França pode ter cruzado linha entre quebrar ou ser salva, alerta Krugman

Grande demais para quebrar, grande demais para ser salva
Krugman descreve o dilema político que a França enfrenta se precisar de resgate financeiro.
Mark

Por que Krugman está tão preocupado agora? A França sempre teve dívida alta.

Mimi

Porque o tamanho mudou. 119% do PIB é o recorde desde o euro existir. E o governo continua gastando sem responsabilidade fiscal. Isso cria um problema político: ninguém quer resgatar a França, mas ninguém pode deixá-la quebrar.

Luke

Mas o mercado não está tão assustado assim. Os rendimentos caíram na sexta-feira. O CDS está em 1,2%. Isso não contradiz Krugman?

Mimi

Krugman diria que o mercado está subestimando o risco. Ele acha que 1,2% é baixo demais.

Mark

E qual é o problema estrutural que ele identifica?

Mimi

As aposentadorias. Os franceses se aposentam mais cedo do que qualquer outro lugar na Europa Ocidental. Marine Le Pen quer baixar ainda mais a idade. Enquanto isso, as escolas estão em colapso. É um desequilíbrio geracional que alimenta a polarização.

Luke

Mas Lagarde disse que o BCE tem ferramentas. E Lescure disse que a França não precisa de intervenção. Eles estão minimizando?

Mimi

Provavelmente. Mas Krugman está dizendo que a situação é diferente desta vez. A França é grande demais para quebrar, mas também grande demais para ser salva. É um impasse.

Mark

Então qual é o cenário que Krugman teme?

Mimi

Uma crise da dívida que seria extremamente divisiva dentro da Europa. Não apenas um problema francês, mas uma ameaça à unidade europeia.

Luke

E quando isso poderia acontecer?

Mimi

Krugman não diz. Ele está alertando sobre a trajetória insustentável. A eleição presidencial é no próximo ano, e Le Pen é favorita. Isso poderia acelerar as coisas.

  • A dívida francesa de 3,6 trilhões de euros atingiu o nível mais alto desde a criação do euro, e o governo continua a ampliá-la sem sinalizar contenção fiscal convincente.
  • Krugman identifica uma armadilha sem saída: a França é grande demais para ser abandonada à falência, mas também grande demais para ser resgatada pelos parceiros europeus sem esgotá-los.
  • Os mercados já reagiram — o prêmio de risco dos títulos franceses de dez anos subiu a patamares não vistos desde a crise de 2011-2012, antes de uma leve estabilização na sexta-feira.
  • Marine Le Pen lidera as pesquisas para a presidência prometendo ampliar as aposentadorias precoces, o que aprofundaria o desequilíbrio fiscal que está na raiz da crise.
  • Christine Lagarde afirmou que o BCE dispõe de ferramentas para conter movimentos desordenados, mas Krugman argumenta que o mercado está precificando o risco real abaixo do que ele efetivamente é.

A França, segunda maior economia da zona do euro, aproxima-se de um limiar raro na história das finanças modernas: o ponto em que uma nação se torna simultaneamente grande demais para quebrar e grande demais para ser salva. O economista Paul Krugman, laureado com o Nobel, adverte que a dívida pública francesa — 119% do PIB, a mais elevada desde a criação da moeda comum — segue uma trajetória que os mercados ainda subestimam e que a política interna torna cada vez mais difícil de corrigir. O que está em jogo não é apenas a solvência de um Estado, mas a coesão de um projeto continental construído ao longo de décadas.

Paul Krugman publicou em 8 de outubro um alerta direto: a deterioração das finanças públicas francesas não é um problema interno — é uma ameaça à estabilidade de toda a zona do euro. Com uma dívida de 3,6 trilhões de euros equivalente a 119% do PIB, a França carrega o maior endividamento relativo desde a criação da moeda comum, e o governo segue aumentando esse fardo sem perspectiva clara de reversão.

O diagnóstico mais perturbador de Krugman é estrutural: a França pode ter cruzado a linha que separa ser grande demais para quebrar de ser grande demais para ser salva. O país não pode ser deixado à própria sorte sem provocar caos europeu, mas um resgate de sua escala esgotaria os recursos disponíveis entre os parceiros da zona do euro. É esse impasse que o economista descreve como genuinamente sombrio.

Os mercados já sentiram o peso dessa incerteza. Nos últimos meses, uma onda de vendas de títulos públicos franceses elevou o prêmio de risco a níveis não vistos desde a crise de 2011-2012. Uma leve valorização na sexta-feira — com o rendimento dos papéis de dez anos recuando para 4,86% — sugere estabilização temporária, mas não resolve o problema de fundo.

