Em meio à expansão da vacinação infantil contra a covid-19 no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz ouviu mais de 15 mil responsáveis por crianças e adolescentes e descobriu que a maioria deseja proteger seus filhos — mas que o medo e a desinformação constroem, silenciosamente, uma barreira entre a intenção e o ato. A hesitação não é indiferença: é o reflexo de uma sociedade navegando entre dados científicos e narrativas conflitantes, enquanto 1.422 menores já haviam perdido a vida para a doença. O estudo, batizado de VacinaKids, lembra que compreender a dúvida é o primeiro passo para dissolvê-la.
Fiocruz: 80% dos pais pretendem vacinar filhos contra covid-19, mas hesitação persiste
A vacina é segura e os dados comprovam
O estudo mostra que mais de 80% dos pais querem vacinar, mas isso significa que a hesitação é um problema pequeno ou grande?
Depende de como você vê. Oitenta por cento é uma maioria clara, mas significa também que uma em cada cinco famílias está hesitante. Em números absolutos, com milhões de crianças no Brasil, isso é muita gente.
Mas o estudo não diz quantas dessas pessoas que "pretendem" vacinar realmente levaram seus filhos à clínica. Intenção e ação são coisas diferentes.
Verdade. A pesquisa captura o que as pessoas dizem que vão fazer, não o que fizeram. Mas identifica os medos específicos — medo de reações adversas, de efeitos de longo prazo, a crença de que imunidade natural é melhor.
E esses medos têm base? A miocardite é realmente um risco?
A Fiocruz encontrou 11 casos em 8,7 milhões de doses. Todos se recuperaram. Mas a covid-19 também causa miocardite, às vezes de forma mais grave.
Onze casos em 8,7 milhões é 0,00013%. É um número real, mas é muito pequeno. O que importa é se os pais entendem isso quando ouvem "miocardite".
Então a questão é comunicação, não segurança?
É ambas. A vacina é segura pelos dados. Mas pais que ouvem histórias de reações adversas na internet não veem os números — veem histórias de pessoas como eles.
E o estudo não diz se esses pais hesitantes estão em comunidades específicas, se têm acesso à informação de qualidade, ou se estão isolados em bolhas de desinformação.
Então o que muda com esse estudo?
Identifica onde estão os medos e quem está hesitante. Permite que a Fiocruz e o sistema de saúde saibam onde focar a comunicação.
Mas só se alguém realmente usar esses dados para conversar com essas famílias. Publicar números não convence ninguém.
O Pulso
- Mais de 80% dos pais brasileiros afirmam querer vacinar seus filhos, mas uma hesitação persistente — especialmente entre pais de crianças menores — ameaça comprometer a cobertura vacinal.
- O medo de reações adversas, efeitos de longo prazo e miocardite domina as preocupações, alimentado por desinformação que superestima riscos da vacina e subestima os da própria doença.
- Dados do CDC americano mostram que, em 8,7 milhões de doses Pfizer aplicadas em crianças, apenas 0,049% geraram eventos adversos notificados — e 97,6% deles foram leves ou moderados.
- A covid-19 hospitalizou quase 20 mil crianças e matou 1.422 menores no Brasil até dezembro de 2021, evidenciando que o risco real está na doença, não na vacina.
- A Fiocruz aponta que fechar o fosso entre intenção e vacinação efetiva exige comunicação clara, baseada em dados, capaz de responder às dúvidas legítimas das famílias.
Em meio à expansão da vacinação infantil contra a covid-19 no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz ouviu mais de 15 mil responsáveis por crianças e adolescentes e descobriu que a maioria deseja proteger seus filhos — mas que o medo e a desinformação constroem, silenciosamente, uma barreira entre a intenção e o ato. A hesitação não é indiferença: é o reflexo de uma sociedade navegando entre dados científicos e narrativas conflitantes, enquanto 1.422 menores já haviam perdido a vida para a doença. O estudo, batizado de VacinaKids, lembra que compreender a dúvida é o primeiro passo para dissolvê-la.
A Fundação Oswaldo Cruz conduziu o estudo VacinaKids com 15.297 responsáveis por crianças e adolescentes brasileiros para entender a disposição das famílias diante da vacinação infantil contra a covid-19. O retrato é ambivalente: mais de 80% declararam intenção de vacinar, mas uma hesitação relevante persiste em todas as faixas etárias — maior entre pais de crianças de 0 a 4 anos (16,4%), seguida por adolescentes (14,9%) e crianças de 5 a 11 anos (12,8%). A maioria das respostas veio do Sudeste, com 70,55% da amostra.
As razões para hesitar misturam medos compreensíveis e desinformação: receio de reações adversas e efeitos de longo prazo, crença de que a imunidade natural é superior à vacinal, minimização da gravidade da doença em crianças e desconfiança sobre o tempo de desenvolvimento da vacina. A miocardite figura entre os temores mais citados — mas a pediatra Daniella Moore, coordenadora do estudo, esclarece que dos 11 casos registrados entre crianças vacinadas nos EUA, todos se recuperaram, e que a própria covid-19 pode causar a mesma condição.
