Em meio à corrida global pela liderança em inteligência artificial, o Google se vê diante de um paradoxo familiar às grandes instituições: quanto maior o império a proteger, mais difícil é mover-se com agilidade. O Gemini 3.5 Pro, modelo que deveria consolidar a posição da Alphabet na vanguarda da IA, acumula meses de atraso enquanto rivais como OpenAI e Anthropic avançam — revelando que a complexidade interna de uma empresa pode ser tão desafiadora quanto a competição externa. A demora não é apenas técnica; é o reflexo de uma organização tentando reconciliar velocidade, segurança, política e
Google adia Gemini 3.5 Pro e enfrenta pressão de rivais em IA
Alinhar a liderança de todas as áreas é como ferver o oceano
Por que o Google está tão atrasado com o Gemini 3.5 Pro? Parece que é só um modelo de IA.
Não é só um modelo. É o modelo. É a resposta do Google ao ChatGPT, ao que a OpenAI e a Anthropic estão fazendo. Atrasar significa deixar o concorrente ganhar espaço em um mercado que está se formando agora.
Mas o que especificamente está atrasando? Eles não conseguem fazer o modelo funcionar?
Conseguem fazer funcionar. O problema é que conseguir funcionar não é o suficiente. Eles querem que funcione bem em programação, que é onde os rivais estão ganhando. Tentaram atualizar os dados de treinamento no mês passado e decepcionou.
Então é um problema técnico puro.
Não. Ou melhor, é também um problema de organização. O Google tenta colocar IA em tudo — busca, Maps, YouTube — e isso cria uma burocracia interna gigante. Quando você tem múltiplos departamentos competindo pelos mesmos recursos, nada sai rápido.
Mas eles têm dinheiro infinito. Por que não contratam mais gente ou compram mais poder computacional?
Porque não é só dinheiro. É poder político dentro da empresa. Há engenheiros que acham que código importante deve ser escrito por humanos. Há disputas sobre quem controla quais ferramentas. Há medo de vazamento de código proprietário. Tudo isso congela a ação.
E os clientes? Eles estão esperando ou já foram embora?
Alguns estão esperando. A Figma achou o Flash aceitável. Mas a Platzi, que é uma plataforma de educação grande na América Latina, já trocou por um modelo da Anthropic porque o Flash é caro, lento e não lida bem com dados estruturados. Quando você perde um cliente assim, é porque o concorrente está oferecendo algo melhor.
Qual é o risco real aqui para o Google?
Que a IA deixe de ser um diferencial e vire uma commodity. E que quando o Gemini 3.5 Pro finalmente chegar, já seja tarde demais.
O Pulso
- O Gemini 3.5 Pro estava previsto para maio, mas o Google não conseguiu entregar o modelo a tempo — e cada semana de espera é uma semana em que concorrentes consolidam vantagem em capacidades de programação.
- Uma tentativa recente de atualizar os dados de treinamento para melhorar a escrita de código decepcionou internamente, e o mercado respondeu com uma queda de 3,2% nas ações da Alphabet.
- Dentro da empresa, engenheiros puristas, executivos ambiciosos como Sergey Brin e equipes de segurança puxam em direções opostas, tornando quase impossível manter uma estratégia coesa — um ex-funcionário comparou o desafio a 'ferver o oceano'.
- Clientes reais já sentem o impacto: a Platzi, plataforma latino-americana de educação, abandonou o Gemini 3.5 Flash em favor de um modelo intermediário da Anthropic por ser mais lento, mais caro e menos capaz com dados estruturados.
- O Google afirma estar testando o 3.5 Pro com parceiros e dialogando com o governo americano sobre regulação, mas enquanto o modelo não chega, pesquisadores continuam migrando para laboratórios concorrentes.
