Fãs retornam a Interlagos após dois anos, mas descumprem protocolos de máscara

Evento ocorre em contexto de mais de 610 mil mortos pela COVID-19 no Brasil, com risco potencial de transmissão em aglomeração de grande porte.
Há um respeito do público apesar que nem todos estão de máscara
Reflexão de um torcedor sobre o comportamento dos espectadores diante dos protocolos sanitários.
Mark

Por que esse retorno a Interlagos importa agora, especificamente em novembro de 2021?

Mimi

Porque marca o primeiro grande teste de como as pessoas se comportam quando lhes é permitido voltar a aglomerações. Não é só sobre F1 — é sobre se os protocolos funcionam quando a vida real entra em cena.

Mark

Mas muitos ignoraram as máscaras. Isso não sugere que os protocolos falharam?

Mimi

Não exatamente falharam — foram implementados. O que falhou foi a adesão voluntária. A organização fez sua parte. As pessoas fizeram escolhas diferentes.

Mark

E quanto aos que não puderam entrar? Os cambistas, as famílias sem dinheiro?

Mimi

Esse é o lado invisível. Enquanto alguns gastam 50 mil reais em uma experiência, outros ficam do lado de fora ouvindo motores. A F1 é um espelho de desigualdade.

Mark

A enfermeira mencionou "negacionistas". Isso era comum naquela época?

Mimi

Muito. Havia pessoas que simplesmente se recusavam a se vacinar, mesmo com exigências claras. Não era ignorância — era recusa deliberada.

Mark

E o álcool em gel que nunca chegou?

Mimi

Um detalhe que revela a diferença entre planejamento e execução. Promessas feitas, realidade negligenciada.

Mark

O que você acha que aconteceu depois da corrida?

Mimi

Provavelmente transmissão de vírus, alguns casos. Mas também alívio genuíno de pessoas que conseguiram viver algo que amam. Ambas as coisas são verdadeiras.

  • Expectativa de até 170 mil pessoas em três dias no autódromo
  • Exigência de vacinação completa ou teste negativo (antígeno ou RT-PCR)
  • Mais de 610 mil mortos por covid-19 no Brasil até o evento
  • Ingressos no setor D custavam 2.800 reais cada
  • Primeira etapa de F1 em Interlagos desde 2019

Será um dos maiores aglomerados de pessoas no Brasil durante a pandemia, com capacidade de 170 mil visitantes em três dias no autódromo. Exigência de vacinação ou teste negativo implementada, com máscaras obrigatórias, embora nem todos os presentes respeitem o protocolo.

Após quase dois anos, torcedores voltam a Interlagos para o GP de São Paulo com expectativa de até 170 mil pessoas. Evento implementa protocolos sanitários rigorosos, mas muitos espectadores ignoram obrigatoriedade do uso de máscara.

Quase dois anos se passaram desde que um torcedor de automobilismo pisou em Interlagos para acompanhar uma etapa de Fórmula 1. Neste fim de semana, eles voltam. A organização espera receber até 170 mil pessoas ao longo de sexta, sábado e domingo — um número que fará do Grande Prêmio de São Paulo, marcado para domingo às 14h, um dos maiores aglomerados de gente no Brasil em plena pandemia de covid-19.

O autódromo tem capacidade para 60 mil pessoas. O recorde anterior em um evento esportivo brasileiro durante a crise sanitária havia sido estabelecido há apenas uma semana, quando 60.142 torcedores compareceram a um jogo entre Atlético-MG e América em Belo Horizonte. Interlagos, casa da Fórmula 1 desde 1990, não havia recebido a categoria em 2020 — o vírus impediu. A ausência custou caro não apenas aos fãs frustrados, mas também aos comerciantes e prestadores de serviço da capital paulista, cujos bolsos resentiram a falta de movimento.

Para entrar, era necessário comprovar vacinação completa ou apresentar um teste negativo realizado nas últimas 24 ou 48 horas, dependendo do tipo. Crianças de 5 a 12 anos também precisavam de teste. Quatro tendas funcionavam nos arredores do autódromo oferecendo exames: antígeno por 80 reais, RT-PCR por 280. Uma enfermeira relatou ter realizado 60 testes até o sábado à tarde. "Entre a maioria estão pessoas de outro país, mas também tem os negacionistas que garantem que não vão tomar a vacina", disse Raquel Bueno. Máscaras eram obrigatórias — exceto durante refeições — e ambulantes as vendiam por dois reais.

Mas nem todos respeitaram. Apesar da exigência clara, muitos espectadores circulavam sem o acessório no sábado. A organização havia prometido distribuir totens de álcool em gel 70% pelo autódromo, algo que até o sábado ainda não havia acontecido. Os protocolos também esvaziaram o paddock, aquela área onde pilotos, membros das equipes e convidados costumam se misturar. Os escritórios das equipes, que até 2019 ofereciam comida, bebida e confraternização, funcionavam agora sem esses serviços.

Arthur Machado e Gabriele Fischer, ambos com 24 anos, viajaram de Curitiba e investiram 50 mil reais — passagem, hospedagem, ingressos, passeios — para realizar um sonho de família. Garantiram lugares no setor D, onde cada ingresso custava 2.800 reais e oferecia arquibancada coberta, open bar e telão. Um copo no evento saia por 50 reais; um boné, entre 500 e 900; uma camiseta polo da Mercedes, 1.100. Jhonny Ferraz, 28 anos, brasiliense apaixonado por F1, havia desistido de vir em 2019 por razões financeiras e familiares. Planejou retornar em 2020, mas o cancelamento o frustrou. Agora, com 3 mil reais de orçamento, sentia-se seguro com os protocolos. "Há um respeito do público apesar que nem todos estão de máscara", disse.

Fora das arquibancadas, a realidade era outra. Cambistas vendiam ingressos a três ou quatro vezes o preço oficial nas ruas do entorno. A família do professor Cleber Eduardo Rubio, 50, não tinha dinheiro para entrar. Ficaram alguns minutos em frente a um portão para que seu filho Gabriel, 13, fã de Lewis Hamilton, pudesse ouvir o ronco dos motores. A mãe, Karen Borges, 43, coordenadora de vendas, não vinha a Interlagos desde 2007 — um ano antes de Gabriel nascer, quando assistiu à vitória de Kimi Raikkonen, que este ano se aposentaria da F1. Cleber reclamou dos preços: quatro ingressos custariam quase 5 mil reais. "Não tinha como", disse, incomodado também com os cambistas que o abordavam constantemente.

O retorno do público a Interlagos carregava esperança para o setor de serviços e comércio, mas também expunha uma tensão profunda: entre o desejo de normalidade e a realidade de mais de 610 mil mortos pela covid-19 no Brasil. A organização divulgaria os números oficiais de público apenas após a corrida no domingo.

Entre a maioria estão pessoas de outro país, mas também tem os negacionistas que garantem que não vão tomar a vacina
— Raquel Bueno, enfermeira que realizava testes no autódromo
Há um respeito do público apesar que nem todos estão de máscara
— Jhonny Ferraz, torcedor de 28 anos
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