Portugal debate há anos a fuga dos seus talentos mais jovens, mas a questão ganhou nova urgência quando o governador do Banco de Portugal afirmou que o país é, afinal, um recetor líquido de licenciados. Os números, porém, resistem a leituras simples: enquanto imigrantes qualificados chegam em número crescente, frequentemente aceitam funções abaixo das suas habilitações, e cerca de um em cada quatro diplomados portugueses parte anualmente para o estrangeiro. A verdade que emerge não é de vitória nem de derrota, mas de uma transformação silenciosa do capital humano nacional cujos contornos ainda
Fuga de cérebros em Portugal: um em cada quatro licenciados emigra
Um em cada quatro licenciados estão a emigrar
Então Mário Centeno estava simplesmente errado nos números?
Não exatamente. Ele usou números reais, mas selecionou-os de forma a contar uma história específica. Os 70 mil de crescimento anual que citou é mais alto do que o que o INE regista. E os 50 mil diplomados que mencionou referem-se apenas aos licenciados, não a todos os diplomados — há mais de 95 mil no total.
Mas se Portugal está a atrair imigrantes qualificados, isso não deveria compensar as saídas?
Teoricamente, sim. Mas a realidade é que esses imigrantes frequentemente aceitam trabalhos abaixo do seu nível de qualificação. Não é a mesma coisa ter um licenciado a trabalhar como recepcionista do que ter um licenciado a trabalhar numa função que realmente exige essa qualificação.
Um em cada quatro licenciados a sair — isso parece muito alto.
É. E quando se pensa que estes são os jovens mais educados, com mais oportunidades, é uma perda significativa. São as pessoas que poderiam estar a impulsionar a inovação e a produtividade em Portugal.
Porque é que os imigrantes qualificados aceitam trabalhos menos qualificados?
É frequentemente uma estratégia de entrada. Precisam de ganhar experiência no mercado de trabalho português, de aprender a língua, de estabelecer redes. Mas a questão é se conseguem depois progredir para funções mais adequadas às suas qualificações.
O que é que falta para se perceber realmente o impacto?
Dados muito mais específicos. Quais são os setores que estão a perder mais licenciados? Quais as áreas de estudo? Que tipo de competências têm os que saem versus os que chegam? Sem isto, estamos a trabalhar com meia informação.
O Pulso
- A afirmação do governador Mário Centeno de que Portugal atrai mais licenciados do que perde desencadeou uma controvérsia imediata entre economistas, políticos e especialistas em migrações.
- Os dados do INE contradizem parcialmente as projeções otimistas: em 2023, o número de diplomados que saíram das universidades superou o crescimento da população ativa com ensino superior, resultando num saldo negativo.
- Aproximadamente 14.240 pessoas com formação superior emigraram permanentemente em 2023 — o equivalente a um em cada quatro licenciados formados nesse ano — sinalizando uma perda estrutural de talento.
- Os imigrantes qualificados que chegam a Portugal tendem a aceitar empregos abaixo das suas qualificações, o que significa que o crescimento estatístico da população ativa habilitada não reflete necessariamente ganhos reais de produtividade.
- Ministros do Governo reconheceram em audições parlamentares que a retenção de qualificados é um problema real, enquanto especialistas exigem uma análise mais detalhada por setor e perfil de competências antes de qualquer conclusão definitiva.
Portugal debate há anos a fuga dos seus talentos mais jovens, mas a questão ganhou nova urgência quando o governador do Banco de Portugal afirmou que o país é, afinal, um recetor líquido de licenciados. Os números, porém, resistem a leituras simples: enquanto imigrantes qualificados chegam em número crescente, frequentemente aceitam funções abaixo das suas habilitações, e cerca de um em cada quatro diplomados portugueses parte anualmente para o estrangeiro. A verdade que emerge não é de vitória nem de derrota, mas de uma transformação silenciosa do capital humano nacional cujos contornos ainda não foram totalmente mapeados.
Quando Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, declarou este mês que Portugal se tornou um recetor líquido de licenciados, a afirmação soou a boa notícia num debate que persegue o país há décadas. Mas os números, examinados com cuidado, contam uma história mais ambígua.
Centeno apoiou-se em dados que apontavam para um saldo positivo de cerca de 20 mil trabalhadores qualificados por ano. O INE, porém, regista valores diferentes: o crescimento anual da população ativa com ensino superior fica abaixo dos 70 mil citados pelo governador, e em 2023 o número de diplomados saídos das universidades superou esse crescimento — tornando o saldo negativo, não positivo.
O economista João Cerejeira, da Universidade do Minho, foi mais longe na análise. Cruzando os dados de emigração permanente de 2023 com os níveis de escolaridade, concluiu que cerca de 14.240 pessoas com formação superior deixaram Portugal nesse ano — aproximadamente um em cada quatro licenciados formados. Uma proporção que não pode ser ignorada.
Portugal atrai, de facto, imigrantes com qualificações académicas elevadas. Um boletim do Banco de Portugal indica que os estrangeiros empregados têm, em média, habilitações superiores às da população portuguesa. Mas Cerejeira levanta a questão essencial: esses imigrantes estão a desempenhar funções equivalentes às dos licenciados que partiram? Na maioria dos casos, não — chegam a aceitar empregos mais básicos como porta de entrada no mercado de trabalho.
