desbalanceado", disse. Ele se reuniu com Marinho na quinta-feira 25 de janeiro para propor outro encontro que ouça mais segmentos, possivelmente em 30 ou 31 de janeiro.
Marinho respondeu que não consegue discutir com o Congresso porque não sabe qual é a motivação real da reação. Afirmou que respeitará a decisão dos deputados e senadores. Enquanto isso, as frentes parlamentares continuam empenhadas em aprovar o projeto de lei 5552 de 2023, que deixaria o trabalho em feriados permanentemente sem obrigatoriedade de convenções coletivas. A portaria sai em fevereiro, mas a batalha legislativa está longe de terminar.
Notable Quotes
Com o Congresso eu não consigo discutir porque eu não sei a motivação da reação contra a medida— Ministro Luiz Marinho
A nova portaria apresentada pouco avançou no sentido de reduzir a interferência sindical nos acordos estabelecidos entre trabalhador e empregador— Nota conjunta da Abras e frentes parlamentares