A linguagem dos números, que Warren Buffett há muito reconhece como a língua universal dos negócios, deixou de ser território exclusivo de técnicos discretos para se tornar passaporte obrigatório às cadeiras mais altas do poder corporativo. No Brasil, advogados, engenheiros e administradores buscam formação contábil não por curiosidade acadêmica, mas porque percebem que sem dominar os números não há como ocupar com autoridade os postos de liderança para os quais são convidados. A automação libera o contador das tarefas operacionais e o empurra para um papel que a história raramente lhe reservo
Formação contábil abre caminho para executivos alcançarem postos C-Level
O contador é o construtor dessa confiança
Por que um advogado ou engenheiro precisaria voltar à escola para aprender contabilidade?
Porque quando você chega a um cargo de liderança, você precisa ler um balanço. Você precisa entender o que os números estão dizendo sobre a empresa. É como aprender a língua do lugar onde você vai trabalhar.
Mas isso é realmente novo? Executivos sempre precisaram entender finanças.
Verdade. Mas o que mudou é que agora o contador não é mais só o cara que preenche formulários. Ele está na mesa de decisão estratégica.
Como a tecnologia muda isso?
A automação tira o contador das tarefas repetitivas — cálculos, apurações. Isso libera tempo para ele analisar dados e sugerir caminhos para a empresa.
Então basicamente estamos falando de um reposicionamento profissional. O contador sai da operação e entra na estratégia.
Exatamente. E para isso, ele precisa de habilidades que não estão em um livro de contabilidade — comunicação, liderança, criatividade.
E os escritórios de contabilidade menores? Como eles se adaptam?
Eles também precisam mudar. A reforma tributária está forçando isso. Não dá mais para ser só fiscal. Você precisa ser consultor.
Quanto dessa transformação é real e quanto é aspiracional? Quantos contadores realmente estão em cargos C-Level?
Não temos números exatos disso. Mas os exemplos que temos — como Pedro Melo, que foi CEO da KPMG — mostram que é possível.
E quem não conseguir fazer essa transição?
Rocha da Fipecafi foi bem claro: nem todos os profissionais no padrão antigo terão condições de transitar para esse mundo novo.
Le Pouls
- Executivos de diversas formações correm para cursos de pós-graduação em contabilidade ao perceber que cargos C-Level exigem fluência nos números — e eles simplesmente não a têm.
- A reforma tributária e a transformação digital pressionam simultaneamente os escritórios contábeis: quem não migrar do papel fiscal para o consultivo corre o risco de se tornar obsoleto.
- A automação das tarefas operacionais é ao mesmo tempo ameaça e oportunidade — libera tempo para análise estratégica, mas exige que o profissional se reinvente com urgência.
- Fundações como a Fipecafi registram turmas compostas por até 95% de não-contadores, sinal de que a contabilidade deixou de ser destino de chegada para virar ponto de passagem obrigatório na ascensão profissional.
- O mercado começa a convergir para um novo perfil: o contador que alia rigor técnico a habilidades de comunicação, liderança e visão de negócio — e nem todos os profissionais formados no modelo antigo conseguirão atravessar essa fronteira.
A linguagem dos números, que Warren Buffett há muito reconhece como a língua universal dos negócios, deixou de ser território exclusivo de técnicos discretos para se tornar passaporte obrigatório às cadeiras mais altas do poder corporativo. No Brasil, advogados, engenheiros e administradores buscam formação contábil não por curiosidade acadêmica, mas porque percebem que sem dominar os números não há como ocupar com autoridade os postos de liderança para os quais são convidados. A automação libera o contador das tarefas operacionais e o empurra para um papel que a história raramente lhe reservou: o de conselheiro estratégico nas decisões que moldam organizações.
Warren Buffett chama a contabilidade de linguagem dos negócios, e essa linguagem nunca foi tão disputada. Executivos de formações as mais diversas — advogados, engenheiros, administradores — estão procurando pós-graduações em contabilidade porque recebem convites para postos de liderança e percebem que precisam dominar os números para ocupar essas cadeiras com credibilidade. Pedro Augusto Melo, ex-CEO da KPMG Brasil e membro de conselhos de empresas de capital aberto, ouve essa demanda com frequência: profissionais que chegam até ele dizendo precisar entender de contabilidade para assumir uma cadeira muito alta.
A mudança vai além do currículo. Welington Rocha, diretor-presidente da Fipecafi, descreve o novo papel do contador como a "Santíssima Trindade da Contabilidade": mensuração, informação e tomada de decisão. O profissional deixa de calcular para aconselhar. A tecnologia é parte central dessa transformação — ao automatizar as tarefas operacionais que antes consumiam o tempo dos contadores, abre espaço para análise de dados e orientação estratégica. Guy Almeida Andrade, com mais de 50 anos em auditoria independente, vê a automação como aliada, desde que o profissional esteja disposto a se atualizar.