Gonçalo Saraiva Matias, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, acrescenta que parte dos europeus qualificados que chegam a Portugal não vêm trabalhar, mas reformar-se ou investir. E os dados sugerem ainda que Portugal perde os seus talentos mais jovens enquanto atrai imigrantes mais velhos, potencialmente fora do seu auge produtivo.
A polémica chegou ao Parlamento. Os ministros das Finanças e do Trabalho reconheceram que a retenção de qualificados é um problema real, e o líder da bancada do CDS-PP exigiu que Centeno retificasse as suas declarações. O que falta, dizem os especialistas, é uma análise granular: quais os perfis que saem, quais as áreas mais afetadas, quais os setores que perdem e quais os que ganham. Sem esses dados, o verdadeiro custo da fuga de cérebros permanece por calcular.
Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, fez uma afirmação provocadora este mês: Portugal está a conseguir ser um recetor líquido de licenciados. A declaração contradiz uma preocupação que persegue o país há anos — a fuga de cérebros, a saída sistemática de jovens qualificados em busca de melhores oportunidades. Mas quando se olha para os números com cuidado, a história torna-se mais complicada do que a afirmação do antigo ministro das Finanças sugere.
Centeno baseou-se em dados que parecem favoráveis: nos últimos oito anos, a população ativa portuguesa com formação superior aumentou em média 70 mil pessoas por ano, enquanto saem pouco mais de 50 mil diplomados das universidades nacionais. A conta é simples — um saldo positivo de cerca de 20 mil trabalhadores qualificados. Mas o Instituto Nacional de Estatística conta uma história diferente. Segundo os dados oficiais, o crescimento anual da população ativa com ensino superior tem sido de 58,5 mil pessoas, abaixo dos 70 mil que Centeno citou. E quando se olha para os diplomados, os números são bem mais altos do que os 50 mil mencionados pelo governador. No ano letivo de 2022/2023, mais de 95 mil pessoas completaram o ensino superior em Portugal. Focando apenas nos licenciados, o número aproxima-se dos 52 mil, o que alinha com a figura de Centeno, mas mesmo assim, em 2023, esse número superou o crescimento da população ativa com formação superior — o que significa que o saldo foi negativo, não positivo.
O economista João Cerejeira, da Universidade do Minho, oferece uma perspectiva ainda mais clara. Analisando os dados de emigração do INE de 2023, descobriu que 33.666 pessoas deixaram Portugal para residir permanentemente no estrangeiro, das quais 42,3% tinham ensino superior — aproximadamente 14.240 pessoas. Comparando este número com os cerca de 50 mil diplomados que saem anualmente das universidades, Cerejeira conclui que aproximadamente um em cada quatro licenciados está a emigrar. É uma proporção significativa, uma perda considerável de capital humano qualificado.
Mas há uma complicação adicional. Portugal está, de facto, a atrair imigrantes com formação superior. Um boletim recente do Banco de Portugal indicava que a população estrangeira empregada tem, em média, qualificações académicas mais elevadas do que a população portuguesa. Isto poderia sugerir que as entradas compensam as saídas. Contudo, Cerejeira levanta uma questão crucial: estas pessoas estão a desempenhar o tipo de trabalho que os licenciados portugueses desempenhariam se tivessem ficado? A resposta, regra geral, é não. Os imigrantes qualificados que chegam a Portugal frequentemente aceitam empregos mais básicos ou menos qualificados como forma de entrada no mercado de trabalho nacional. Isto significa que, embora os números de população ativa com formação superior possam estar a crescer, a qualidade do trabalho que essa população realiza pode não estar a compensar a perda dos licenciados que partem.
Gonçalo Saraiva Matias, presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos e especialista em migrações, acrescenta outra camada de complexidade. Alguns dos europeus altamente qualificados que chegam a Portugal não vêm para trabalhar — vêm para se reformar ou para investir. O boletim do Banco de Portugal revelava ainda que os jovens portugueses tendem a ser mais qualificados do que os jovens imigrantes, enquanto os imigrantes mais velhos tendem a superar as qualificações dos portugueses de idade mais avançada. Isto sugere que Portugal está a perder os seus melhores talentos jovens enquanto atrai pessoas mais velhas que podem não estar no seu auge produtivo.
A controvérsia em torno das declarações de Centeno levou a reações imediatas do Governo. Tanto o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, como a ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, reiteraram em audições parlamentares que a retenção de qualificados em Portugal é um problema real. O líder da bancada do CDS-PP exigiu mesmo que Centeno retificasse as suas declarações. A discussão não é nova — preocupações com a fuga de cérebros precedem o Governo atual — mas ganhou urgência renovada.
O que falta, segundo Cerejeira e Matias, é uma análise mais granular. Seria necessário comparar os perfis dos qualificados que saem com os que ficam, identificar quais as áreas de estudo mais afetadas, e compreender quais os setores que estão a perder mais licenciados e quais estão a beneficiar das entradas de imigrantes. Sem estes dados, é impossível avaliar o verdadeiro impacto da fuga de cérebros na economia portuguesa. O que se sabe é que uma fatia considerável de jovens qualificados está a deixar o país, e que os que chegam podem não estar a preencher os mesmos papéis que deixaram vago.
Citações Notáveis
Portugal tem conseguido ser recetor líquido de diplomados— Mário Centeno, Governador do Banco de Portugal
A questão é perceber se estas pessoas vão fazer os trabalhos que os portugueses qualificados desempenhariam, se tivessem ficado em Portugal— João Cerejeira, Professor da Universidade do Minho