Em meio à corrida global pela liderança em inteligência artificial, o Google se vê diante de um paradoxo familiar às grandes instituições: quanto maior o império a proteger, mais difícil é mover-se com agilidade. O Gemini 3.5 Pro, modelo que deveria consolidar a posição da Alphabet na vanguarda da IA, acumula meses de atraso enquanto rivais como OpenAI e Anthropic avançam — revelando que a complexidade interna de uma empresa pode ser tão desafiadora quanto a competição externa. A demora não é apenas técnica; é o reflexo de uma organização tentando reconciliar velocidade, segurança, política e identidade ao mesmo tempo.
O Google acumula meses de atraso no lançamento do Gemini 3.5 Pro, seu modelo de IA mais poderoso, e a espera está corroendo a confiança interna. A empresa esperava anunciar o modelo na conferência de desenvolvedores de maio, mas o lançamento não aconteceu. Segundo funcionários atuais e ex-funcionários, a Alphabet tem priorizado melhorias em programação antes de liberar o modelo ao público — e uma tentativa recente de atualizar os dados de treinamento para esse fim decepcionou, derrubando as ações em 3,2%.
Parte do problema é estrutural. O Google precisa integrar IA a um portfólio imenso — busca, Maps, YouTube — e cada lançamento exige o alinhamento de múltiplas camadas de liderança. Um ex-funcionário descreveu esse processo como 'ferver o oceano'. Quando departamentos disputam recursos computacionais e prioridades se fragmentam, qualquer ferramenta específica perde fôlego. Há também uma divisão ideológica: enquanto Sergey Brin defende aceleração, engenheiros mais puristas resistem ao uso de IA para escrever código, e restrições antigas sobre o uso do Gemini internamente limitaram oportunidades de experimentação.
A pressão regulatória adiciona outra camada de complexidade. O governo americano monitora de perto os modelos mais avançados, e tanto a Anthropic quanto a OpenAI já foram forçadas a pausar ou escalonar lançamentos por preocupações de segurança. O Google afirma manter diálogo produtivo com Washington e testar o 3.5 Pro com parceiros selecionados.
No mercado, os efeitos já são visíveis. Rodrigo Davies, da Figma, encontrou no Gemini 3.5 Flash um equilíbrio aceitável entre velocidade e qualidade. Já Freddy Vega, da Platzi, descreveu o mesmo modelo como caro, lento e incapaz de lidar bem com dados estruturados — e migrou para a Anthropic. Pesquisadores também têm deixado o Google em direção a laboratórios concorrentes, atraídos pela percepção de que Anthropic e OpenAI constroem modelos mais poderosos. Enquanto o Gemini 3.5 Pro não chega, a distância entre o Google e seus rivais continua crescendo.
O Google está meses atrasado no lançamento do Gemini 3.5 Pro, seu modelo de inteligência artificial mais poderoso, e a demora está alimentando uma frustração crescente dentro da empresa. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a Alphabet tem tentado melhorar as capacidades do modelo, especialmente em programação, antes de colocá-lo nas mãos dos usuários. O mercado esperava amplamente que o anúncio viesse na conferência de desenvolvedores da empresa em maio, mas isso não aconteceu.
A pressão interna é real. Dez funcionários atuais e ex-funcionários descrevem uma companhia preocupada em perder vantagem competitiva enquanto rivais como Anthropic e OpenAI lançam modelos que já superam o Gemini em algumas áreas críticas. No final do mês passado, o Google tentou atualizar os dados de treinamento do Gemini para melhorar seu desempenho em escrita de código, mas os resultados decepcionaram. As ações da Alphabet caíram 3,2% na quinta-feira.
Parte do problema está na própria estrutura do Google. A empresa tenta integrar inteligência artificial a um portfólio imenso de produtos — busca, Maps, YouTube — e reúne múltiplas camadas de interessados no processo de preparação de cada modelo para lançamento. Um ex-funcionário descreveu o desafio de alinhar a liderança de todas essas áreas como "ferver o oceano". Quando as prioridades mudam ou os esforços se duplicam entre departamentos, fica ainda mais difícil manter uma estratégia coesa. Qualquer ferramenta específica acaba tendo dificuldade em receber os recursos necessários para se destacar no mercado.