Os dados de segurança da vacina Pfizer reforçam a argumentação da Fiocruz: em 8,7 milhões de doses aplicadas em crianças de 5 a 11 anos entre novembro e dezembro de 2021, apenas 4.249 eventos adversos foram notificados — 0,049% do total —, sendo 97,6% classificados como leves a moderados, semelhantes aos efeitos já conhecidos de outras vacinas do calendário infantil.
Do outro lado da balança, os números da pandemia entre crianças são contundentes: quase 20 mil hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave e 1.422 mortes de menores de idade no Brasil até 4 de dezembro de 2021, incluindo 418 bebês com menos de um ano. Moore alerta que, embora a covid-19 seja em média menos severa em crianças do que em adultos, isso não significa ausência de risco real de agravamento e morte.
A conclusão do estudo é que a hesitação vacinal não equivale a descaso — é incerteza diante de um cenário novo e de informações contraditórias. O verdadeiro desafio está em transformar a disposição majoritária das famílias em proteção concreta, respondendo às dúvidas com clareza, empatia e evidências.
A Fundação Oswaldo Cruz realizou um levantamento abrangente sobre a disposição dos pais brasileiros em vacinar seus filhos contra a covid-19, ouvindo 15.297 responsáveis por crianças e adolescentes. O resultado apresenta um quadro dividido: enquanto mais de 80% dos entrevistados declararam intenção de vacinar, uma hesitação significativa persiste, revelando um fosso entre a aceitação geral e as dúvidas que mantêm muitas famílias afastadas das clínicas de vacinação.
A pesquisa, chamada VacinaKids, mapeou as razões por trás dessa hesitação e identificou padrões claros por faixa etária. Entre pais de crianças de 0 a 4 anos — grupo ainda não contemplado pela vacinação no momento do estudo — 16,4% disseram não pretender vacinar seus filhos. O percentual caiu para 12,8% entre responsáveis por crianças de 5 a 11 anos e subiu novamente para 14,9% entre aqueles com adolescentes. A participação na pesquisa concentrou-se na região Sudeste, com 70,55% das respostas, seguida pelo Sul (11,13%), Nordeste (8,27%), Centro-Oeste (7,6%) e Norte (2,4%).
Os motivos que levam pais a hesitar revelam uma mistura de medos legítimos e desinformação. O medo de reações adversas e possíveis efeitos de longo prazo encabeça a lista de preocupações. Muitos responsáveis também minimizam a gravidade da pandemia em crianças, acreditam que quem já teve covid-19 não precisa se vacinar, ou defendem que a imunidade natural oferece melhor proteção do que a vacina. Alguns argumentam que a vacina precisa de mais tempo para ser considerada segura, enquanto outros acreditam que crianças e adolescentes não correm risco real de desenvolver formas graves da doença. Há ainda quem prefira produtos naturais à vacinação.
A Fiocruz, por meio de sua coordenadora do estudo, a pediatra Daniella Moore, apresenta dados que contradizem muitos desses temores. Citando informações do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, Moore aponta que entre 8,7 milhões de doses da vacina Pfizer aplicadas em crianças de 5 a 11 anos entre novembro e dezembro de 2021, apenas 4.249 eventos adversos foram notificados — o equivalente a 0,049% das doses. Desses eventos, 97,6% foram leves a moderados, como dor no local da injeção, fadiga ou dor de cabeça, efeitos colaterais que pais já conhecem de outras vacinas do calendário infantil.
Um dos medos mais citados pelos pais hesitantes é a miocardite, inflamação do músculo cardíaco. Moore reconhece que esse evento foi registrado em 11 crianças vacinadas naquela faixa etária, mas ressalta que todas se recuperaram. Além disso, a pesquisadora lembra que a covid-19 também pode causar miocardite, particularmente quando evolui para a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica. "Alguns pais subestimam a gravidade da doença em crianças. No entanto, apesar da covid-19 ser considerada menos grave em crianças quando comparada a adultos, elas ainda assim ficam doentes, podem ficar graves e ter evoluções desfavoráveis", alertou a pediatra.
Os números de hospitalização e morte reforçam a advertência. Quase 20 mil crianças e adolescentes foram hospitalizadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave associada à covid-19 no ano anterior ao estudo. Até 4 de dezembro de 2021, 1.422 menores de idade haviam morrido pela doença no Brasil: 418 menores de 1 ano, 208 entre 1 e 5 anos, e 796 entre 6 e 19 anos. Esses dados colocam em perspectiva o risco real que a pandemia representa para a população infantil, mesmo que a doença seja, em média, menos severa em crianças do que em adultos.
A pesquisa da Fiocruz revela uma população brasileira majoritariamente disposta a proteger seus filhos, mas atravessada por dúvidas que precisam ser respondidas com clareza e dados. A hesitação não é negligência — é incerteza diante de uma tecnologia nova e de um ambiente saturado de informações conflitantes. O desafio que se coloca é transformar essa disposição geral em ação, fechando o fosso entre a intenção de vacinar e a concretização dessa proteção.
Citações Notáveis
Alguns pais subestimam a gravidade da doença em crianças. No entanto, apesar da covid-19 ser considerada menos grave em crianças quando comparada a adultos, elas ainda assim ficam doentes, podem ficar graves e ter evoluções desfavoráveis.— Daniella Moore, pediatra e coordenadora do estudo da Fiocruz