No corredor de uma das mais tradicionais faculdades de medicina do Brasil, a pedra que reveste as paredes guarda um silêncio de 2,1 bilhões de anos. Pesquisadores identificaram estromatólitos — fósseis de colônias de cianobactérias — no mármore original da Faculdade de Medicina da UFMG, estruturas que testemunharam e protagonizaram a oxigenação da atmosfera terrestre. A descoberta não exigiu escavações nem expedições remotas: exigiu, apenas, que alguém aprendesse a olhar para o que sempre esteve ali.
Fósseis de 2 bilhões de anos descobertos em mármore da Faculdade de Medicina da UFMG
Cada marca circular corresponde a uma colônia bacteriana que cresceu verticalmente
Como é possível que um fóssil tão antigo tenha permanecido invisível por tanto tempo em um prédio tão frequentado?
Porque ninguém estava procurando. O mármore é bonito, as pessoas veem a superfície. Mas Kennedy Martinez passou anos observando padrões, comparando formas. Ele tinha o conhecimento e a paciência para enxergar o que estava ali.
Esses estromatólitos — eles ainda estão crescendo em algum lugar do mundo?
Não da mesma forma. As cianobactérias que os formam ainda existem, mas as condições que criavam essas estruturas em larga escala desapareceram há bilhões de anos. O que temos agora são fósseis e alguns exemplares vivos muito raros.
Quando você diz que essas bactérias "transformaram a atmosfera", o que exatamente aconteceu?
Elas produziram oxigênio como resíduo de sua fotossíntese. Antes delas, a atmosfera era muito diferente. Depois delas, o oxigênio começou a se acumular, e isso abriu caminho para toda a vida complexa que veio depois — incluindo nós.
Por que é importante que esses fósseis estejam em um espaço público e não em um museu?
Porque transforma a forma como as pessoas pensam sobre o lugar onde vivem. Você está caminhando por um corredor, e de repente percebe que está rodeado por 2,1 bilhões de anos de história. Não é abstrato. É concreto, está ali nas paredes.
O professor Martinez vai fazer mais pesquisas sobre esses fósseis?
Provavelmente. Agora que a descoberta foi confirmada e validada, há muito mais a aprender sobre essas estruturas específicas — sua composição, sua história, o que elas podem nos dizer sobre aquele período antigo.
Il Polso
- Por oito anos, o professor Kennedy Martinez observou padrões elípticos e circulares no mármore do saguão, carregando uma suspeita que só a ciência poderia confirmar.
- A confirmação veio após registros fotográficos e consultas a paleontólogos: aquelas marcas eram fósseis entre os mais antigos já documentados no Brasil.
- Milhares de estudantes, professores e visitantes circulam diariamente ao lado dessas estruturas sem saber que compartilham o espaço com registros da vida primitiva do planeta.
- Os fósseis estão preservados no revestimento original do edifício, extraído da Pedreira Cumbi, próxima a Ouro Preto, e nunca passaram por reformas significativas.
- A descoberta reposiciona espaços arquitetônicos comuns como patrimônio paleontológico vivo, desafiando a ideia de que o passado profundo da Terra só existe em museus.
No corredor de uma das mais tradicionais faculdades de medicina do Brasil, a pedra que reveste as paredes guarda um silêncio de 2,1 bilhões de anos. Pesquisadores identificaram estromatólitos — fósseis de colônias de cianobactérias — no mármore original da Faculdade de Medicina da UFMG, estruturas que testemunharam e protagonizaram a oxigenação da atmosfera terrestre. A descoberta não exigiu escavações nem expedições remotas: exigiu, apenas, que alguém aprendesse a olhar para o que sempre esteve ali.
No saguão da Faculdade de Medicina da UFMG, o mármore que reveste as paredes não é apenas decoração — é um arquivo fossilizado com 2,1 bilhões de anos. O professor Kennedy Martinez, do Departamento de Anatomia e Imagem, foi quem identificou o que estava escondido à vista de todos: estromatólitos, estruturas formadas por colônias de cianobactérias que cresceram em camadas sucessivas ao longo de eras geológicas. Sua formação em morfologia e anatomia — disciplinas que exigem atenção obsessiva a formas — foi essencial para enxergar os padrões elípticos e circulares que outros simplesmente não viam.