Esse problema tem nome: as aposentadorias precoces. Os franceses se retiram do mercado de trabalho mais cedo do que em qualquer outro país da Europa Ocidental, e Marine Le Pen, favorita para a presidência no próximo ano, promete permitir que alguns trabalhadores se aposentem aos 60 anos. Enquanto isso, estudantes protestam em todo o país contra a falta de professores e a precariedade das escolas — uma consequência direta, argumenta Krugman, de um sistema que subsidia os mais velhos às custas de todos os demais.

As autoridades europeias acompanham a situação. Lagarde garantiu que o BCE tem instrumentos para conter movimentos desordenados, e o ministro das Finanças francês afirmou que o país está longe de precisar de intervenção. Krugman, porém, não se convence: a probabilidade implícita de calote medida pelos credit default swaps é de apenas 1,2% — um número que ele considera baixo demais diante do risco real.

Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, soou o alarme sobre a França em uma publicação no Substack datada de 8 de outubro. A situação, escreveu ele, não é apenas um problema francês — é uma ameaça à estabilidade de toda a zona do euro. A dívida pública francesa segue uma trajetória que ele descreve como insustentável, e o risco é de uma crise explosiva que poderia ser destrutiva para a unidade europeia.

Os números explicam a urgência. A dívida francesa chega a 3,6 trilhões de euros, o equivalente a 119% do produto interno bruto — o nível mais alto desde a criação do euro. O governo continua aumentando esse fardo, e Krugman observa que essa falta de responsabilidade fiscal cria um dilema político quase impossível. Se a França precisasse de um resgate financeiro, outros membros da zona do euro provavelmente se recusariam a oferecê-lo. E mesmo que aceitassem, o custo seria extremamente alto, dado o tamanho da economia francesa.

É aqui que Krugman identifica o ponto de ruptura: a França pode ter cruzado a linha entre ser grande demais para quebrar e ser grande demais para ser salva. Em outras palavras, o país é simultaneamente grande demais para deixar falir — o que causaria caos europeu — e grande demais para ser resgatado — o que esgotaria os recursos disponíveis. Esse é o cenário que Krugman descreve como realmente sombrio, uma crise francesa que seria extremamente divisiva dentro da Europa.

O mercado já está reagindo. Nos últimos meses, houve uma onda forte de vendas de títulos da dívida pública francesa, inicialmente desencadeada por temores de inflação renovada e depois alimentada por preocupações com o déficit orçamentário e a polarização política. O prêmio de risco exigido pelos investidores para manter títulos franceses de dez anos — em comparação com os títulos alemães, considerados o ativo seguro da região — subiu para níveis não vistos desde a crise de 2011 e 2012. Na sexta-feira, os títulos franceses se valorizaram e o rendimento dos papéis de dez anos caiu três pontos-base, para 4,86%, sugerindo alguma estabilização temporária.

Mas Krugman identifica um problema estrutural mais profundo: a incapacidade persistente da França de encarar a realidade de suas aposentadorias. Os franceses recebem suas pensões mais cedo do que em qualquer outro lugar da Europa Ocidental. Marine Le Pen, favorita na eleição presidencial do próximo ano, prometeu permitir que alguns trabalhadores se aposentem aos 60 anos — uma promessa que aprofundaria ainda mais o desequilíbrio fiscal. Enquanto isso, estudantes em toda a França protestam contra a falta de professores, superlotação e condições precárias nas escolas. Krugman escreve que a França está, na prática, concedendo grandes subsídios aos franceses mais velhos em detrimento de todos os outros. As manifestações estudantis em massa não deveriam causar surpresa.

A liderança europeia está ciente da situação. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, disse aos ministros das Finanças da zona do euro nesta semana que as autoridades estão acompanhando os mercados financeiros e dispõem de ferramentas para conter movimentos desordenados. Roland Lescure, ministro das Finanças da França, afirmou que o país está longe de precisar de uma intervenção do BCE. Krugman, porém, nota que a probabilidade implícita de a França não conseguir pagar suas dívidas — medida pela precificação dos credit default swaps — é de apenas 1,2%. Mas, para ele, essa cifra é baixa demais. O risco real é maior do que o mercado está precificando.

A situação atual da França é realmente preocupante. A participação da França na zona do euro cria a possibilidade de uma crise explosiva da dívida — e tal crise poderia ser destrutiva para a unidade europeia.
— Paul Krugman
A França pode ter cruzado a linha entre ser grande demais para quebrar e ser grande demais para ser salva.
— Paul Krugman
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