Folha precisa descer do salto na cobertura da direita eleitoral

Descer do salto é essencial, sobretudo, ao jornalismo
Crítica ao tratamento desigual da Folha na cobertura de candidatos de direita versus esquerda nas eleições de 2026.
Mark

Por que a cobertura de Eduarda Campopiano importa tanto? Ela é uma deputada estadual, não é?

Mimi

Porque ela foi a terceira mais votada do país inteiro. Quase dois milhões de votos. E o jornal a mencionou cinco vezes antes da eleição — basicamente como piada ou coadjuvante. Isso não é negligência, é invisibilidade sistemática.

Luke

Mas é justo dizer que o jornal "prejudicou" Lula? Duas décadas de redes sociais, algoritmos, viralização — atribuir tudo à Folha soa exagerado.

Mimi

Ninguém está dizendo que a Folha elegeu ou derrubou alguém. Mas há uma diferença entre não antecipar um fenômeno e, depois que ele acontece, tratá-lo como piada.

Mark

E quanto a Flávio Bolsonaro? Parece que o jornal foi mais generoso com ele.

Mimi

Exatamente. Um editorial reconheceu que ele mentiu sobre a democracia brasileira. Mas a reportagem não mostrou a mesma convicção. Havia contexto demais, questionamento de menos.

Luke

Espera — o editorial disse que era fake news, mas a reportagem não? Isso é um problema real ou é só leitura diferente do mesmo fato?

Mimi

É um problema real. Se você reconhece que algo é falso num espaço, você deveria ter a mesma certeza no outro.

Mark

Os leitores que reclamaram — eles têm razão?

Luke

Alguns pontos são válidos. Mas também é verdade que jornalismo crítico não é "proselitismo político" só porque discorda de você. Há uma diferença.

Mimi

Claro. Mas quando você ouve apenas duas fontes com ideias parecidas e conclui que algo não está acontecendo, quando na verdade está acontecendo diante de todos — isso não é crítica, é distorção.

Mark

Então o jornal precisa mudar como cobre a direita?

Luke

Precisa cobrir com a mesma profundidade, a mesma desconfiança saudável, a mesma busca por complexidade que deveria aplicar a qualquer lado. Nem mais, nem menos.

  • Eduarda Campopiano foi eleita com quase dois milhões de votos — a maior votação para a Assembleia Legislativa de SP em anos — e a Folha a havia mencionado apenas cinco vezes antes da eleição, quatro delas de forma marginal ou anedótica.
  • Ao tentar cobrir a ascensão de mulheres conservadoras no Congresso, o jornal ouviu apenas fontes com visões semelhantes e concluiu que a onda não havia acontecido, ignorando a evolução histórica dos dados.
  • Leitores reagiram com cartas e cancelamentos de assinaturas, acusando o jornal de tratar políticos de direita como 'estranhos e esquisitos' e de seguir uma cartilha ideológica pré-concebida.
  • Flávio Bolsonaro recebeu cobertura que alguns leitores interpretaram como deferência excessiva: afirmações sobre a democracia brasileira foram reproduzidas sem ressalvas, enquanto o editorial do próprio jornal as classificava como fake news.
  • O debate sobre o papel da imprensa nos resultados eleitorais rapidamente cedeu espaço às dinâmicas das redes sociais — mas isso, argumenta a crítica interna, não absolve o jornalismo de suas próprias falhas de observação.

Nas semanas que se seguiram às eleições de 2026, a Folha de S.Paulo viu-se diante de um espelho incômodo: críticas vindas de dentro e de fora da redação apontavam para uma cobertura que ignorou fenômenos eleitorais da direita enquanto estendia generosidade excessiva a outros. O episódio revela uma tensão antiga e universal no jornalismo — a distância entre o mundo que uma redação imagina e o mundo que os eleitores constroem nas urnas. Mais do que um debate sobre viés, trata-se de uma convocação ao ofício em sua forma mais essencial: ver o que está diante dos olhos, mesmo quando contraria as próprias expectativas.

A semana pós-eleitoral trouxe à Folha de S.Paulo uma onda de críticas que não poupou nem a própria redação. Acusada de ter prejudicado o desempenho de Lula com sua cobertura, o jornal também se viu questionado por um problema oposto: ter ignorado sistematicamente fenômenos da direita que os eleitores tornaram inegáveis nas urnas.

O caso mais emblemático foi o de Eduarda Campopiano, do PL, eleita com a maior votação para a Assembleia Legislativa de São Paulo em anos — terceira mais votada no país inteiro, atrás apenas de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Antes da eleição, a Folha havia mencionado seu nome apenas cinco vezes, quase sempre de forma lateral ou caricata. Quando finalmente a apresentou ao leitor, escolheu o rótulo de 'antifeminista', abrindo mão de um perfil mais denso tanto da eleita quanto do eleitorado que a escolheu.

No plano nacional, a cobertura seguiu padrão semelhante. Diante do avanço do PL no Legislativo, o jornal concluiu — com base em duas fontes de visões convergentes — que a onda conservadora não havia produzido uma onda equivalente de mulheres à direita, ignorando a evolução histórica desse fenômeno. Leitores escreveram reclamando de 'tratamento desrespeitoso' e de uma 'visão distorcida e parcial' sobre políticos conservadores.

No sentido oposto, Flávio Bolsonaro recebeu uma cobertura que alguns leitores interpretaram como deferência. Afirmações suas sobre a democracia brasileira foram reproduzidas sem ressalvas nas reportagens — mesmo depois de o próprio editorial da Folha classificá-las como fake news. A impressão que ficou foi a de um excesso de boa vontade onde o questionamento deveria ter prevalecido.

