Há bandas que carregam o peso de suas próprias lendas como um fardo, e há aquelas que aprendem a transformá-lo em combustível. No primeiro dia do Rock in Rio 2026, o Foo Fighters escolheu o segundo caminho: com um novo baterista que trouxe vida onde havia apenas precisão, e um repertório que honrou décadas de história sem se render ao óbvio do presente, a banda americana lembrou ao Parque Olímpico — e a si mesma — por que certas músicas atravessam gerações inteiras de vozes.
Foo Fighters retoma energia com novo baterista e raridades no Rock in Rio
Um coro monstruoso que só o Rock in Rio é capaz de produzir
Por que esse show foi tão diferente do que tocaram três anos atrás no The Town?
Ilan Rubin trouxe uma energia completamente diferente. Ele é dinâmico, vigoroso, e o estilo dele é mais próximo ao de Taylor Hawkins. Além disso, cortaram as jams alongadas que tornavam tudo monótono.
Mas como você mede "revigorado"? É uma impressão do crítico ou há algo concreto que mudou?
O setlist é concreto. Eles tocaram raridades que nunca tinham tocado no Brasil, como "Exhausted", de 1995. E o novo álbum quase não apareceu.
Então a banda escolheu deliberadamente não promover o novo trabalho?
Sim. Só tocaram "Window" e "The Sky is a Neighborhood". O foco foi nos clássicos dos anos 1990 e 2000, e em "Wasting Light", de 2011.
E como você sabe que o público respondeu melhor? O texto diz que o público do Rock in Rio prefere brindes a shows.
Verdade, mas no final as pessoas ainda pulavam e cantavam nas performances finais. Para os padrões do festival, isso é bastante.
Ilan Rubin parecia confortável no palco?
Não totalmente. Ele parecia tímido com os novos companheiros, mas tecnicamente estava seguro.
Ele assumiu os backing vocals também, certo? Isso é uma mudança significativa na dinâmica da banda.
Exatamente. Era uma função de Taylor Hawkins, então há uma continuidade ali, mesmo que Rubin seja um músico diferente.
The Pulse
- A sombra de Taylor Hawkins ainda pairava sobre a banda, mas Ilan Rubin chegou ao palco Mundo não para apagar essa memória, e sim para reacendê-la com energia própria.
- O show do The Town três anos antes havia deixado um gosto amargo de improvisações intermináveis — desta vez, a banda cortou o excesso e deixou as músicas respirarem por conta própria.
- Dezenas de milhares de vozes cantando 'My Hero' em uníssono criaram um daqueles momentos que só festivais desta escala conseguem fabricar, e que nenhum estúdio jamais reproduz.
- Raridades como 'Exhausted' e 'Marigold' funcionaram como presentes para os fãs de longa data, enquanto a única música do novo álbum caiu no silêncio relativo de quem ainda não aprendeu a letra.
- O público do Rock in Rio — conhecido por dividir a atenção entre shows e ativações de marca — ficou plantado até a madrugada, pulando e cantando até o acorde final de 'Everlong'.
Há bandas que carregam o peso de suas próprias lendas como um fardo, e há aquelas que aprendem a transformá-lo em combustível. No primeiro dia do Rock in Rio 2026, o Foo Fighters escolheu o segundo caminho: com um novo baterista que trouxe vida onde havia apenas precisão, e um repertório que honrou décadas de história sem se render ao óbvio do presente, a banda americana lembrou ao Parque Olímpico — e a si mesma — por que certas músicas atravessam gerações inteiras de vozes.
Dave Grohl já estava encharcado de suor na terceira música. Na sexta-feira que abriu o Rock in Rio 2026, o Foo Fighters tomou o palco Mundo diante de uma multidão que se estendia até o horizonte no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro — e entregou algo que poucos esperavam de uma banda com mais de 15 apresentações no Brasil: um show genuinamente revigorado.
A diferença começou na bateria. Josh Freese, que havia substituído o saudoso Taylor Hawkins após sua morte em 2022, era correto e preciso, mas pouco mais que isso. Ilan Rubin — ex-Paramore, ex-Nine Inch Nails — trouxe dinamismo e vigor ao posto, com um estilo mais próximo ao de Hawkins, assumindo inclusive parte dos backing vocals que eram do antecessor. As improvisações, que haviam tornado o show do The Town quase tedioso, foram reduzidas a respiros entre as músicas, não mais demonstrações de virtuosismo.
O repertório também foi mais bem calibrado. Com um álbum novo na bagagem, o 'Your Favourite Toy', a banda optou por privilegiar o que tem de melhor: os clássicos dos anos 1990 e 2000 e o celebrado 'Wasting Light'. A abertura com 'All My Life', 'The Pretender' e 'Times Like These' deu o tom, e o coro monstruoso em 'My Hero' — Grohl pedindo que quem não soubesse a letra olhasse para o vizinho de 50 anos e cantasse junto — foi o pico emocional da noite.