Após cerca de oito anos de observação, registros fotográficos detalhados e consultas a especialistas, a confirmação chegou: aquelas marcas na pedra estão entre os fósseis mais antigos já documentados no Brasil. Martinez compara cada estrutura circular ao empilhamento de moedas — cada marca corresponde a uma antiga colônia bacteriana que cresceu para cima e deixou seu rastro calcificado. Essas cianobactérias foram responsáveis por uma das maiores transformações da história terrestre: a produção de oxigênio que tornou possível o surgimento de formas de vida mais complexas.
O mármore veio da Pedreira Cumbi, próxima a Ouro Preto, região onde bilhões de anos atrás existiam mares rasos e quentes — o ambiente ideal para esses microrganismos. O revestimento é original e nunca foi reformado, o que significa que os fósseis estiveram ali desde a construção do edifício, aguardando olhos treinados. A biblioteca da faculdade também preserva essas estruturas em suas paredes. O que torna a descoberta singular não é apenas a antiguidade dos fósseis, mas o fato de conviverem com estudantes e visitantes em um espaço de circulação cotidiana — um patrimônio geológico raro que existia, silencioso, à espera de ser lido.
No saguão da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, entre as paredes revestidas de mármore que milhares de pessoas atravessam todos os dias, está guardado um arquivo de pedra com 2,1 bilhões de anos. São estromatólitos — estruturas rochosas formadas por colônias de cianobactérias — e sua presença naquele corredor não é acidental. É um testemunho fossilizado de um momento em que a vida microscópica transformou completamente a atmosfera do planeta.
O professor Kennedy Martinez, do Departamento de Anatomia e Imagem, foi quem finalmente identificou o que estava ali o tempo todo. Durante cerca de oito anos, ele observou os padrões elípticos e circulares que desenham o mármore, suspeitando do que poderia ser. Só após registros fotográficos detalhados e consultas a especialistas em paleontologia é que a confirmação veio: aquelas marcas na pedra eram de fato fósseis de estromatólitos, entre os mais antigos já documentados no Brasil. A experiência de Martinez em morfologia e anatomia — disciplinas que exigem atenção obsessiva a formas e padrões — foi essencial para enxergar o que estava escondido à vista de todos.
Os estromatólitos se formam de maneira quase simples em sua repetição: colônias de cianobactérias crescem em camadas sucessivas ao longo de milhares e milhões de anos, acumulando sedimentos e minerais que se calcificam gradualmente. Martinez compara o processo ao empilhamento vertical de moedas — cada marca circular ou elíptica visível no mármore corresponde a uma antiga colônia bacteriana que cresceu para cima, deixando seu rastro em pedra. Essas cianobactérias não eram apenas estruturas curiosas da vida primitiva. Elas foram os agentes de uma das transformações mais profundas da história terrestre: a oxigenação da atmosfera, o evento que permitiu que formas de vida mais complexas eventualmente emergissem.
O mármore que reveste o hall da Faculdade de Medicina veio da Pedreira Cumbi, próxima a Ouro Preto, uma região conhecida pela extração de mármore dolomítico rico em estruturas fossilizadas. Há bilhões de anos, grande parte do que hoje é Minas Gerais estava coberta por mares rasos e quentes — o ambiente perfeito para que esses microrganismos florescem e deixem seus registros em rocha. O revestimento instalado na construção é original e nunca passou por reformas significativas, o que significa que esses fósseis estão ali desde que o edifício foi construído, invisíveis até que alguém com olhos treinados aprendesse a vê-los.
O que torna essa descoberta particularmente notável é sua localização. Os estromatólitos não estão em um museu, protegidos atrás de vidro e cordas. Estão em um espaço de circulação cotidiana, onde estudantes de medicina passam diariamente, onde professores caminham entre aulas, onde visitantes transitam sem saber que pisam próximo a um dos registros mais antigos da vida na Terra. A biblioteca da Faculdade também preserva essas estruturas fossilizadas em suas paredes. A instituição, conhecida por formar profissionais da saúde, convive com um patrimônio geológico que documenta um capítulo fundamental da história do planeta — um segredo que estava esperando apenas por alguém que soubesse como lê-lo.
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Cada uma dessas marcas corresponde a uma antiga colônia de cianobactérias que cresceu verticalmente, em um processo que podemos comparar ao empilhamento de moedas— Professor Kennedy Martinez, Departamento de Anatomia e Imagem da UFMG