O debate sobre a influência da imprensa nos resultados eleitorais logo migrou para as redes sociais e os algoritmos. Mas a crítica mais persistente permaneceu interna: o fosso entre o que os eleitores fizeram nas urnas e o que o jornal havia contado sobre eles é, antes de tudo, um problema de observação — e de humildade para reconhecer o que se deixou de ver.

A semana que se seguiu aos resultados eleitorais trouxe consigo uma onda de críticas não apenas à campanha petista, mas também ao próprio jornal. A Folha de S.Paulo, junto com outras redações, viu-se acusada de ter prejudicado o desempenho de Lula através de sua cobertura. No final da campanha, havia até quem sugerisse que os jornalistas retornassem ao "cercadinho" — aquele espaço onde a mídia era confinada e humilhada durante a gestão Bolsonaro, enquanto Jair Bolsonaro cumpre pena e seu filho disputa a eleição presidencial.

É tentador atribuir aos jornais todo o peso dos resultados eleitorais. Mas numa era de inteligência artificial, duas décadas de redes sociais e um fluxo de informação que ignora redações com facilidade, essa atribuição soa quase ingênua. A conversa logo se deslocou da imprensa para vídeos viralizados e dinâmicas online. Ainda assim, isso não absolve os jornais de sua responsabilidade. Há problemas concretos na forma como o jornal observa não apenas a esquerda, mas também a chamada direita ideológica. O fosso entre o que os eleitores fizeram no domingo e o que as páginas do jornal contaram sobre eles evidencia uma necessidade urgente: descer do salto — uma exigência que agora se faz aos dois presidenciáveis, mas que é essencial, sobretudo, ao jornalismo.

Eduarda Campopiano, do PL, foi eleita com a maior votação do ano para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Na história estadual, ficou atrás apenas de Janaína Paschoal em 2018. No país inteiro, foi a terceira mais votada, depois de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos também do PL. Antes da eleição, porém, a Folha havia mencionado seu nome apenas cinco vezes: quatro em 2026 — em uma reportagem sobre a estratégia do PL com "mulheres conservadoras e candidata trans", num ranking de políticos mais influentes no Instagram, como coadjuvante de Pavanato numa confusão na USP, e como piada por ter sido interrompida por um som de flatulência na Câmara de Praia Grande — e uma vez em 2022, como mero degrau para um comentário de Eduardo Bolsonaro. O fracasso não estava apenas em não ter antecipado o fenômeno. Quando finalmente apresentou Campopiano e seus quase dois milhões de votos, o jornal escolheu a caricatura da "antifeminista". Embora a própria eleita não se afaste muito desse personagem, caberia ao jornalismo buscar um perfil mais denso dela e do eleitorado que a elegeu.

No plano nacional, a cobertura não foi muito melhor. Diante do resultado avassalador do PL e de suas mulheres no Legislativo, a Folha concluiu que "a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita" — sem considerar como essa presença evoluiu ao longo do tempo. O jornal ouviu duas pessoas com ideias parecidas e informou ao leitor que aquilo que se desenrolava diante de todos não estava acontecendo. Apresentou, sem contraposição, a ideia de que a "identidade política dessas parlamentares pode dificultar acordos", sugerindo obstáculos ideológicos exclusivos de um lado.

Os leitores notaram. Tito Bernardi escreveu para reclamar que a reportagem havia dado "tratamento desrespeitoso e equivocado a deputados da direita" e que as pautas de Campopiano eram tratadas como "assuntos pitorescos, por não se encaixarem na limitada visão de mundo dos redatores da Folha". Bernardi afirmou que o jornal e seus jornalistas "não perceberam a onda da direita" e "parecem seguir uma cartilha pré-concebida" sobre esses políticos, "tratando-os como estranhos, esquisitos e fora da realidade, apresentando aos leitores uma visão distorcida e parcial". Ele reconheceu que a Folha pode e deve discordar das opiniões e propostas desses políticos, mas que para isso existem espaços reservados para editoriais e opinião. Raphael Câmara, médico e conselheiro federal de medicina pelo Rio de Janeiro que foi secretário de Saúde na gestão Bolsonaro, também escreveu uma carta reclamando de proselitismo político no corpo opinativo do jornal. "E foi provado ontem que não reflete a opinião do Brasil. A maioria votou em Flávio. Não porque sejamos nazistas e loucos. Mas porque defendemos valores."

Mas a atenção que faltou à direita legislativa pareceu sobrar para Flávio Bolsonaro. Alguns leitores perceberam uma cobertura que já o tratava como eleito. Para uma assinante que cancelou sua assinatura, o ponto de ruptura foi uma manchete sobre "redemocratização" do país, acompanhada da linha-fina "diz que também 'vai arregaçar com vagabundo'", sem qualquer ponderação. Numa reportagem posterior sobre a explicação do candidato do PL para "mudar a Constituição", o jornal afirmava que esse Bolsonaro, avatar do pai, "tem dito defender a democracia e o equilíbrio entre os Poderes". Em outra matéria, o candidato afirmava que "o país não vive uma democracia plena", sem que houvesse ressalva à afirmação, feita diante de vários jornalistas. Um editorial da Folha reconheceu "fake news" nessa afirmação de Flávio sobre a democracia brasileira, mas a reportagem não demonstrou a mesma convicção — diferentemente da certeza com que o jornal tratou a questão de Nossa Senhora Aparecida. Fica a impressão de um excesso de boa vontade, com contexto e questionamento insuficientes.

A reportagem tem dado tratamento desrespeitoso e equivocado a deputados da direita. As pautas da deputada são tratadas como assuntos pitorescos, por não se encaixarem na limitada visão de mundo dos redatores da Folha.
— Tito Bernardi, leitor
A maioria votou em Flávio. Não porque sejamos nazistas e loucos. Mas porque defendemos valores.
— Raphael Câmara, médico e ex-secretário de Saúde
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