Os fãs mais antigos foram contemplados com raridades: 'Marigold', composta antes da primeira visita de Grohl ao Brasil em 1993, quando ainda era baterista do Nirvana; 'Stacked Actors', 'Monkey Wrench', 'Aurora' — dedicada a Hawkins — e 'Exhausted', de 1995, nunca antes tocada em solo brasileiro. Do novo disco, apenas 'Window' ganhou espaço, e o silêncio relativo da plateia disse tudo.
Com quase duas horas de duração — curto para os padrões da banda — o show encerrou com 'Best of You' e 'Everlong', mantendo o público em movimento até a madrugada. Para um festival onde a concorrência de brindes patrocinados costuma ser feroz, foi uma vitória e tanto.
Dave Grohl estava encharcado de suor quando terminou de cantar a terceira música. O vocalista do Foo Fighters conduzia a banda americana através de um show dedicado, repleto de sucessos, diante de uma multidão que se estendia até o horizonte no palco Mundo, o maior do festival. Era sexta-feira, 4 de setembro, primeiro dos sete dias do Rock in Rio 2026, que segue até o dia 13 no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro.
O Foo Fighters não era novidade por aqui. Já haviam tocado mais de 15 vezes no Brasil, incluindo apresentações nas edições de 2001 e 2019 do Rock in Rio. Tinham até data marcada para voltar: no ano seguinte, com shows em estádios de São Paulo e Belo Horizonte. Uma carreira repleta de apresentações dessa magnitude poderia sugerir um show automático, burocrático. Mas o Foo Fighters de 2026 soava revigorado e mais interessante do que em sua última passagem pelo Brasil—um show que beirou o tedioso, com improvisações alongadas, no The Town, três anos antes.
Muito disso tinha a ver com o novo baterista. Na época anterior, a banda tinha Josh Freese no posto, veterano que havia substituído Taylor Hawkins, morto em 2022 e um dos símbolos da banda. Agora, quem tocava era Ilan Rubin, que já havia passado pelo Paramore e estava no Nine Inch Nails. Se Freese era apenas correto e preciso, Rubin soou dinâmico e vigoroso no palco, ainda que parecesse tímido com os novos companheiros. Seu estilo tinha mais proximidade com o de Hawkins e ele inclusive assumiu parte dos backing vocals, função que era do ex-baterista. As improvisações também ficaram mais curtas—ainda que as performances fossem alongadas, a banda gastava menos tempo inserindo sessões de improviso no meio das músicas. Agora elas soavam como respiros, não como demonstrações de virtuosismo.
O repertório foi mais bem escolhido. Apesar de trazer na bagagem um disco recém-lançado, "Your Favourite Toy", o Foo Fighters dedicou sua atenção ao que tinha de melhor: os discos dos anos 1990 e 2000, além do celebrado álbum "Wasting Light", de 2011. Começou com uma sequência de sucessos—"All My Life", "The Pretender" e "Times Like These"—e não parou de vir outra—"My Hero" e "Learn to Fly". Poucas bandas de rock em atividade têm um arsenal de hits como o do Foo Fighters. Isso ficou evidente quando dezenas de milhares de vozes no Parque Olímpico cantaram juntas o refrão de "My Hero", um coro monstruoso que só o Rock in Rio é capaz de produzir, especialmente raro naquela sexta-feira. Grohl pediu que cantassem com ele, sugerindo que quem não soubesse a letra olhasse para o cara de 50 anos ao lado e cantasse o que ele estivesse cantando.
Depois puxou três baladas—"These Days", "Walk" e "Wheels"—que deram algum fôlego à turma que estava mantendo as rodas de bate-cabeça perto do palco. Emendou depois uma raridade, "Marigold", que ele disse ter composto antes da primeira vez que veio ao Brasil, em 1993, quando era baterista do Nirvana. O Foo Fighters tratou bem os fãs "old school", como Grohl os saudou repetidamente ao longo da apresentação. Além de "Marigold", tocaram "Stacked Actors", "Monkey Wrench", "Breakout" e "Aurora"—esta, uma homenagem a Taylor Hawkins, que segundo o vocalista adorava tocá-la—e a mais rara de todas, "Exhausted", de 1995, nunca antes tocada no Brasil.
Do novo álbum, o grupo só puxou "Window", que Grohl introduziu ensinando um coro timidamente repetido pela plateia. Foi, naturalmente, o momento mais caído do show, que teve também a insossa "The Sky is a Neighborhood", lançada em 2017. O encerramento incluiu os sucessos "Best of You" e "Everlong", no que foi de longe o melhor e mais animado show deste primeiro dia do Rock in Rio. Não tão longo para os padrões do Foo Fighters, beirando as duas horas de duração. O público não arredou pé na madrugada de sábado e ainda pulou e cantou nas performances finais—o que é bastante para os padrões de plateia do Rock in Rio, majoritariamente frequentado por gente que, entre um show e um brinde de marca, costuma preferir o segundo.
Notable Quotes
Amo quando vocês cantam comigo. Se não souber a letra, olhe para o cara de 50 anos do seu lado e cante o que ele estiver cantando.— Dave Grohl, vocalista do Foo Fighters
"Aurora" é uma homenagem a Taylor Hawkins, que adorava tocá-la.— Dave Grohl, sobre a raridade tocada no show