O Google também enfrenta pressão regulatória. A empresa mantém conversas com o governo dos Estados Unidos, que passou a monitorar com mais atenção os modelos mais avançados de IA. A Anthropic enfrentou forte reação do governo no início deste ano depois que testes internos apontaram capacidades perigosas de cibersegurança em seus modelos mais recentes, forçando a startup a suspendê-los temporariamente. A OpenAI também limitou e escalonou voluntariamente o lançamento de seu modelo mais novo após preocupações de segurança nacional e pressão do governo Trump. O Google afirma estar testando o 3.5 Pro com parceiros e mantendo um diálogo produtivo com o governo americano sobre testes e estruturas de regulação.
Dentro do Google, há também uma divisão ideológica sobre como avançar em programação com IA. Sergey Brin, cofundador da empresa, e outros executivos defendem que a companhia acelere para capturar oportunidades nessa área, mas esses esforços foram travados por disputas internas. Alguns engenheiros mais puristas argumentam que todo código importante deve ser escrito por humanos para cumprir os padrões da empresa. No início, havia também restrições para usar o Gemini na escrita ou análise de software, por receio de que código proprietário vazasse para os dados de treinamento do modelo. Essas políticas foram depois flexibilizadas, mas limitaram as oportunidades de experimentação.
O Google tem tentado reduzir essa confusão interna. A empresa afirma que 75% do código gerado agora passa por revisão, chega à produção e atende aos padrões internos. Koray Kavukcuoglu, principal arquiteto de IA, trabalha com a equipe de engenharia para unificar as ferramentas internas de programação com inteligência artificial. No início deste ano, a companhia criou dentro do DeepMind uma equipe dedicada a programação com IA, liderada pelo engenheiro Sebastian Borgeaud. Mas mesmo assim, quando engenheiros tentam usar IA para gerar código, muitas vezes esbarram em restrições de capacidade por causa da disputa interna por poder computacional.
Enquanto isso, clientes do Google têm experiências mistas com o Gemini 3.5 Flash, o modelo intermediário disponível. Rodrigo Davies, gerente de produto da plataforma de design Figma, disse que a empresa adicionou recentemente o 3.5 Flash ao seu novo assistente de IA para designers, e o modelo atingiu um ponto de equilíbrio entre velocidade e qualidade. Mas Freddy Vega, fundador e CEO da plataforma latino-americana de educação Platzi, descreveu o 3.5 Flash como ocupando um meio-termo desconfortável: é mais caro que o modelo anterior, mais lento, e continua bem menos capaz que ofertas premium dos concorrentes. Segundo ele, o modelo frequentemente tem dificuldades com dados estruturados. Para tarefas que exigem equilíbrio entre velocidade e raciocínio, a equipe da Platzi passou a usar um modelo intermediário da Anthropic em vez do Google.
A frustração de pesquisadores com a posição do Google na corrida da IA também contribuiu para uma onda de saídas rumo à Anthropic e a outros laboratórios de ponta. Pesquisadores dizem que o principal diferencial do Gemini é a capacidade de consultar dados da busca do Google, enquanto Anthropic e OpenAI abriram vantagem na construção dos modelos mais poderosos. O Google afirma ter outras forças, como a habilidade de trabalhar com diferentes tipos de entrada e avanços em modelos de mundo capazes de simular ambientes físicos. Mas enquanto o Gemini 3.5 Pro não chega, a empresa segue perdendo terreno.
Citações Notáveis
Estamos lançando rapidamente uma ampla gama de modelos, mantendo-os altamente custo-eficientes para os clientes— Porta-voz do Google
O 3.5 Flash ocupa um meio-termo desconfortável: é mais caro que o modelo anterior, mais lento, e continua bem menos capaz que ofertas premium dos concorrentes— Freddy Vega, fundador e CEO da Platzi