No subsolo de Goiás repousam minerais que o mundo moderno considera tão valiosos quanto o petróleo foi para o século passado. O governo Lula contesta um contrato que enviaria toda a produção inicial de terras raras para os Estados Unidos, argumentando que esses recursos são patrimônio da União e não podem ser cedidos sem uma política nacional que ainda aguarda aprovação no Senado. A disputa revela uma tensão mais profunda entre a lógica da exportação de matéria-prima e a ambição de transformar o Brasil em produtor de tecnologia avançada — chips, baterias, equipamentos de defesa — antes de abri
Governo avalia rever contrato de exploração de terras raras em Goiás
Exportar tudo bruto significa perder a oportunidade de criar indústria aqui
Por que o governo está tão preocupado com esse contrato específico? Não é normal empresas exportarem matéria-prima?
É normal, mas terras raras são diferentes. São recursos estratégicos para tecnologia, defesa, energia limpa. Exportar tudo bruto significa perder a oportunidade de criar indústria aqui.
E por que o governo acha que pode rever um contrato já assinado?
Porque não existe ainda uma política nacional clara. Sem regras, argumentam que a empresa não tem direito adquirido. É uma brecha legal que o governo quer explorar.
Qual é o prazo para isso acontecer?
Depende do Congresso. Se aprovar rápido a política de minerais críticos, o conselho regulador entra em ação logo. Se demorar, o governo pode ir para a Justiça antes.
E se a empresa americana disser que foi prejudicada?
Pode haver disputa legal, sim. Mas o governo está apostando que, como o recurso é patrimônio da União, tem legitimidade para estabelecer novas regras.
Qual seria o modelo ideal para o governo?
Que as empresas extraiam aqui, processem aqui, criem tecnologia aqui. Capital estrangeiro é bem-vindo, mas o valor agregado fica no Brasil.
Isso é viável economicamente?
É o que o governo quer descobrir. Por isso a política nacional — para estabelecer as condições certas e atrair investimento que faça sentido para o país.
El Pulso
- Um contrato entre empresas prevê exportar 100% da produção inicial de terras raras de Goiás diretamente para os Estados Unidos, ignorando qualquer etapa de industrialização no Brasil.
- O governo Lula enxerga na cláusula uma afronta à soberania nacional, já que as terras raras estão no subsolo brasileiro e são, por lei, patrimônio da União.
- A aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos no Senado é o gatilho que o governo aguarda para rever formalmente os termos do acordo e criar um conselho regulador vinculado à Presidência.
- Se o Congresso demorar, a administração federal estuda acionar a Justiça para barrar a exploração pela empresa americana mesmo antes de qualquer novo marco legal entrar em vigor.
- A posição do governo é clara: capital estrangeiro é bem-vindo, mas apenas se os minerais forem processados em solo brasileiro e convertidos em produtos de alto valor antes de qualquer exportação.
No subsolo de Goiás repousam minerais que o mundo moderno considera tão valiosos quanto o petróleo foi para o século passado. O governo Lula contesta um contrato que enviaria toda a produção inicial de terras raras para os Estados Unidos, argumentando que esses recursos são patrimônio da União e não podem ser cedidos sem uma política nacional que ainda aguarda aprovação no Senado. A disputa revela uma tensão mais profunda entre a lógica da exportação de matéria-prima e a ambição de transformar o Brasil em produtor de tecnologia avançada — chips, baterias, equipamentos de defesa — antes de abrir qualquer fronteira ao exterior.
O governo federal está contestando um contrato que permitiria a uma empresa americana exportar toda a produção inicial de terras raras extraídas em Goiás para os Estados Unidos. A cláusula é o ponto mais sensível de um acordo que combinaria operações de duas empresas para construir uma cadeia de produção de ímãs fora da Ásia — região que domina esse mercado global.
O argumento do governo é direto: as terras raras estão no subsolo brasileiro e são patrimônio da União. Sem uma Política Nacional de Minerais Críticos consolidada, a empresa não teria direito adquirido sobre esses recursos. Esse projeto de lei foi aprovado pela Câmara em maio e aguarda votação no Senado. Segundo assessores do presidente Lula, a aprovação abre caminho para rever o contrato.
A estratégia tem dois caminhos. Se o Congresso agir rapidamente, será criado o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, que validará todos os projetos de mineração no país. Se a aprovação se arrastar, o governo avalia acionar a Justiça contra a exploração pela empresa americana ainda antes de o conselho existir.
O que Lula quer, no fundo, é mudar o modelo. Ministros deixam claro que o capital estrangeiro só será aceito sob uma condição: os minerais precisam ser transformados no Brasil em produtos de alta tecnologia — chips, baterias, equipamentos de defesa — antes de qualquer exportação. O contrato atual, que envia 100% da produção para fora, vai na contramão dessa visão. Para o governo, trata-se de soberania sobre recursos naturais e da oportunidade de construir uma indústria tecnológica dentro do país. O próximo passo depende tanto da velocidade do Congresso quanto da disposição do governo de levar o caso aos tribunais.
O governo federal está questionando um contrato que permitiria a exportação de toda a produção inicial de terras raras extraídas em Goiás para os Estados Unidos. A cláusula é o ponto mais sensível de um acordo que combinaria as operações de duas empresas para construir uma cadeia completa de produção de ímãs — desde a mineração até a fabricação — fora da Ásia, região que atualmente domina esse mercado global.
O Brasil ainda não possui uma Política Nacional de Minerais Críticos. Um projeto de lei que estabeleceria essas diretrizes foi aprovado pela Câmara dos Deputados em maio e aguarda votação no Senado Federal. Segundo assessores do presidente Lula, essa aprovação abre caminho para rever o contrato em questão. O argumento é simples: as terras raras estão no subsolo brasileiro, o que as torna patrimônio da União. Sem uma política nacional consolidada, a empresa não teria direito adquirido sobre esses recursos, permitindo ao governo questionar ou reformular os termos do acordo.
A estratégia do governo é multifacetada. Se o Congresso aprovar rapidamente o projeto de lei, será criado o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, vinculado à Presidência da República. Esse órgão definiria as diretrizes do setor e validaria todos os projetos de mineração no país. Mas há um cenário alternativo: se a aprovação se arrastar, integrantes da administração federal avaliam acionar a Justiça contra a exploração das terras raras pela empresa americana, mesmo antes do conselho estar em funcionamento.
O que o governo quer, fundamentalmente, é mudar o modelo de exploração. Ministros de Lula deixam claro que a política deve incentivar investimentos privados nacionais e permitir capital estrangeiro apenas sob uma condição: os minerais precisam ser transformados no Brasil. A ideia não é extrair matéria-prima bruta para vender ao exterior. É processar esses recursos em solo brasileiro, convertendo-os em produtos de alta tecnologia — chips, baterias, equipamentos de defesa nacional — antes de qualquer exportação.
Essa mudança de postura reflete uma prioridade mais ampla do governo Lula. A exploração de terras raras e minerais críticos está entre as questões estratégicas que a administração federal quer controlar com mais rigor. O contrato atual, que envia 100% da produção inicial para os Estados Unidos, vai na contramão dessa visão. Para o governo, não se trata apenas de um negócio comercial, mas de soberania sobre recursos naturais e da oportunidade de construir uma indústria de tecnologia avançada dentro do país. O próximo passo depende tanto da velocidade do Congresso quanto da disposição do governo de levar o caso aos tribunais.
Citas Notables
A política de exploração deve incentivar investimentos privados nacionais, com capital estrangeiro permitido desde que os minerais sejam transformados no Brasil— Ministros do presidente Lula