Giro da Saúde: fungo negro, vacina nacional e o homem que tomou 40 mil balas

Paciente de 37 anos desenvolveu graves efeitos neuropsiquiátricos após consumir 40 mil comprimidos de ecstasy em nove anos, incluindo ataques de pânico, depressão, alucinações e perda de memória.
O fungo mata mais de metade dos infectados e frequentemente exige remoção cirúrgica de partes do corpo
Médicos alertam sobre a agressividade da mucormicose em pacientes com COVID-19 no Brasil.
Mark

Por que a mucormicose está aparecendo agora, especificamente em pacientes com COVID?

Mimi

A hipótese é que os corticoides usados para tratar COVID aumentam a glicose no sangue, criando um ambiente onde o fungo prospera. Mas também há fatores de risco preexistentes — diabetes, problemas de imunidade — que amplificam a vulnerabilidade.

Mark

E quanto à vacina nacional? Isso muda o jogo?

Mimi

Muda, mas lentamente. Outubro é ainda longe, e a produção foi cortada pela metade. Ainda assim, ter capacidade de produção aqui reduz dependência externa e acelera futuras campanhas.

Mark

A CoronaVac recebeu aprovação da OMS. Isso significa que é segura?

Mimi

Significa que passou pelos testes de segurança, eficácia e qualidade da organização. Não é uma garantia absoluta, mas é o aval mais respeitado globalmente.

Mark

Esse caso do ecstasy — 40 mil comprimidos — como alguém chega a isso?

Mimi

Começou gradualmente. Cinco por fim de semana virou 25 por dia. A escalada é insidiosa. E quando parou, o corpo e a mente já estavam profundamente alterados.

Mark

Os efeitos que ele desenvolveu são permanentes?

Mimi

O relato não deixa claro. Mas ataques de pânico, depressão e perda de memória dessa magnitude sugerem danos neurológicos que podem ser duradouros.

  • O fungo negro avança silenciosamente entre pacientes de COVID-19 no Brasil, com casos em Manaus, São Paulo e Santa Catarina, e uma taxa de mortalidade que supera 50% dos infectados.
  • A suspeita de que corticoides usados no tratamento da COVID elevam a glicose no sangue e favorecem o fungo transforma um recurso terapêutico em potencial fator de risco.
  • A Fiocruz assina contrato para produzir a Covishield em solo brasileiro, mas as metas caem de 110 para 50 milhões de doses em 2021, revelando os desafios reais da autonomia vacinal.
  • A OMS aprova emergencialmente a CoronaVac, completando o aval internacional a todos os imunizantes aplicados no Brasil e abrindo caminho para distribuição em regiões com poucos recursos.
  • Nos Estados Unidos, uma vacina universal contra gripe entra em fase de testes humanos, enquanto a China registra o primeiro caso de H10N3 em humano — classificado como esporádico e sem potencial pandêmico.
  • Em Londres, o relato de um homem que consumiu 40 mil comprimidos de ecstasy em nove anos expõe os efeitos neuropsiquiátricos devastadores do uso extremo, oferecendo à ciência uma janela rara e perturbadora.

Ao longo de uma semana, o Brasil se viu diante de um fungo letal que avança entre pacientes de COVID-19, de promessas e ajustes na produção nacional de vacinas, e da aprovação internacional da CoronaVac — enquanto um caso clínico extremo em Londres lembrava, com brutalidade, os limites do corpo humano diante do abuso de substâncias. São histórias distintas unidas por um fio comum: a fragilidade da saúde coletiva e individual, e os esforços — científicos, institucionais e pessoais — para preservá-la.

A semana de saúde trouxe um mosaico de alertas e avanços que vai do microscópico ao humano. No Brasil, a mucormicose — doença causada pelo chamado fungo negro — ganhou atenção após a morte de um paciente em Manaus em maio. Casos sob investigação em São Paulo e Santa Catarina acenderam o sinal de alerta: a doença mata mais da metade dos infectados e pode exigir a remoção cirúrgica de olhos, nariz e tecidos faciais, chegando a atingir o cérebro. A conexão com a COVID-19, já observada na Índia, levanta a hipótese de que o uso de corticoides no tratamento eleva a glicose no sangue, criando condições favoráveis para o fungo prosperar.

No campo das vacinas, a Fiocruz formalizou contrato para a transferência de tecnologia da Covishield, com produção do insumo farmacêutico ativo prevista para outubro. A meta, porém, foi revisada para baixo: de 110 milhões para 50 milhões de doses em 2021. Na mesma semana, a CoronaVac recebeu aprovação emergencial da OMS, que a considerou segura, eficaz e adequada para regiões com infraestrutura limitada de armazenamento. Com isso, todos os imunizantes em uso no Brasil passam a contar com o aval da organização.

No horizonte científico, os Estados Unidos iniciaram testes em humanos da FluMos-v1, uma vacina universal contra gripe baseada em nanopartículas que promete proteção duradoura contra múltiplas cepas. A China, por sua vez, reportou o primeiro caso humano de gripe aviária H10N3, em um homem de 41 anos que se recuperou após tratamento — as autoridades descartam risco pandêmico.

