Governo divulga estudos mostrando que medidas econômicas têm impacto setorial limitado e não pressionam demanda agregada da economia. Aumento de expectativas inflacionárias está ligado a choques climáticos e internacionais, não a estímulo de crédito do governo, segundo análise.
Governo defende medidas econômicas como seguras para inflação e fiscal
Essas políticas têm benefício social e impacto econômico positivo
Por que o governo insiste que essas medidas não pressionam a inflação quando o mercado parece tão preocupado?
Porque a preocupação do mercado não é baseada em dados. Os estudos mostram que o aumento das expectativas inflacionárias está ligado a choques externos — guerra, clima, combustível — não ao estímulo de crédito do governo. O impulso de crédito do Banco Central continua negativo.
Mas R$ 200 bilhões é uma quantia enorme. Como isso não afeta a demanda?
Essas políticas são setoriais. Você está financiando casas, educação, saúde — não está injetando dinheiro na economia de forma generalizada. É diferente de um estímulo fiscal amplo que aumentaria a demanda agregada.
E quanto aos subsídios implícitos? Não é isso um gasto escondido?
Não está escondido. Está no Orçamento de Subsídios da União, que é uma exigência constitucional. O que mudou é que agora o governo quer consolidar essas informações em um único lugar para facilitar o acesso e aumentar a transparência.
Qual é o risco real se essas políticas não funcionarem como o governo espera?
O risco de inadimplência fica com o banco, não com o governo. O dinheiro volta com juros. O que importa é se o ajuste fiscal continua — e o déficit primário já caiu dois pontos do PIB desde 2023.
Então por que tanta resistência do mercado?
Porque é difícil ver o benefício quando você está focado no custo. As pessoas veem R$ 200 bilhões e pensam que está sendo jogado fora. Não veem que estão sendo criados empregos, renda, arrecadação. É uma questão de como você enquadra o debate.
The Pulse
- Pacote de medidas econômicas soma quase R$ 200 bilhões
- Déficit primário é dois pontos do PIB menor que em 2023
- Aumento de expectativas inflacionárias ligado a choques climáticos e internacionais, não a estímulo de crédito
- Fundo Social tem metade dos recursos destinados a educação e saúde, outra metade para Minha Casa Minha Vida
Governo divulga estudos mostrando que medidas econômicas têm impacto setorial limitado e não pressionam demanda agregada da economia. Aumento de expectativas inflacionárias está ligado a choques climáticos e internacionais, não a estímulo de crédito do governo, segundo análise.
Secretário do Planejamento afirma que pacote de R$ 200 bilhões em medidas econômicas tem efeitos positivos mas não compromete metas fiscais nem inflação, rebatendo críticas de analistas.
Guilherme Mello, secretário-executivo do Ministério do Planejamento e Orçamento, saiu em defesa das medidas econômicas anunciadas pelo governo federal neste ano de eleições. Em entrevista à Folha, ele rebateu críticas que descrevem o pacote como um conjunto de bondades eleitorais, afirmando que o conjunto de ações, que soma quase R$ 200 bilhões, tem impacto positivo sobre a economia sem comprometer as metas fiscais ou o controle da inflação.
O secretário citou dois estudos divulgados pelo ministério no início de julho para sustentar sua posição. O primeiro aponta benefícios sociais e econômicos das medidas. O segundo, mais importante para rebater as críticas inflacionárias, calcula que o aumento das expectativas de inflação desde março não decorre do estímulo à demanda que essas políticas deveriam gerar. Segundo a análise do governo, usando um modelo do Banco Central, praticamente todo o aumento da expectativa inflacionária está ligado a choques climáticos, conflitos internacionais, variação de preços de combustíveis e inércia inflacionária — não a um choque de demanda causado pelas medidas governamentais.
Mello explicou como funciona o uso de fundos públicos nas políticas. O Fundo Social, criado fundamentalmente com rendas do petróleo, tinha metade de seus recursos destinados a educação e saúde, enquanto a outra metade permanecia como reserva estratégica nunca regulamentada. O Tribunal de Contas da União cobrou o governo para que construísse um plano de atuação. A solução foi autorizar que essa parte não destinada fosse utilizada como fonte de financiamento para finalidades sociais, especialmente o programa Minha Casa Minha Vida. Quando o recurso fica na conta única do Tesouro, rende a taxa Selic; quando destinado a uma finalidade social, é remunerado a uma taxa menor para viabilizar empréstimos. Esse custo de oportunidade, chamado por muitos de subsídio implícito, está registrado no Orçamento de Subsídios da União, conforme determinação constitucional. O governo pretende aumentar a transparência consolidando essas informações em um novo anexo da Lei Orçamentária Anual a partir de 2027.
O secretário criticou o debate público sobre essas políticas por enfatizar custos sem mencionar benefícios. Ele apontou que muitos analistas afirmam que as políticas estão fora do orçamento ou ocultas, o que chamou de erro grave, já que os custos estão explicitados no Orçamento de Subsídios. Também rebateu a ideia de que essas políticas estimulam demanda de forma generalizada: são setoriais, focalizadas em determinadas atividades, e não têm o poder de alterar grandes agregados econômicos. Se a crítica fosse verdadeira, afirmou, estaríamos vendo expectativas de crescimento do PIB muito superiores às observadas antes das políticas.
Sobre o risco de inadimplência, Mello esclareceu que na maioria ou quase totalidade desses programas o risco fica com a instituição financeira que empresta, não com o governo federal. O dinheiro retorna acrescido de juros. Algumas políticas contam com fundos garantidores, e quando o governo faz um aporte nesses fundos, isso gera despesa primária devidamente registrada no orçamento — não é um contorno do arcabouço fiscal.
Quanto à trajetória da dívida pública, o secretário argumentou que o impacto dessas medidas é pouco relevante quando se consideram os principais componentes que a determinam: o valor inicial da dívida, a trajetória de crescimento do PIB, o pagamento de juros e o resultado primário. Dentro do universo de crédito no Brasil, essas políticas são pequenas e focalizadas. Mello reconheceu que a preocupação com a trajetória da dívida é legítima, mas afirmou que o governo já fez parte do trabalho necessário para entregar um ajuste das contas públicas gradual e sustentável. O déficit primário é dois pontos do PIB menor do que era em 2023. O governo promete continuar esse processo usando o arcabouço fiscal, a regra que vem cumprindo religiosamente todo ano apesar da desconfiança inicial. A média de crescimento da despesa total no PIB entre 2016 e 2022 ficava acima de 19% do PIB; nos últimos dois anos, ficou abaixo. O secretário afirmou que o país fechará o próximo ano com as contas no azul e que o governo tem instrumentos para dar continuidade ao processo de ajuste, tanto no controle de despesas quanto na recomposição da receita com justiça tributária.
Notable Quotes
Essas medidas têm impacto positivo sobre a economia, mas não colocam em risco as metas fiscais e o controle da inflação— Guilherme Mello, secretário-executivo do Ministério do Planejamento e Orçamento
Praticamente todo o aumento da expectativa inflacionária está ligado a choques climáticos, conflitos internacionais e inércia, não a um choque de demanda— Análise do governo usando modelo do Banco Central