Medida buscaria comprar dívidas com alto desconto e possível liquidação, reduzindo endividamento familiar e restringindo crédito bancário. Discussão ainda enfrenta desafios sobre impacto nas contas públicas, pois extinção de dívidas piora resultado primário do governo.
Governo estuda comprar dívidas antigas de famílias com recursos públicos
Aliviar famílias e limpar balanços bancários ao mesmo tempo
Por que o governo quer comprar essas dívidas dos bancos em vez de simplesmente perdoá-las?
Porque os bancos têm essas dívidas nos balanços como ativos problemáticos. Quando o governo compra com desconto, o banco consegue se livrar delas e limpar seu balanço, o que o incentiva a voltar a emprestar. É um ganha-ganha — pelo menos em teoria.
Mas qual é o ganho real para o governo? Se ele compra a dívida por 5% do valor e depois a cancela, está pagando 5% do valor original com dinheiro público. Isso é subsídio disfarçado.
Verdade. E por isso a discussão está travada. O Tesouro quer fazer isso sem piorar o resultado primário, o que é tecnicamente complicado.
E as famílias? Elas simplesmente ficam livres da dívida?
Sim, se o governo decidir liquidar. Mas aí vem a segunda parte: o BC quer impedir que essas mesmas famílias se endividem novamente, apertando as regras para crédito caro.
Então o governo está tentando resolver um problema de endividamento familiar ao mesmo tempo que tenta resolver um problema de balanços bancários. São dois problemas diferentes.
E se não conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo?
Aí o programa fica menor, mais focado, ou não sai do papel. Por enquanto, ainda está em discussão.
Quando você diz "em discussão", você quer dizer que ninguém sabe ainda como fazer isso sem quebrar as regras fiscais?
Exatamente. É por isso que a implementação pode ser só em novembro — precisam resolver essa questão primeiro.
Le Pouls
- Desconto de até 95% no valor das dívidas que o governo compraria dos bancos
- Foco em dívidas de até R$ 15 mil contraídas entre 2020 e 2022
- Possível implementação a partir de novembro de 2026
- Emgea (Empresa Gestora de Ativos) como possível operadora da medida
Medida buscaria comprar dívidas com alto desconto e possível liquidação, reduzindo endividamento familiar e restringindo crédito bancário. Discussão ainda enfrenta desafios sobre impacto nas contas públicas, pois extinção de dívidas piora resultado primário do governo.
O governo Lula avalia usar recursos do Tesouro para adquirir dívidas antigas de consumidores junto aos bancos, com descontos de até 95%, visando reduzir endividamento das famílias e limpar balanços bancários.
O governo federal está analisando um programa ambicioso: usar dinheiro público para comprar dívidas antigas que as famílias contraíram com os bancos, oferecendo aos credores descontos de até 95% sobre o valor original. A ideia é dupla — aliviar o peso financeiro sobre consumidores endividados e, ao mesmo tempo, limpar os balanços das instituições bancárias, que têm se tornado mais cautelosas na concessão de crédito conforme a inadimplência cresce.
O Ministério da Fazenda, sob comando de Dario Durigan, confirmou que a discussão está avançada. Em declaração recente, o ministro descreveu o modelo em desenvolvimento: o governo faria um leilão para adquirir essas dívidas com um desconto substancial, de forma a não gerar um impacto muito grande nas contas públicas do país. A possibilidade mais ambiciosa em debate é que, após comprar a dívida, o governo simplesmente a cancele — transformando o débito em quitado, sem que o consumidor precise pagar nada.
Mas há um obstáculo técnico significativo. Se o governo liquidar essas dívidas, o resultado primário das contas públicas piora. Isso ocorre porque o Banco Central, responsável pelas estatísticas fiscais oficiais, mede o esforço fiscal pela variação dos estoques de passivos e ativos — ou seja, pela situação da dívida pública. Quando a União extingue uma dívida, reduz seu ativo, o que deteriora o resultado. Essa contradição está no cerne das discussões internas: como ajudar as famílias sem comprometer as metas fiscais que o governo precisa cumprir?
O programa teria como alvo as mesmas famílias beneficiadas pelo Desenrola anterior, com foco em dívidas de até 15 mil reais contraídas entre 2020 e 2022 — o período em que os efeitos da pandemia de Covid-19 foram mais severos. Segundo Regis Dudena, secretário de Reformas Econômicas da Fazenda, o comando do presidente Lula é examinar em que medida faz sentido atacar esses públicos com débitos mais antigos. A implementação poderia começar já em novembro, segundo fontes ouvidas pela reportagem.
Operacionalmente, o Tesouro forneceria os recursos para a compra. Quanto à execução, o governo possui uma empresa estatal especializada nesse tipo de operação: a Emgea (Empresa Gestora de Ativos), criada em 2001 justamente para administrar carteiras de crédito problemáticas da Caixa Econômica Federal. Técnicos consultados apontam a Emgea como um caminho viável, embora o nome da empresa ainda não tenha sido formalmente citado nas discussões internas.
Mas a compra de dívidas é apenas uma parte da estratégia. O Banco Central está preparando medidas macroprudenciais complementares — regras que impeçam as famílias de cair novamente em endividamento após serem beneficiadas. Uma delas é apertar as exigências de capital próprio dos bancos para operações de cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia, modalidades mais caras para o consumidor. Exigir mais capital próprio das instituições financeiras tornaria mais custosa a concessão desse tipo de crédito, reduzindo a oferta.
Outras medidas em discussão buscam coibir abusos nas ofertas agressivas de empréstimos. O BC está preocupado com as propostas de crédito pré-aprovado de valor elevado que aparecem nos aplicativos das instituições financeiras, frequentemente em cores chamativas na tela inicial. O banco central avalia quais devem ser os limites e condições para essas propostas, e considera determinar regras específicas de proteção aos consumidores mais vulneráveis.
O objetivo declarado é fortalecer a sustentabilidade do crédito e a resiliência do sistema financeiro. Conforme informou o BC na ata de sua última reunião, em agosto, as medidas visam promover o reconhecimento tempestivo dos riscos, o acúmulo gradual de capital e condições mais sustentáveis de oferta de crédito. O programa, portanto, não é apenas uma ação de alívio social — é parte de uma estratégia mais ampla para reequilibrar o mercado de crédito brasileiro.
Citations marquantes
Estamos caminhando para um modelo em que a gente faça o leilão e viabilize a compra dessa dívida com um deságio alto para que a gente não tenha grande impacto nas contas públicas do país— Dario Durigan, ministro da Fazenda
Existe ainda um público depois, com dívidas mais velhas. O comando do presidente Lula é olhar em que medida faz sentido atacar esses outros públicos— Regis Dudena, secretário de Reformas Econômicas da Fazenda