O relato mais perturbador veio de Londres. Médicos documentaram o caso de um homem identificado como 'A', 37 anos, que consumiu 40 mil comprimidos de ecstasy entre os 21 e os 30 anos — chegando a 25 comprimidos por dia no auge do uso. Após três colapsos em festas, ele parou. O que se seguiu foi uma abstinência marcada por ataques de pânico, depressão, alucinações, paranoia, rigidez muscular e perda severa de memória. O caso, raro em sua extremidade, oferece à ciência uma oportunidade única de compreender os danos neuropsiquiátricos de longo prazo causados pelo abuso de MDMA.

A semana que passou trouxe notícias que varrem desde a produção de vacinas em solo brasileiro até um caso médico tão extremo quanto perturbador: um homem que consumiu 40 mil comprimidos de ecstasy ao longo de nove anos. No meio do caminho, um fungo agressivo acende alertas, a Organização Mundial da Saúde aprova mais um imunizante, e os Estados Unidos apostam em uma vacina que poderia mudar a forma como enfrentamos a gripe.

Comecemos pelo fungo negro. A mucormicose, doença causada por esse agente infeccioso, matou uma pessoa em Manaus no dia 16 de maio. Desde então, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP investiga um caso em paciente com COVID-19, e um terceiro caso está sob investigação em Santa Catarina. A doença é brutal: mata mais de metade dos infectados e frequentemente exige a remoção cirúrgica de partes do corpo afetadas — olhos, nariz, tecidos faciais. O fungo causa necrose dos tecidos, podendo até atingir o cérebro. A conexão entre COVID-19 e mucormicose foi descoberta primeiro na Índia e serviu como alerta global. Pesquisadores suspeitam que o uso de corticoides em pacientes com COVID aumenta os níveis de glicose no sangue, criando um ambiente favorável para a proliferação do fungo. Fatores como diabetes, doenças onco-hematológicas e transplante de medula óssea também aumentam o risco.

No front das vacinas, a Fundação Oswaldo Cruz assinou na terça-feira anterior um contrato para transferência de tecnologia da Covishield. A produção do insumo farmacêutico ativo acontecerá no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos, com expectativa de entrega do primeiro lote em outubro. A fábrica deve começar a produção dos primeiros lotes ainda neste mês, mas os lotes experimentais precisarão passar por testes de comparabilidade com a AstraZeneca antes da produção em larga escala. Há, porém, uma redução significativa nas metas: a previsão caiu de 110 milhões para 50 milhões de doses em 2021.

Na mesma semana, a CoronaVac recebeu aprovação para uso emergencial da Organização Mundial da Saúde. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciou que o imunizante foi considerado seguro, efetivo e de qualidade garantida após duas doses. Ele destacou que os requisitos simples de armazenamento tornam a vacina particularmente adequada para regiões com recursos limitados. Com essa aprovação, todos os imunizantes em aplicação no Brasil — CoronaVac, Covishield e Pfizer/BioNTech — agora contam com aval da organização.

Em outras frentes, a China relatou o primeiro caso de transmissão de gripe aviária H10N3 para um ser humano. O paciente, um homem de 41 anos da província de Jiangsu, foi hospitalizado em 28 de abril com febre e outros sintomas, mas se recuperou após tratamento. As autoridades de saúde chinesas classificam o caso como transmissão esporádica e afirmam que não há motivo para alarme — a H10N3 não possui potencial pandêmico. Enquanto isso, nos Estados Unidos, cientistas do Instituto Nacional da Saúde iniciaram testes em humanos de uma vacina universal contra gripe. Batizada de FluMos-v1, ela utiliza nanopartículas do vírus influenza e é projetada para oferecer proteção duradoura contra múltiplas cepas. Ao contrário das vacinas convencionais, que carregam uma cópia de cada tipo de proteína hemaglutinina, a FluMos-v1 traz várias cópias de cada um dos quatro tipos, esperando gerar uma resposta robusta de anticorpos. A fase 1 do estudo busca inscrever até 35 voluntários saudáveis entre 18 e 50 anos.

Mas talvez o relato mais perturbador da semana venha de Londres. Médicos da Universidade de St. George documentaram o caso de um homem de 37 anos — identificado apenas como "A" — que consumiu 40 mil comprimidos de ecstasy em um período de nove anos. Entre os 21 e 30 anos, ele começou com cinco comprimidos todo fim de semana, escalou para uma média de 3,5 diários, e chegou a consumir 25 diários nos últimos quatro anos de uso ativo. Além do MDMA, ele também usou LSD, cocaína, heroína e maconha. Após três colapsos em festas, decidiu parar. O que se seguiu foi um período de abstinência devastador. Por meses, ele sentiu-se como se ainda estivesse sob influência da droga. Desenvolveu ataques de pânico graves, ansiedade recorrente, depressão, rigidez muscular particularmente no pescoço e mandíbula, alucinações funcionais, ideação paranoide e perda de memória significativa. O caso oferece aos pesquisadores uma janela rara para entender os efeitos neuropsiquiátricos de longo prazo do uso extremo de ecstasy.

A vacina Sinovac-CoronaVac recebeu autorização para uso emergencial da OMS após ser considerada segura, efetiva e de qualidade garantida, e os requisitos simples de armazenamento tornam a vacina muito adequada para locais com poucos recursos
— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
Por alguns meses, ele se sentiu como se ainda estivesse sob a influência do ecstasy, desenvolvendo ataques de pânico graves, ansiedade recorrente, depressão, rigidez muscular e alucinações funcionais
— Médicos da Universidade de St. George, Londres
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