No Brasil, são cerca de 550 mil profissionais de contabilidade e 105 mil empresas do setor, segundo o Conselho Federal de Contabilidade. Muitas dessas empresas vivem uma transição forçada pela reforma tributária, que exige serviços que vão além da apuração de impostos. Marcondes de Borba, da Thomson Reuters, aponta que a contabilidade em tempo real e o papel consultivo tornaram-se indispensáveis. Ricardo Pocetti, contador e consultor em reputação de lideranças, reconhece que a imagem do "contador que faz o Imposto de Renda" ainda persiste no imaginário popular — mas o mercado já exige outro perfil: alguém com competência técnica, mas também com habilidades em comunicação, liderança e raciocínio estratégico. Nem todos os profissionais formados no padrão antigo conseguirão fazer essa travessia.
Warren Buffett chama a contabilidade de linguagem dos negócios, e essa linguagem está se tornando cada vez mais essencial para quem quer chegar ao topo das organizações. Executivos de todas as formações — advogados, engenheiros, administradores — estão procurando cursos de pós-graduação em contabilidade não por acaso. Muitos deles recebem convites para postos de liderança e percebem que precisam dominar os números para ocupar essas cadeiras.
Pedro Augusto Melo, contador com mais de 40 anos em auditoria independente e membro de conselhos de empresas de capital aberto, ouve essa demanda com frequência. "Fui convidado para uma cadeira muito alta, preciso entender da contabilidade, preciso entender dos números", é o que profissionais lhe dizem quando buscam se preparar para cargos C-Level. Melo já foi CEO da KPMG Brasil e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Ele observa que, embora alguns ainda vejam a contabilidade como uma área menos glamourosa que outras, os contadores hoje ocupam as principais mesas de decisão das empresas.
A transformação é profunda. Não se trata apenas de adicionar um conhecimento técnico ao currículo. Trata-se de uma mudança no papel do contador dentro das organizações. Historicamente, esse profissional era visto como o responsável por preencher obrigações tributárias e fazer os números baterem. Agora, ele é chamado a ser um apoiador estratégico na tomada de decisão. Welington Rocha, diretor-presidente da Fipecafi — a fundação de pesquisas contábeis da USP — descreve isso como a "Santíssima Trindade da Contabilidade": mensuração, informação e tomada de decisão. O contador deixa de calcular para aconselhar.
Essa mudança não acontece por acaso. A tecnologia está automatizando as tarefas operacionais que antes consumiam o tempo dos contadores. Guy Almeida Andrade, contador com mais de 50 anos em auditoria independente e presidente da Magalhães Andrade Auditores Independentes, vê a automação como uma aliada. Conforme os controles se automatizam, libera-se tempo para análise de dados e para apontar caminhos estratégicos às empresas. O desafio, porém, é permanecer atualizado nesse novo cenário.
Na Fipecafi, os alunos de cursos de pós-graduação em contabilidade vêm de outras profissões. Advogados representam 95% das turmas de alguns programas. Engenheiros que trabalham em instituições financeiras buscam complementar sua formação. Esses profissionais reconhecem que, independentemente de sua área original, precisam falar a linguagem dos números para avançar em suas carreiras.
O Brasil tem cerca de 550 mil profissionais de contabilidade e 105 mil empresas de serviços contábeis, segundo o Conselho Federal de Contabilidade. Muitas dessas empresas estão em transição. Marcondes de Borba, head das Soluções Domínio da Thomson Reuters — plataforma que atende cerca de metade do mercado de escritórios de contabilidade no Brasil — aponta que a reforma tributária é um dos fatores que exigem essa mudança. Os contadores precisam oferecer serviços que vão além da apuração de impostos e do fechamento anual de contas. Precisam sair do papel fiscal e operacional para um papel consultivo, onde a contabilidade em tempo real é fundamental.
Ricardo Pocetti, contador e consultor em reputação de lideranças, reconhece que muitas pessoas ainda veem o contador como "o cara que faz o Imposto de Renda". Mas as novas tecnologias têm permitido que os escritórios sejam mais efetivos nas entregas. Os escritórios passaram a atuar para compreender a gestão do negócio e oferecer opiniões mais sensíveis sobre essas temáticas. Rocha resume o que se espera do contador agora: alguém que tem não apenas competências técnicas em contabilidade, mas também habilidades em comunicação, liderança, criatividade e raciocínio lógico. Nem todos os profissionais formados no padrão antigo conseguirão fazer essa transição.
Citations marquantes
Fui convidado para uma cadeira muito alta, preciso entender da contabilidade, preciso entender dos números— Profissionais em busca de formação contábil para cargos C-Level, conforme relatado por Pedro Augusto Melo
Alguém que tem não apenas competências em contabilidade, mas habilidades como comunicação, liderança, criatividade e raciocínio lógico— Welington Rocha, diretor-presidente da Fipecafi, sobre o perfil esperado do contador atual